Duas ou três palavras sobre a luta dos metalúrgicos da GM

São José dos Campos, madrugada do dia 2 de agosto. Milhares de operários estão acordando em suas casas e se preparando para mais um dia de trabalho em suas fábricas. Para os trabalhadores do setor do MVA da General Motors (GM) pode ser o último. Há meses estes companheiros vêm enfrentando a ameaça de fechamento do setor na principal empresa em São José. E durante essa derradeira semana eles assistiram ao início do desmonte da linha de produção em que por tantos anos trabalharam.
Às portas do MVA, enquanto aguardam o início da assembleia, o assunto desses companheiros não poderia ser outro: será possível evitar as demissões? Qual será o resultado das negociações? Muitos, porém, preferem o silêncio.

Atento, caminho entre meus companheiros. Estão apreensivos, mas ainda nutrem esperanças. Apesar da ganância da empresa, esses homens e mulheres ainda crêem em uma saída. Alguns se dirigem a mim, me trazem perguntas, sugestões e os mais antigos puxam pela memória as histórias das inúmeras greves, das incontáveis lutas que juntos fizemos.

Os primeiros raios de sol rasgam timidamente a paisagem. Há uma enorme expectativa no ar. Ao chamado do sindicato, os metalúrgicos fecharam a rodovia Dutra, a mais importante do país. Mais de mil trabalhadores decididos a dobrar pela força um dos símbolos do império americano. E naquela madrugada de 2 de agosto, foi possível aos metalúrgicos da GM deter, momentaneamente, os planos de uma das maiores multinacionais do mundo.


e a reestruturação da GM
A história desta luta nos remete a crise da economia mundial, iniciada em 2008. A indústria automobilística foi duramente atingida pela queda nas vendas, somando um prejuízo de US$ 52,8 bilhões, o maior em toda a sua história. A GM, maior montadora do mundo na época e símbolo do capitalismo norte-americano, se viu fortemente atingida pela recessão global.

Em 2009, após acumular uma dívida impagável, a empresa anunciou sua concordata, tendo 60% de suas ações compradas pelo governo norte-americano de Obama. A partir daí a GM iniciou um plano de reestruturação mundial com o objetivo de retomar sua competitividade e seu espaço no mercado. Este plano tinha o objetivo de produzir mais veículos a um custo mais baixo. Para isso, era necessário rebaixar salários, reduzir direitos e fechar plantas em todo o mundo.

De lá para cá, foram 18 complexos fechados só nos Estados Unidos e mais de 40 mil postos de trabalho perdidos apenas neste país. Grosso modo, a reestruturação alcançou seus objetivos. Depois de sanar a empresa, Obama a devolveu para as mãos dos acionistas.

Em 2010 a GM voltou a ser a maior montadora do mundo. Em 2011 fechou o ano com um lucro limpo de US$ 9,3 bilhões. Para alcançar este feito a empresa teve de demitir, flexibilizar, reduzir salários e intensificar o ritmo de produção. Para se ter uma idéia a GM produziu em 2010 o mesmo número de carros que em 2008, mas com 40 mil funcionários a menos.

Agora a GM está estendendo seus planos de reestruturação para todo o mundo. Para citar apenas um exemplo, em Bochum, Alemanha, está fechando mais uma planta. O ataque da GM aos trabalhadores de São José só pode ser compreendido no marco da crise econômica e da reestruturação mundial da empresa, bem como os impactos desses fatores sobre o cenário nacional.

Qual foi a política do governo?
A crise econômica mundial ainda está longe do fim. A economia dos EUA segue com um crescimento muito frágil e a Europa se vê mergulhada numa profunda crise. O Brasil não está em recessão, mas já começa a sentir os efeitos da crise mundial.
Se em 2010 a economia brasileira cresceu 7,5%, em 2011 esse índice caiu para 2,7%. A previsão é de que o país deva crescer menos de 2% em 2012. O setor da indústria de transformação é o mais afetado e já se fala na possibilidade de uma recessão setorial.
No ano passado, dizendo temer os efeitos da crise mundial no país, governo, empresários e centrais sindicais (à exceção da CSP-Conlutas) realizaram uma série de iniciativas e acordos que convergiam na mesma direção, supostamente visando defender os empregos e a indústria nacional.

No setor automobilístico, sindicatos e empresas firmaram acordos para garantir empregos e investimentos em troca de flexibilização de direitos como novas grades salariais, banco de horas, reajustes menores etc.

O governo, por sua vez, reduziu o IPI em troca da garantia de empregos e taxou os carros importados, excluindo as quatro grandes montadoras aqui instaladas, supostamente visando favorecer a produção das empresas aqui já instaladas. O governo federal também realizou a desoneração da folha de pagamento, que está se estendendo a vários setores, inclusive ao setor de autopeças, dominado em 70% pelas multinacionais.

Uma receita que só beneficiou as multinacionais
Essa política levou a que o governo federal terminasse ajudando centralmente as montadoras. Só em isenções fiscais foram R$ 26 bilhões. Em relação à desonerações, o próprio ministro Guido Mantega declarou, no dia 18 de agosto, que “o governo tem feito várias desonerações em 2012, que somarão R$ 45 bilhões até o fim do ano”.
Ao mesmo tempo, as montadoras aproveitaram a taxação diferenciada das importações para não só para fazer frentes aos novos concorrentes, mas também aumentar as importações de carros produzidos a um custo menor a partir do Mercosul e o México. A GM, por exemplo, só em 2011 importou 89.800 carros. Neste período, a empresa deixou assim de gerar mais de três mil postos de trabalho no país. A GM, agora, pretende levar a produção do Classic de São José para a Argentina para importá-los novamente ao Brasil. Ou seja, a taxação diferenciada ao invés de proteger a produção nacional provocou o efeito contrário.

Por outro lado, as concessões fiscais e os acordos trabalhistas firmados não serviram para defender os empregos, já que não impediram as empresas de realizarem novas reestruturações, reduzindo salários e direitos, além de deslocar a produção para outras regiões e países, onde podem obter maiores lucros.

Assim, a GM já demitiu mais de 2 mil trabalhadores em São Caetano e São José. Na região do ABC, 1.500 trabalhadores da Mercedes estão em lay-off.. No Paraná, a Volvo demitiu mais de 200, e na Bosch mais 400. Até em Taubaté, onde a CUT fechou um acordo com redução da grade e de direitos, a Volks abriu um PDV. Em Manaus perdeu 4.254 empregos, principalmente na produção de motos. Em Resende, onde tem uma fábrica de caminhões da Volks, se perdeu 359 postos de trabalho.

Mas, ao contrário do que pode parecer, as montadoras seguem obtendo lucros exorbitantes no país. O Brasil vende um dos carros mais caros do mundo. A GM, por exemplo, vem batendo recordes de produção e de vendas nos últimos quatro anos. Os lucros das montadoras estão na casa dos bilhões e nos últimos quatro anos o setor faturou US$ 360 bilhões no Brasil. Para 2012, o mercado de automóveis deve crescer aproximadamente 2% no Brasil, segundo estimativas da patronal.

Ou seja, as montadoras no Brasil não estão tendo prejuízos. Ao contrário, seguem lucrando e enviando bilhões para salvar suas matrizes em crise. Em 2011 as montadoras remeteram para suas matrizes nos EUA e Europa US$ 5,58 bilhões de dólares, enquanto investiram apenas US$ 1,84 bi no Brasil.

Fica claro que a receita do governo e das centrais, longe de garantir empregos, beneficiou somente as multinacionais e o imperialismo.

Governo tem que proibir as demissões
A GM não está tendo prejuízo no Brasil. Pelo contrário, está lucrando muito e remete mais dinheiro para sua matriz do que investe no Brasil. A ganância da empresa não tem limites, demonstrando que não há nenhum compromisso social com São José e com os trabalhadores brasileiros. Na verdade, seu único objetivo é o lucro. Basta ver que um operário da planta de São José gera cerca de R$ 1 milhão para a GM ao ano, enquanto custa R$ 104 mil. Ou seja, a GM fatura R$ 900 mil reais por cada operário na planta de São José. Portanto, as demissões na GM não têm qualquer justificativa e o governo tem que tomar uma atitude concreta contra o abuso da empresa.

Dilma fez pronunciamentos contra as demissões, o Ministério do Trabalho enviou representantes às reuniões de negociação, mas até agora o governo não tomou nenhuma medida concreta para impedir as demissões. Já Guido Mantega, ministro do Planejamento, chegou a defender as demissões na GM, argumentando que a empresa estava com um saldo positivo na geração de empregos, o que os próprios dados do governo desmentem.

A luta contra as demissões na GM viverá nos próximos 60 dias momentos decisivos e o governo tem que tomar uma medida efetiva para impedir as demissões.

Unificar as lutas para garantir empregos, salários e direitos
Dois dias depois da ocupação da Dutra, uma reunião de nove horas entre a GM e o sindicato definiu a proposta que viria a ser aprovada em assembleia, no último dia 7. Até novembro, 900 trabalhadores seguirão produzindo. Outros 940 terão a suspensão temporária de seu acordo de trabalho (lay-off). Não é o que queríamos, mas ganhamos tempo. Nos próximos três meses seguirá a queda de braço com a empresa. Não será uma luta fácil.

A empresa irá pressionar os trabalhadores para aceitarem um pacote de redução de direitos, sem nenhuma garantia de empregos. Para impedirmos as demissões e a redução dos direitos será necessário a unidade de todos os trabalhadores da empresa para fortalecer cada vez mais as mobilizações. Mas isso não bastará. Também será necessário unificar as lutas e fortalecer as mobilizações desenvolvendo uma verdadeira campanha não só nacional como internacional.

Para isso é necessário que CUT, Força Sindical e demais centrais, rompam os acordos de redução de direitos firmados com a patronal e venham organizar junto com a CSP-Conlutas uma campanha unitária em defesa dos empregos, salários e direitos, começando por fortalecer a campanha de solidariedade aos trabalhadores com a GM. Um primeiro passo pode ser um dia nacional de mobilizações contra as demissões na GM e demais empresas do país.

Um programa para a GM e a indústria automotriz no Brasil

. Abertura dos livros contábeis da GM!
. Não às demissões! Não ao fechamento do MVA!
. Não à transferência do Classic para a Argentina! Pela produção do Classic e do Sonic na planta de São José! Pela volta da produção de Caminhões!

Propomos ao governo a adoção urgente das seguintes medidas:
-Edição imediata de uma medida provisória proibindo as demissões imotivadas por ao menos 2 anos!
– Redução da jornada sem redução de salário e proibição do Banco de Horas!
– Por um piso e um contrato coletivo nacional dos trabalhadores das montadoras.
– Sobretaxar as importações para nacionalizar a produção!
-Proibição da remessa de lucro das multinacionais para o exterior! 100% de re-investimento no Brasil!
– Pela nacionalização das empresas que demitirem em massa! Pela produção do primeiro carro nacional!

Propomos também um chamado ao movimento sindical e popular
– A CUT, Força Sindical, CTB e demais centrais tem que romper o pacto com os patrões e lutar por estas medidas!
– Unir o movimento sindical e popular por uma campanha nacional e internacional contra as demissões na GM e nas demais fábricas e regiões do país! Por um dia nacional de mobilização contra as demissões!
– Não aceitemos as manobras da multinacional para dividir os trabalhadores da GM de distintos países! Pela unidade internacional dos trabalhadores da GM contra a empresa! Por um Encontro Internacional dos trabalhadores da GM e demais montadoras que queiram se somar a esta luta!

Post author Toninho Ferreira, ex-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos
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