Dez anos depois do massacre

Dia 17 de abril marca os dez anos do assassinato de 19 trabalhadores rurais no município de Eldorado dos Carajás, no sul do Pará. Além dos mortos, mais de 60 trabalhadores, entre homens e mulheres, foram feridos. São os “mutilados”, alguns com seqüelas físicas que comprometem suas vidas até hoje.

A operação foi autorizada pelo então governador do Pará, Almir Gabriel (PSDB), em acordo com o secretário de Segurança, Paulo Câmara, e o comandante geral da PM, coronel Fabiano Lopes. Estes sequer foram indiciados pela Justiça. Os 150 policiais que participaram do massacre, incluindo alguns oficiais, foram absolvidos. Os comandantes locais, coronel Pantoja e major José Maria Oliveira, foram condenados em um segundo julgamento, mas estão em liberdade.

A impunidade é tão evidente que, alguns anos depois, o dirigente do MST, Fusquinha, foi assassinado por pistoleiros e, segundo denúncias, por alguns policiais que haviam participado do massacre.

Resultado das 19 mortes e da luta dos companheiros, foi desapropriada uma parte do complexo de fazendas Macaxeira e fundada a Vila 17 de Abril, onde estivemos. Estão vivos os traumas do massacre, mas também a luta e os sonhos.

O descaso público marca a Vila, mas a proximidade dos dez anos de massacre fez o governo federal liberar verbas para construção de uma ponte, um posto de saúde e um sistema de abastecimento de água.

As famílias dos mortos e mutilados não recebem quase nenhuma assistência do Estado. A ação indenizatória já teve decisão favorável aos companheiros, mas o governo estadual se recusa a pagar.

O dirigente estadual do MST Antônio Alves, o Índio, que sobreviveu ao massacre após receber três tiros, lembra que os mutilados vivem um outro massacre, “tão ou mais cruel que o do dia 17 de abril porque os tiros que levamos nos impedem de trabalhar”. Ele denuncia: “Vivemos doentes e sem apoio. Alguns tiveram que abandonar o assentamento para procurar tratamento em outros lugares”.

Avelino Germiniano, o Gaúcho, 52 anos, recebeu nove tiros e conseguiu sobreviver. Agora exibe com orgulho seu sítio e fala dos sonhos: “Eu tinha dois sonhos. Um eu já cumpri que é ter o meu pedaço de terra, nela produzir até meus últimos dias, sendo nela enterrado. O outro sonho é ver o meu filho numa faculdade pública”.

O governo estadual do PSDB não tem nenhum interesse em condenar os assassinos, mas o governo Lula também nada fez. Sequer conduziu uma política de reforma agrária diferente de FHC, manipulando números de desapropriação e apoiando o latifúndio e o agronegócio.

Índio faz um balanço: “falo com sinceridade, tirando nossos companheiros mortos, se tivesse que começar tudo de novo, nós começaríamos novamente. Sem luta não tem como melhorar nossa vida”.

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