Duas imagens da visita de Bush ao Brasil

Bush e Lula, na Transpetro. Militante atingida por estilhaços de bomba
Fotos Agência Brasil e Sérgio Koei

Duas imagens valem mais que muitas e muitas palavras. A primeira é a do abraço entre Lula e Bush, na visita que ele iniciou aos governos que considera seus aliados na América Latina. A segunda é a da repressão pela polícia da mobilização anti-Bush na Avenida Paulista.

Esses fatos devem ficar guardados na memória dos trabalhadores e estudantes de todo o país. Bush deve ser repudiado por ser o representante do governo imperialista mais importante do planeta. Certo? E quem é o principal ponto de apoio de Bush no Brasil e na América Latina? A resposta é Lula.

Isso explica a primeira imagem e também a segunda. A repressão militar ao ato de São Paulo não pode ser atribuída unicamente ao governo Serra (PSDB). Há uma co-responsabilidade clara do governo federal. O maior esquema policial de nossa história foi montado pelo governo petista não só para impedir atos terroristas contra Bush, mas também para impedir que as mobilizações o perturbassem.

Lula, uma peça chave do esquema de Bush
O que aconteceu semana passada já seria gravíssimo em qualquer situação, mas fica ainda pior porque Lula está dando todo seu apoio a um governo Bush enfraquecido, que veio à América Latina buscando recuperar a iniciativa política.

Bush vive uma crise política marcada pelo desastre crescente da invasão militar no Iraque e a onda antiimperialista que avança em todo o mundo. Na América Latina, o maior efeito dessa crise é a série de grandes lutas contra os planos neoliberais e seus reflexos, que levaram a insurreições ou a vitórias eleitorais de governos que se diziam de oposição ao neoliberalismo.

Caiu por terra o velho argumento reformista de que “não se pode romper com o imperialismo porque ficaríamos isolados”. Uma ruptura do Brasil com o imperialismo teria o efeito de um terremoto no continente e se apoiaria numa forte base nas massas empobrecidas da América Latina.

Os governos da “centro-esquerda” do continente estão formalmente divididos em dois blocos: um deles capitaneado por Lula (que inclui Tabaré Vasquez, do Uruguai, e Michelle Bachelet, do Chile), diretamente submisso ao imperialismo ianque. A viagem de Bush, não por acaso começou pelo Brasil e continuou no Uruguai.

O outro bloco, comandado por Chávez, é composto por governos que viveram situações revolucionárias em seus países que lhes obrigam a ter um discurso antiimperialista. Existe uma enorme distância entre o discurso e a prática desses governos, que seguem pagando a dívida externa e aplicando os planos neoliberais. Nenhum deles se propõe a romper com o FMI ou com o neoliberalismo, mas capitalizam o sentimento antiimperialista amplamente difundido no continente. No mesmo período da viagem de Bush, Chávez também fez um giro pelo continente, fazendo atos anti-Bush na Argentina e Bolívia.

A visita ao Brasil foi uma expressão da importância dada por Bush a Lula, como um ponto de apoio na América Latina fundamental para se contrapor ao crescente peso popular de Chávez. Lula correspondeu plenamente ao chamado de Bush. Não só mantém as tropas brasileiras no Haiti, como prepara as reformas neoliberais reivindicadas pelo FMI, como a da Previdência e a sindical e trabalhista.

Os atos e o fracasso dos governistas
Os atos anti-Bush que sacudiram o país nos dias 8 e 9 integraram o Brasil ao circuito mundial de mobilizações que perseguem o presidente dos EUA onde quer que ele vá. Os atos também assumiram em sua maioria um caráter antigovernamental contra Lula. E isso gerou diversas crises.

Notou-se, além dos movimentos feministas, a presença numerosa de setores de oposição ao governo, com a Conlutas e o PSTU com grande peso, assim como do PSOL, Intersindical e outros setores.

Também estiveram presentes, contudo, representantes do PT, PCdoB e MST, que compõem a base de apoio do governo. Essas organizações buscaram explicitamente evitar que a mobilização se chocasse com o governo Lula. Era como se estivéssemos lutando contra um inimigo externo e não se pudesse criticar o governo, que eles entendem como um “aliado” contra Bush. Uma representante do PT perdeu a cabeça no ato de São Paulo, atacando histericamente os que criticavam o governo Lula.

No entanto, foi impossível esconder que o governo do PT apóia e é apoiado por Bush. Por isso, os atos assumiram também uma postura crítica à Lula. Em particular, foi enfatizada em todo país a denúncia da ocupação militar do Haiti por tropas brasileiras a serviço do imperialismo ianque.

A visita de Bush expressou com clareza a polarização crescente em que está metido o país. De um lado, Bush e Lula abraçados e protegidos por uma brutal operação policial. De outro, mobilizações radicalizadas em todo o país, ainda que de vanguarda.

No meio disso, o PCdoB e MST, além de setores do PT, que estiveram nas mobilizações para tentar manter o controle do movimento, mas fracassaram. Os ativistas honestos que ainda estavam iludidos com o governo Lula têm a obrigação neste momento de romper com este governo aliado de Bush.

Vamos dar o troco no dia 25
É possível dar a resposta contra Lula, Bush e seus acordos. No dia 25 de março, um Encontro Nacional vai reunir os sindicatos, entidades estudantis e populares que estão contra as reformas neoliberais do governo Lula.

A Conlutas, assim como setores das pastorais da igreja, confederações sindicais, a Intersindical e muitas outras organizações estão convocando este encontro com o objetivo de definir um plano de luta conjunto contras as reformas.

Não se pode lutar contra Lula e Bush sem construir a unidade do campo dos trabalhadores.

A resposta pode ser dada com a preparação de mobilizações que o governo Lula não enfrentou até agora. A amplitude da frente que estamos construindo nos permite apontar para uma luta unificada que vai desde o primeiro de maio até uma grande mobilização nacional no segundo semestre de 2007.

Do lado de lá, Bush e Lula já fizeram seus acordos contra nós. É hora dos trabalhadores e estudantes forjarmos os nossos acordos de luta contra as reformas.

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    Post author Editorial do Opinião Socialista nº 288
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