Do México ao Panamá, um plano para a Alca

Muito se fala, aqui no Brasil, da Alca. Mas pouco se sabe sobre outro plano do imperialismo tão perigoso quanto elaO PPP é um megaprojeto lançado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) em 15 de junho de 2001 para “estimular a cooperação regional para aproveitar de forma sustentável as riquezas e vantagens comparativas da região mesocentroamericana, reduzir a pobreza e inserir a área na economia globalizada”. Não acredite!

O objetivo do PPP é abrir o sul do México e a América Central para o investimento estrangeiro e sentar as bases para a fundação da Alca. Com investimentos do BID e do FMI (que vão engrossar a dívida externa) e dos governos da região (dinheiro público), a idéia é criar uma infra-estrutura para atrair indústrias com portos, rodovias, aeroportos que servirão para incrementar a extração de petróleo, energia e riquezas naturais.

Que espécie de indústria?

Parece bom, mas não é. É uma forma de explorar a abundante e barata força de trabalho da região. Enquanto o salário mínimo por hora nos EUA é de US$ 5.15, no México é de US$ 0,35 centavos, 14 vezes menos! Como o México abriga 714 dos 850 municípios mais pobres da região, Vicente Fox, presidente do México, quer usar essa “vantagem” para competir com a indústria maquiladora da Ásia. O presidente mexicano, homem da Coca-Cola e amigo de Bush, usa a pobreza como cacife para implantar mais maquiladoras. De fato, só neste ano, 92 novas maquilas instalaram-se no sul do México, pagando salários entre 30% e 40% mais baixos do que no norte.

É para esse tipo de “indústria”, para esse tipo de “emprego”, para esse tipo de “desenvolvimento” que o PPP está criando toda essa infra-estrutura!

Que espécie de proteção ao meio ambiente?

Outro alvo do PPP são as riquezas minerais, o petróleo, a água e a extraordinária biodiversidade da região. Sua exploração desenfreada para exportação vai provocar a degradação do meio ambiente, sem qualquer benefício para as comunidades locais.

Um dos componentes centrais do PPP é o chamado Corredor Biológico Mesoamericano. Seu foco é criar novas formas de controle da biodiversidade para facilitar sua exploração e privatização. Grupos indígenas de Chiapas e Oaxaca vêm denunciando o “roubo de nosso conhecimento tradicional sobre a natureza e seus recursos”. A Mesoamérica é uma das regiões mais ricas do mundo em biodiversidade, e a sobrevivência das culturas indígenas depende disso. No entanto, ela é hoje o alvo de uma privatização massiva dos recursos energéticos, em especial da água.

Região é colírio para a biopirataria

Formada pelo Panamá, Costa Rica, Honduras, Nicarágua, El Salvador, Guatemala e Belize, e os estados mexicanos de Campeche, Yucatán, Quintana Roo, Chiapas, Tabasco, Oaxaca, Guerrero, Puebla e Veracruz, a região mesoamericana estende-se por 102 milhões de hectares, com 64 milhões de pessoas, das quais quase a metade vive no campo, 40% trabalha na agricultura e 18% é indígena. Mais de 60% são pobres, em meio a uma incrível riqueza biológica: 1.797 espécies de mamíferos, 4.153 de aves, 1.882 de répteis, 944 de anfíbios, 1.132 de peixes, 75.861 de plantas, e incontáveis microorganismos. Tudo isso configura um invejável corredor biológico, colírio para os olhos das empresas multinacionais. Tanto a flora como a fauna são depredadas para a venda ilegal de mamíferos, répteis e plantas, sobretudo as orquídeas. O desflorestamento avança, principalmente no México. Em 1960, a selva Lacandona tinha 1,5 milhão de hectares com árvores e 12 mil habitantes; hoje tem 325 mil hectares com árvores e 215 mil habitantes! Essa riqueza biológica é possível, entre outras coisas, pela abundância de água doce, que em si mesma é um recurso estratégico.
Post author Cecília Toledo, da redação
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