Dois meses que podem significar muitos anos

Estamos no último ano do governo Lula, ou ao menos no último ano de sua primeira gestão. Os próximos dois meses vão definir as condições reais para construção de uma alternativa de esquerda, contra o desastre que significou esse governo para o movimento operário e a esquerda neste país.

O governo do PT foi capaz de ser a vanguarda do neoliberalismo na América Latina, o “capitão-do-mato” de Bush no Haiti. Transformou a CUT e a UNE em entidades chapas-brancas, quase agências do Ministério do Trabalho e da Educação. Igualou a “esquerda” e a “direita” no terreno da corrupção. Instalou uma gigantesca confusão na consciência de milhões e milhões de trabalhadores do país, que viram uma esperança se transformar em um pesadelo.

Muitos perderam a esperança de mudar o país, mas quando pensam na possibilidade de volta da direita, estão dispostos novamente a votar em Lula. Ainda que não tenham um décimo da expectativa de 2002, optam pelo “mal menor”. Outros tantos se perderam no ceticismo, passando a descartar qualquer alternativa de esquerda, dizendo “olhe aí o que Lula está fazendo”.

Mas um governo como o de Lula pode significar mais que um pesadelo ou a vitória do ceticismo. Pode abrir também a possibilidade de construção de uma alternativa de esquerda ao próprio PT, para um setor importante dos trabalhadores e dos jovens.
Isso teria uma enorme importância: uma alternativa política e sindical de esquerda permitiria um passo em frente para milhares de ativistas, milhões de trabalhadores. Caso isso não ocorra, a experiência feita se perderá na desilusão e no ceticismo. Uma parte dos que rompem com o PT e a CUT caminhará para a direita, outra se perderá no desânimo.

O PSTU está chamando o conjunto dos setores de esquerda, que se colocam em oposição ao governo Lula, a encararem este desafio. Estamos falando dos próximos dois meses, porque este é o desafio concreto. Neste período vai se realizar o Conat (Congresso Nacional dos Trabalhadores) convocado pela Conlutas. E também vão se definir as alianças para as eleições de outubro. Dois meses que podem fazer avançar ou retroceder muitos anos na reorganização do movimento de massas no país.

A preparação do Conat já começou, com as assembléias de eleição de delegados em todo o país, que vão ocorrer até 15 de abril. É possível que se reúnam ativistas representando sindicatos que contam mais de um milhão de trabalhadores em sua base. Podemos estar à beira de um fato histórico para o movimento de massas, a construção de uma alternativa à CUT.

Você que é um dirigente sindical ou ativista de oposição, que rompeu com a CUT ou Força Sindical e está disposto a construir uma nova alternativa para as lutas, entre em contato com a Conlutas, organize uma assembléia para discutir as propostas para o Conat.

Voltamos a chamar a esquerda da CUT e o P-SOL (que está dividido sobre este tema) a se somarem à construção da Conlutas.

É preciso evitar também a dispersão da esquerda no terreno eleitoral. A candidatura de Heloísa Helena pode ser um ponto de apoio para a construção de uma frente de esquerda, significando mais que uma candidatura do P-SOL. Pode ser a alternativa dos movimentos sociais, dos dirigentes das greves, das lutas populares e estudantis, a expressão eleitoral da reorganização do movimento de massas.

Para isso é necessário dar um caráter de classe a esta frente (excluindo alternativas burguesas, como o PDT), e fazer com que assuma um programa socialista. Para isso é necessário renunciar a uma pretensão hegemonista e autoproclamatória, buscando a composição de uma frente, respeitando os possíveis aliados, incorporando os movimentos sociais, o PSTU, o PCB. Também no terreno eleitoral é necessário apresentar uma alternativa unitária. A dispersão da esquerda em várias candidaturas fortalecerá a falsa polarização entre PT e PSDB-PFL.

Dois meses. Chamamos todos os que compreendam a importância estratégica destes dois meses, a se unirem conosco na construção da unidade da esquerda, tanto na preparação do Conat, como no terreno eleitoral.

Post author Editorial do jornal Opinião Socialista 251
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