Documentos da CIA comprovam que EUA articularam golpe de 64

Depois de mais de 20 anos do fim do regime militar, fragmentos da história continuam a surgir através de arquivos até então não revelados, como o do Instituto de Pesquisas Sociais, do ex-presidente Ernesto Geisel, e documentos da CIA (Central Intelligence Agency). Novos dados confirmam a participação ativa dos Estados Unidos no golpe militar de 1964. Este país que acompanhou o desenrolar dos acontecimentos no Brasil e preparou um plano de intervenção caso a ação golpista desatasse uma guerra civil.

Uma reportagem do jornal O Globo, publicada no dia 3 de julho, trouxe novas revelações sobre a participação dos EUA na articulação do golpe. A investigação teve como base os recentes documentos secretos revelados pela CIA. No entanto, os jornalistas também tiveram acesso à biblioteca Lyndon Johnson, no Texas, onde obtiveram uma gravação que detalha a participação do então embaixador americano no Brasil, Lincoln Gordon, e do próprio Lyndon Johnson, presidente dos EUA na época.

Nas gravações, o presidente Johnson, faz uma sugestão para o sucesso do golpe, dizendo: “eu colocaria nisso todo mundo que tem alguma imaginação e engenhosidade”, citando posteriormente os nomes do diretor da CIA, John McCone, e o secretário de Defesa, Robert McNamara. Johnson, ainda afirma que não pode tolerar o governo de João Goulart, e arremata: “eu investiria tudo nisso [no golpe] e até me arriscaria um pouco [por isso].

Os documentos da CIA ainda revelam que o governo dos EUA, por meio de Lincoln Gordon, articulou todo um apoio logístico, caso os golpistas enfrentassem alguma resistência armada.

Gordon recomenda a Washington para “tomar medidas o mais brevemente possível para a entrega clandestina de armas, que não sejam de origem dos EUA, para forças partidárias de Castello Branco em São Paulo”. As armas deveriam ser entregues “antes do início de qualquer violência”. O ex-embaixador recomenda ainda que os Estados Unidos realizem “uma demonstração de força com grande rapidez” para “minimizar as possibilidades de uma prolongada guerra civil”. Gordon sugeriu o envio de uma força naval e de um porta-aviões que, segundo ele, teria um “efeito psicológico” maior.

O governo dos EUA aceitou o pedido do seu embaixador no Brasil, justamente no dia em que o golpe militar foi deflagrado. Foram enviados a um local próximo ao litoral de Santos um porta-aviões, dois destróieres com mísseis guiados, outros quatro destróieres, duas escoltas de destróieres, navios-tanque, e cerca de 110 toneladas de munição e de bombas de gás para controle de massas e gasolina. Todo um operativo bélico montado para dar suporte militar aos golpistas no caso de resistência.

Golpe institucional prévio
Antes mesmo das tropas do Exército comandadas pelo general Olímpio Mourão Filho chegarem às ruas do Rio de Janeiro, no dia 31 de março de 1964, havia um plano para aparentar “legitimidade” ao golpe de Estado.

Essa preocupação foi ressaltada por Dean Rusk, o secretário de Estado dos EUA, como revelou um estudo do historiador Moniz Bandeira. O objetivo era realizar um golpe institucional prévio, de modo que o governo norte-americano pudesse fornecer ajuda militar aos militares golpistas de maneira “legitima”. Essa política foi revelada pelo próprio Lincoln Gordon em seu livro Brazil´s – Second Chance – En Route toward the First World.

A trama toda foi colocada em prática quando o senador Auro Moura Andrade declarou vaga a Presidência da República, mesmo sabendo que não havia nenhuma renúncia de Goulart, que continuava no Brasil. O golpe institucional foi uma ação preventiva, a serviço da justificação de uma intervenção militar norte-americana no Brasil, caso fosse deflagrada a guerra civil. A vergonhosa capitulação de Jango, entretanto, tornou-a desnecessária, e Gordon pôde declarar, aliviado, que estava “muito feliz” com o golpe.

Bandeira destaca que a operação para eventualmente intervir no Brasil começou por volta de 1961. Foi nesse ano que cidadãos norte-americanos, sob os mais diferentes disfarces, começaram a entrar no Brasil. Segundo informações do Itamaraty, em 1962, 4.968 norte-americanos, conforme dados oficiais, chegaram ao Brasil. Em 1963 o número baixou para 2.463.

Contraste
Por outro lado, contrastando com a política de preparação do golpe levada a cabo pelos EUA, figurava a passividade da maior organização operaria da época no Brasil: o Partido Comunista do Brasil. Sua política de alianças com a “burguesia progressista” contribuiu com a tragédia do golpe militar.

Tal política levou o partido a formar uma “frente única” antiimperialista com Jango, justificada na avaliação de que o desenvolvimento das forças capitalistas de produção era travado pelo imperialismo norte-americano. “O proletariado e a burguesia se aliam em torno do objetivo comum de lutar por um desenvolvimento independente e progressista contra o imperialismo norte-americano”, dizia um documento do partido.

O resultado dessa política foi trágico. Toda a esquerda na época pagou um alto preço pelos erros de avaliação. No dia do golpe, alguns militantes do PCB chegaram a achar que o Exército estava nas ruas para “defender a legalidade”. Um exemplo trágico da linha do “pacifismo” levada pelo PCB.