Dilemas e riscos da nanotecnologia

Em março de 2006, um produto de limpeza que prometia proteger banheiros da proliferação de bactérias por até seis meses foi colocado à venda na Alemanha. Batizado de Magic Nano, o produto tornou-se um imediato sucesso. Contudo, apenas três dias depois do lançamento comercial, teve de ser recolhido por causa de sérias reclamações. Muitos afirmaram que o Magic Nano provocou problemas respiratórios, levando alguns consumidores, inclusive, à internação hospitalar.

E foi por meio deste conturbado episódio que a nanotecnologia apresentou-se ao grande público alemão: forte expectativa seguida por uma não menos acentuada preocupação. Naturalmente, muitos associaram o problema ocorrido com o Magic Nano aos riscos inerentes à nanotecnologia. Contudo, trata-se de um ponto de partida problemático, pois neste caso a caracterização desta nova tecnologia aconteceu de maneira espetacular e superficial, mediada em grande parte por estratégias publicitárias e não pelo debate público. Afinal de contas, quando falamos em nanotecnologia estamos nos referindo a que mesmo?

A nanotecnologia pode ser apresentada de duas formas. Em primeiro lugar, refere-se ao prefixo nano: um indicador de medida. Um nanômetro corresponde à bilionésima parte de um metro. Conseqüentemente, a nanotecnologia remete à escala e não especificamente a objetos ou conteúdos, como, por exemplo, a biotecnologia, cujo prefixo “bios” significa vida. Em segundo lugar, a nanotecnologia corresponde a uma série de técnicas utilizadas para manipular a matéria na escala dos átomos e das moléculas cuja observação requer microscópios especiais.

Como é possível imaginar, existem poderosos interesses por trás da nanotecnologia. Mais de 1.200 grupos corporativos no mundo se dedicam a desenvolver aplicações de nanotecnologia. Há desde velhos conhecidos como 3M, Du Pont, General Electric, Johnson & Johnson, HP, IBM e Intel, até competidores superespecializados, como NanoInk, Veeco, FEI, Arryx, Luxtera e Nanosys. Os investimentos feitos pelos países desenvolvidos e por parte das 500 maiores empresas existentes no planeta em nanotecnologia são enormes. Segundo a Comissão Européia, apenas em 2004, o montante de investimentos financeiros globais foi da ordem de oito bilhões de euros, dos quais os grandes grupos corporativos foram responsáveis por aproximadamente metade deste valor.

As possíveis aplicações das nanotecnologias são imensas: medicina e saúde, tecnologia de informação, produção e armazenagem de energia, ciência dos materiais, alimento, água e meio ambiente, instrumentos, fármacos, células-combustível de hidrogênio, exploração espacial… Será difícil encontrar um setor econômico que, no futuro próximo, permaneça alheio aos avanços nanotecnológicos.

Em decorrência disto e como freqüentemente acontece com as revoluções tecnológicas, também a nanotecnologia surge acompanhada por muitas esperanças. Da cura de doenças à despoluição dos mares, do fim da pobreza à renovação das fontes energéticas do planeta… Uma parte da comunidade científica acredita que o processo de convergência das chamadas tecnologias BANG (Bites, Atomic, Neuro e Genetic) esconde a chave para, inclusive, a vida eterna. Ou, conforme a expressão consagrada pela literatura, a chave para alcançarmos a condição pós-humana.

Por um lado, as nanotecnologias contêm a fascinante promessa de minúsculos robôs replicantes, os nanobots, que poderiam navegar velozmente pelos vasos sanguíneos como se fossem mecânicos da saúde para eliminar e destruir, por exemplo, coágulos de sangue e células cancerígenas, prolongando indeterminadamente a vida humana. E, por outro, a nanotecnologia poderia oferecer a base para o desenvolvimento de uma engenharia de computação atômica que utilizasse moléculas isoladas pra fazer funcionar os circuitos informacionais, aumentando, assim, indefinidamente o desempenho dos computadores e tornando viável a possibilidade de transferir o espírito humano para um suporte inorgânico formado por nanocircuitos.

Naturalmente, trata-se de um projeto – ao menos por enquanto – irreal, polêmico e que esbarra hoje em extraordinários limites políticos, culturais e tecnológicos. Contudo, a simples existência idealizada de um tal “projeto pós-humano” já indica a magnitude das esperanças trazidas ou ampliadas pela nanotecnologia. Em parte, são estas mesmas promessas e enormes expectativas que tornam mais difícil o reconhecimento da existência de riscos sócio-ambientais para os trabalhadores associados à produção industrial de nanoestruturas e de nanopartículas.

Por um lado, por exemplo, existe uma forte crença no meio científico de que a nanotecnologia não é perigosa por que a humanidade já convive há séculos com as nanoestruturas e nanopartículas são formadas naturalmente sem nunca ter ocorrido nenhum problema maior. Ao forjarem e temperarem espadas samurais e sarracenas, os artesãos armeiros japoneses e árabes produziam inadvertidamente nanotubos de carbono responsáveis pela excepcional qualidade das armas e a formação dos íons – átomos que por um motivo qualquer perderam ou ganharam elétrons – ocorre naturalmente na atmosfera por meio de colisões e movimentos dos átomos.

Esta crença, contudo, obscurece o fato de que a produção de nanopartículas ou materiais nanoestruturados em escala industrial traz consigo desdobramentos imprevisíveis quando comparados aos conhecidos ciclos naturais ou tradicionais de produção das mesmas.

Por outro lado, desde que o processo de mundialização do capital foi acelerado no início dos anos de 1980, o moderno campo tecnocientífico atravessa um período de transformações agudas em sua relação com o campo econômico. Particularmente, naquilo que diz respeito à relação entre o ciclo da inovação tecnocientífica e o ciclo do investimento em novos meios de produção decorrentes destas inovações. Todos sabemos que há aproximadamente dois séculos os progressos tecnocientíficos constituem os principais instrumentos de aumento dos lucros das empresas. Entretanto, existia uma nítida separação entre o ciclo de inovação e o ciclo de comercialização da inovação.

Em meados dos anos de 1970, e em resposta à crise do capital, diferentes países imperialistas, tendo os Estados Unidos à frente, decidiram liberalizar seus mercados financeiros e, assim, multiplicar as possibilidades de investimento. Com isso, e apoiado pelo rápido desenvolvimento das tecnologias da informação e da comunicação (computadores, satélites…), uma massa enorme de capitais sob a forma financeira passou a percorrer o mundo em busca de oportunidades de valorização.

Nos Estados Unidos, tais oportunidades apareceram sob a forma de ciclos de negócios permanentemente renovados pelo desenvolvimento de novas tecnologias. As décadas de 1970 e de 1980 conheceram o incremento da automação microeletrônica e um ciclo tecnológico amplamente sustentado pelo pesado investimento estatal no setor bélico: o programa “Guerra nas Estrelas”. A década de 1990 viveu o boom do setor de produção de TI (tecnologias de informação) e, posteriormente, a difusão da internet e dos negócios “ponto com” mundializados. O novo milênio surge apoiado na onda de investimentos em biotecnologias e em engenharia genética. E, agora, experimentamos o início da “Revolução Invisível” representada pela nanotecnologia e pela nanociência.

Em apenas três décadas experimentamos várias “revoluções tecnológicas” com suas promessas e seus encantos: a microeletrônica, as telecomunicações, a computação, a internet, a biotecnologia e a engenharia genética… Mas também passamos por várias decepções. O colapso das sociedades de tipo soviético e o fim da Guerra Fria acenderam a esperança de que o investimento em armamentos cedesse seu lugar a uma ciência voltada para o bem-estar e para a melhoria das condições de existência humanas. A primeira Guerra do Golfo acabou rapidamente com essa esperança.

O ciclo especulativo do início dos anos 1990 e que tornou viável o boom de crescimento patrimonial centrado no “conhecimento” proporcionado pela internet fracassou no início de 2000, levando consigo alguns trilhões de dólares. Não existe solução tecnológica para as contradições do capitalismo e a esperança de enriquecimento amplamente acessível para todos aqueles que soubessem empregar sua criatividade nos negócios “ponto com” também caiu por terra.

O frenesi em torno das biotecnologias e da engenharia genética, por sua vez, foi abafado pelo escândalo da falsificação de resultados da pesquisa genética com células-tronco, precursoras da clonagem terapêutica pelo cientista coreano Hwang Woo-suk. O caso teve repercussão mundial e serviu para ilustrar como a competição exacerbada por resultados espetaculares que ocorre atualmente no campo científico tem raízes em outro campo: o econômico.

As antecipações de lucros futuros, muito comuns nos mercados financeiros, têm pressionado instituições – universidades e empresas de pesquisa tecnocientífica – do campo científico para apresentar resultados mercadologicamente atraentes e em ritmo acelerado. Vivemos atualmente uma espécie de financeirização da ciência com o ciclo comercial passando à frente do ciclo de inovação e exigindo do campo científico resultados de curtíssimo prazo cada vez mais espetaculares no intuito de sustentar a agitação dos mercados financeiros.

Demonstrando uma vez mais que o capitalismo monopolista é uma enorme máquina de destruição de forças produtivas – a classe trabalhadora à frente –, o campo científico finaceirizado tende a sacrificar a precaução e o compromisso com os resultados inerente ao ofício do pesquisador e ceder às pressões das instituições de financiamento da ciência. Naturalmente, os riscos para a saúde dos trabalhadores ou para a preservação do meio ambiente decorrentes da produção tecnocientífica aumentam exponencialmente.

Apesar disso, os grandes grupos corporativos internacionais continuam envolvidos em uma desatinada corrida na direção de produzir e despejar o mais rapidamente possível produtos nanotecnológicos nos mercados mundializados e, consequentemente, nos mais diferentes ecossistemas. Não se trata de ser “contra” ou “a favor” da nanotecnologia. Esta apresenta potencial para se tornar um poderoso instrumento a serviço do bem-estar dos trabalhadores. Afinal, quem não gostaria de poder contar com transportadores moleculares capazes de levar medicamentos exatamente para o interior das células doentes, por exemplo?

Entretanto, como bem sabemos, o uso capitalista da nanotecnologia privilegia o lucro. E, nas condições sociais da financeirização neocapitalista contemporânea, um tipo de lucro de curtíssimo prazo. Avançar no debate a respeito da nanotecnologia implica reconhecer a realidade da contradição existente entre as necessidades humanas e a acumulação do capital.

* Ruy Braga é professor do Departamento de Sociologia da USP.