Depois das eleições, as passagens aumentam

Os aumentos das passagens no início do ano, após as eleições, são tão comuns que praticamente já se incorporaram ao calendário. É um ciclo, como o que traz as águas de março e as enchentes. Na campanha, o candidato recebe doações dos empresários dos transPara se eleger em 2004, os prefeitos de 21 das 26 capitais, gastaram juntos cerca de R$ 45 milhões. José Serra (PSDB), sozinho, gastou R$ 14,8 milhões para eleger-se prefeito de São Paulo. Passados 60 dias de sua posse, o tucano aumentou a passagem em 17,65%, subindo o preço de 1,70 para R$ 2.

Seu parceiro no governo do estado, Geraldo Alckmin, já havia aumentado para R$ 2,10 a passagem do metrô, e praticamente extinguiu os descontos nos bilhetes com mais viagens.

A cena repete-se país afora. Em Porto Alegre (RS), as empresas solicitaram ao prefeito José Fogaça (PPS) um aumento de 16,8%, o que elevaria a tarifa de R$ 1,55 para R$ 1,81. O anúncio da medida provocou uma onda de protestos, reunindo estudantes e trabalhadores da cidade. Em Recife (PE), o prefeito não esperou nem virar o ano. Em seu primeiro mandato, João Paulo (PT) já havia acabado com o emprego de milhares de kombeiros. Reeleito, autorizou, em dezembro, o reajuste de 15% nas passagens.

Os aumentos repetem-se ou estão anunciados também em muitas outras cidades, como Passo Fundo (RS) e São José dos Campos (SP). Em outras tantas, o aumento é combinado com ataques à gratuidade, principalmente contra o passe-livre ou a meia-entrada estudantil.

Relações carnais
A promiscuidade entre governantes e empresários é assustadora. Os donos de ônibus garantem a eleição e depois controlam vereadores e prefeitos, que aprovam reajustes e monopólios. A farra chega aos governos estaduais. O governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), tem como vice Clésio Andrade (PL), dono da Viação Jabaquara e da Itamaraty Transportes. Clésio está sendo investigado pelo Ministério Público, pela suspeita de lavagem de dinheiro para financiamento de campanha. Também é presidente da Confederação Nacional dos Transportes (CNT), por meio da qual encomenda pesquisas eleitorais (altamente desacreditadas) ao Instituto Sensus. Quer dizer, é candidato, encomenda pesquisas e coordena as doações dos empresários de transporte. Aécio não deve reclamar, pois, em 2002, apenas da Julio Simões Transportes, recebeu uma doação de R$ 131 mil.

Sem-transporte
Os aumentos têm provocado uma queda na quantidade de passageiros e têm forçado uma legião de trabalhadores a caminhar. Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada verificou que 33 milhões de pessoas deixaram de utilizar o transporte público. Em São Paulo, a redução de passageiros, entre 1994 e 2003, foi de 34%.

Além de andar horas para trabalhar ou procurar emprego, muitos fazem malabarismos para poder viajar. Em pesquisa na Região Metropolitana de Belo Horizonte, os entrevistados, com renda de até três salários, deram as suas receitas: eles andam de carona, compram passes mais baratos, passam por baixo da roleta, negociam com o trocador e, quando nada disso funciona, dão calote.

Além desses, que insistem em driblar a sorte, uma legião de pessoas nas grandes cidades simplesmente desistiu de tentar voltar a suas casas nos dias úteis. Dormem nas ruas ou em abrigos, forçadas a abrir mão do contato com a família e, aos poucos, de sua dignidade.

‘Na Sé, sempre enche’
Metrô Sé. 6h15. A porta abre e uma moça magra, de seus vinte e poucos anos, entra depressa no vagão, apertando o passo e a pasta junto ao corpo. A pequena multidão do lado de fora empurra os da frente e logo a moça se vê espremida. Não reclama, nem se desespera. Depois de alguns minutos, o senhor à sua frente move-se alguns centímetros e ela consegue soltar os braços.

Metrô, ônibus, trem, kombi, van. Os aumentos sucessivos superam a inflação e não se traduzem em melhorias na qualidade do serviço. Além do preço, os horários, a demora e as péssimas condições dos veículos são os principais motivos das reclamações. Em pesquisa realizada pelo instituto Itrans, pessoas com renda familiar de até três salários mínimos disseram o que acham do serviço: “Parece um liquidificador, só dá tranco”. “A condução é péssima. Evito de sair, fico estressada só de ficar no ponto”.

Obrigada a morar na periferia, a maioria dos trabalhadores sacoleja em ônibus e trens semidestruídos até chegar ao local de trabalho. Muitos têm de pegar duas ou mais conduções. Os do Rio de Janeiro são os que levam mais tempo para chegar ao trabalho – em média, uma hora e 24 minutos. Diariamente, são quase três horas só para poder trabalhar. Na grande São Paulo, 50,5% da população leva mais de uma hora no trajeto.

Os aumentos nas passagens tampouco são repassados aos rodoviários. De 1994 a 2003, o salário médio nas capitais manteve-se na faixa dos R$ 800, sem recuperar as perdas do período. Além da queda na renda, motoristas e cobradores compõem uma categoria com altos índices de estresse e são as maiores vítimas da violência e dos assaltos.

Do bonde ao buzu

Desde o século passado, população revolta-se com aumentos nas tarifas, com a juventude à frente

Nem sempre a fome de lucros da máfia dos transportes é saciada. Em 1987, a população do Rio de Janeiro destruiu cem ônibus, em uma revolta que começou nas imediações da Central do Brasil e alastrou-se pelo Centro da cidade. Ao fim do dia, o juiz, que autorizara um aumento de 50% sem comunicar à população, recuou.

A história de nosso país é repleta de exemplos em que os trabalhadores se revoltaram com os aumentos e com as más condições do transporte. Em 1901, os bondes foram revirados, em um protesto contra os aumentos das tarifas. Em 1959, um quebra-quebra obrigou o estado a tornar público o serviço da barca Rio–Niterói.

PASSE-LIVRE – No atual século, os protagonistas são os estudantes, com sua luta contra os aumentos e pelo passe-livre. Florianópolis (SC) e Fortaleza (CE) foram algumas cidades que viram a força da mobilização dos estudantes. Foi em Salvador, porém, em 2003, que a luta encontrou o seu auge, na histórica Revolta do Buzu. Por semanas, passeatas diárias fecharam o Centro e as principais avenidas.

Há algumas semanas, foi a vez dos estudantes de Porto Alegre saírem às ruas, contra o aumento e pela gratuidade. O Comitê de Luta Contra o Aumento da Passagem, formado em uma plenária convocada pela Conlutas, vem se fortalecendo e realizando importantes ações. O passe-livre para estudantes e desempregados e a estatização do transporte também são reivindicados. O primeiro ato, no dia 24 de fevereiro, reuniu 200 trabalhadores e estudantes, que foram duramente reprimidos. Um segundo ato foi feito no dia 2, no local e no horário da reunião do Conselho Municipal de Transporte, que avaliaria o aumento. O Conselho não apresentou posição naquele dia.

Post author
Publication Date