Doze mil vaiam Feijoó, mas aprovam acordo com a Volks

Quarta, 7 de dezembro. Começa a assembléia na Volkswagen, em São Bernardo do Campo, no ABC paulista. Depois de uma forte greve e da recusa da empresa em pagar a PLR, 12 mil trabalhadores comparecem. Atrás de cada um, outros milhares: filhos, esposas e maridos, mães. A assembléia começa, e o coordenador da Comissão de Fábrica anuncia: “Vamos logo ao assunto, com a palavra, o presidente do sindicato, Feijoó”. Embaixo, as doze mil bocas se abrem. Uma vaia unânime, demolidora, impressionante. Mais forte que um grito de gol.

A vaia deixa Feijoó furioso: “no grito vocês não vão ganhar!”. Ele veio para aprovar o acordo com a empresa. Pra isso, vale tudo. A ameaça é clara: ou os trabalhadores aceitam o acordo ou só receberiam o dinheiro – pelos dias parados na greve e pela segunda parte da PLR – ‘daqui a uns cinco anos´. Mesmo sem as vestimentas, Feijoó ameaça com a autoridade de um juiz “Esse processo é parecido com os processos de insalubridade”.

As ameaças e as mentiras continuam. E as 12 mil bocas vão se lembrando das outras, das que estão em casa, fazendo contas com eles, pensando como farão para pagar as dívidas, garantir o Natal, pagar a escola das crianças, o mercado, as prestações. Aos poucos, elas vão se fechando, e a vaia cessa.

Agora é só a voz de Feijoó que se escuta. O pelego começa a apresentar de novo a proposta do sindicato. Dos 17 dias úteis de greve, seis seriam descontados, um a cada mês. Os operários terão que trabalhar seis sábados como horas normais, dois por mês, e a Volkswagen pagará cinco dias para os trabalhadores. Um péssimo acordo, levando-se em conta que o TRT tinha julgado a greve como legal e obrigou a Volks a pagar os 17 dias e a PLR de R$ 4.750.

Diante do silêncio, Feijoó perdeu as estribeiras. Disse que o acordo ‘era uma grande vitória dos trabalhadores´. Aí foi demais. Veio outra estrondosa vaia e muitos trabalhadores começaram a chamar o presidente do sindicato de burro e balançavam as orelhas pra que ele visse. Afinal, como pode ser uma ‘vitória´ perder 12 dias e a Volks apenas cinco?

Ainda assim, na votação, a proposta de acordo foi aprovada, com 30% de rejeição. Segundo Tico, da comissão de fábrica e da oposição, “os trabalhadores votaram porque estão endividados e não viam por parte da direção do sindicato nenhuma perspectiva de continuar a luta, mas daí achar que a proposta era boa tinha uma grande distância”.

A SAÍDA PARA O MOVIMENTO ERA MANTER A MOBILIZAÇÃO

A assembléia toda não durou mais do que 15 minutos. Foi o bastante para vaias, xingamento e para uma grande traição da direção do sindicato. Mas havia saída para o movimento. O boletim de oposição ‘Ferramenta de Luta´ apresentou a proposta de que o governo Lula emprestasse o dinheiro para os trabalhadores, pois esse, após a greve, tinha emprestado para a Volks 303 milhões de dólares, pelo BNDES.

O ‘Ferramenta´ denunciou ainda que a direção do sindicato não tinha feito tudo pela greve. Pelo contrário, a única mobilização de rua foi proposta pela oposição. A direção se recusou a fazer uma campanha para que a Volks pagasse o que devia para os trabalhadores, não organizou nenhum ato com as autoridades. A prova disso foi que o senador Suplicy veio à São Bernardo do Campo, visitou a fábrica Grob e não apareceu na Volks, que estava de greve. Tudo isso porque a greve saiu contra a direção do sindicato.

Mas o desgaste sofrido pela direção do sindicato foi grande e demonstração de organização e a disposição de luta mostra que é possível e necessário construir uma nova direção para os trabalhadores no ABC essa alternativa é a Conlutas.