Dez anos construindo um partido revolucionário

Marcha no Fórum Social Mundial. Foto Diego CruzNesses primeiros dias de junho, o PSTU comemora seu décimo aniversário. É uma data importante para nossos militantes e simpatizantes, mas nossas origens remontam a 30 anos atrás quando foi fundada a Liga Operária, em dezembro de 1973.

Esses 30 anos foram o cenário da maior mudança já ocorrida na classe operária brasileira. Da repressão brutal sofrida na mais longa ditadura militar do Brasil, os trabalhadores se lançaram à luta nas grandes greves de 1978, 79 e 80; construíram o maior partido dos trabalhadores da nossa história, o PT; construíram a maior central operária do país, a CUT; participaram da luta por Eleições Diretas que derrubou a ditadura e quase vinte anos depois levaram o PT ao governo.

Contraditoriamente, o momento que parecia ser o da maior vitória para os trabalhadores brasileiros se transformou numa enorme derrota. Hoje, o governo Lula é o representante “fundamentalista” do neoliberalismo em nosso país: em aliança com a submissa burguesia brasileira leva a política do FMI, isto é do governo norte-americano, às últimas conseqüências.

Para que essa derrota não se transforme em decepção e desânimo e para que os trabalhadores possam reagir e lutar contra os inimigos que até pouco tempo pareciam ser seus melhores amigos e dirigentes, é preciso primeiro entender o que se passou. Para isso, a comemoração dos 10 anos de vida do PSTU e os 30 anos de nossa corrente trotskista são muito oportunas porque estivemos no centro das lutas e dos debates que se deram no movimento operário e particularmente dentro do PT e da CUT. Por isso, nesse artigo queremos aproveitar essa comemoração para refletir sobre as principais questões em debate nestas três décadas.

As polêmicas e as lutas políticas desse período são mais atuais do que nunca. Podemos dizer que elas giram em torno de três temas. Qual é a estratégia da classe operária, destruir o estado burguês para construir seu próprio estado, através de uma revolução, ou participar do estado capitalista, chegando ao governo por meio de eleições? Para chegar ao poder deve manter sua independência de classe ou deve fazer alianças com setores da burguesia? E, finalmente, que tipo de partido os trabalhadores necessitam?

Duas estratégias em luta

Desde a fundação da Liga Operária e depois através da Convergência Socialista, especialmente durante os 12 anos que estivemos no PT, nossa corrente sempre defendeu a necessidade de uma Revolução Socialista no Brasil, como parte de uma revolução mundial, para que a classe operária tome o poder político, destrua o estado burguês e construa o seu estado. Para isso sempre defendemos que era imprescindível a independência da classe operária diante da burguesia e seus partidos, sem formar nenhum tipo de aliança política e eleitoral com seus inimigos de classe.

A direção do PT, formada pela Articulação e seus aliados, ao contrário, sempre defendeu e aplicou uma estratégia de chegar ao governo através das eleições para gerir o próprio estado capitalista burguês. Para isso foi defendendo cada vez mais todo tipo de alianças eleitorais com partidos burgueses, culminando no governo Lula com uma grande frente com empresários e partidos de direita para dirigir o país.

Hoje essas estratégias estão provadas: a política da Articulação levou o governo Lula a se constituir em agente submisso do imperialismo e no maior inimigo dos trabalhadores. O PSTU, ao contrário, é claramente um partido que se coloca como oposição de esquerda ao governo Lula.

Mas a polêmica não pára aí. Durante estes anos foram testadas não só duas políticas para o país, mas também duas concepções sobre que tipo de partido era necessário para a classe trabalhadora brasileira e qual deveria ser a política para construí-lo.
Nossa corrente sempre defendeu a necessidade de construir um partido revolucionário que pudesse dirigir a classe trabalhadora quando se colocasse a possibilidade de lutar pelo poder político através de lutas revolucionárias. Esse partido, segundo nossa visão, deveria ser um partido para a luta e não um partido eleitoral; um partido que tivesse como programa a revolução socialista mundial; um partido empenhado na construção de uma organização internacional dos trabalhadores e um partido baseado no centralismo democrático, forma de organização adotada pelo Partido Bolchevique para tomar o poder na Rússia em 1917. Isso é o tipo de organização que estamos construindo hoje.

A Articulação sempre defendeu e aplicou no PT uma concepção oposta: a de um partido eleitoral, cuja estratégia central é eleger parlamentares e ganhar postos no executivo do estado capitalista. A estrutura desse partido girou cada vez mais em torno dos parlamentares, dos prefeitos e dos governadores que são os que verdadeiramente decidem. A base não tem um real poder decisório e participa de encontros e congressos que só ratificam a política já aplicada pelos parlamentares e dirigentes do executivo.

Mas essa polêmica não pára na Articulação, se estende às organizações de esquerda que permaneceram no PT, algumas defendendo inclusive que este era um partido estratégico. E se estende também à Esquerda Socialista e Democrática (ESD), encabeçada pela senadora Heloísa Helena, que foi expulsa do PT e está se lançando à construção de um novo partido. O ponto em comum entre essas organizações é a rejeição da necessidade de construir já, de forma urgente, um partido revolucionário e socialista, organizado com base no centralismo democrático.

Os companheiros da Esquerda Socialista e Democrática defendem uma organização onde convivam correntes reformistas e revolucionárias que tenha um programa anti-capitalista genérico; um eixo fundamental na participação em eleições e uma estrutura com tendências permanentes organizadas em torno de parlamentares. Na medida em que estão obrigados a manter a convivência com correntes reformistas, evidentemente não podem definir a revolução socialista como sua estratégia. Do mesmo modo, desde seu movimento constitutivo esse partido coloca as eleições a candidatura de Heloísa Helena a presidente, como centro da política e da ação de seu partido. Em essência, sua proposta é construir um novo PT. Essa é a explicação de fundo de porque se recusaram a construir um novo partido revolucionário com o PSTU.
Como é evidente, não só este debate está na ordem do dia como da luta que daí decorre depende o futuro da classe trabalhadora em nosso país. A comemoração dos 10 anos de existência do PSTU e os 30 de nossa corrente trotskista ajuda a reavivar essa polêmica e esperamos que ajude a impulsionar a construção desse partido revolucionário no Brasil.

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