Da prisão, Mumia Abu-Jamal critica a guerra e os presidenciáveis

Mumia Abu-Jamal
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Publicamos, abaixo, um artigo do jornalista negro norte-americano Mumia Abu-Jamal. Ele se transformou num símbolo da resistência e luta ao ser condenado à morte por, supostamente, ter matado um policial branco em 1981. Mumia era militante do Panteras Negras e sua condenação foi, evidentemente, política. Seu julgamento foi imparcial e cheio de irregularidades. A campanha pela sua liberdade ganhou o mundo e ele aguarda, até hoje, no corredor da morte, uma nova audiência.

A economia dos gangsters

Enquanto os norte-americanos começam a saborear o lodo amargo da recessão, a economia ascende em espiral até dominar o falatório das eleições primárias, deslocando o tema do Iraque momentaneamente.

Os republicanos e os democratas chegaram a um insólito acordo bipartidarista sobre um pacote de estímulo econômico – um subsídio do governo de aproximadamente 800 dólares para cada contribuinte. Supõe-se que o público gastará o dinheiro entregue para estimular ou impulsionar a economia letárgica.

Não quero ser pesado, mas se é possível estimular a economia com um esforço tão modesto, me sinto obrigado a perguntar: é certo que os problemas são tão graves como dizem? Ou serão mais graves do que os políticos nos querem dizer?

A mim parece que os políticos escondem o que é óbvio: os problemas econômicos dos Estados Unidos não estão alterando os problemas no Iraque. De fato, a guerra contra o Iraque e seu custo em sangue e tesouros estão impulsionando este período de instabilidade econômica, recessão e perda de empregos.

Como? Pois, ainda que as indústrias de defesa, igual às empresas petrolíferas e agenciadoras de mecenários, como a Blackwater, ganhem dinheiro ilimitado, esta riqueza se distribui estreitamente. Durante as guerras do passado, operárias e operários se viam obrigados a entrar nas fábricas, onde construíram os armamentos para a primeira e para a segunda guerra mundial. Portanto, o dinheiro circulou amplamente, particularmente entre os negros recém chegados do Sul segregado, ou entre as mulheres que entraram nas fábricas para manejar as máquinas deixadas por milhões de homens brancos chamados à frente de batalha (lembram de Rosita, a Arrebitadora?)

O chamado “exército de voluntários” que temos hoje em dia é, em grande parte, produto do “alistamento” econômico dos jovens pobres da classe operária que esperam ter vantagem na carreira de ratos para terem acesso às universidades, cada vez mais inacessíveis a eles.

Se esta esperança, este sonho não é alcançado, quais são as perspectivas para dezenas de milhares de homens e mulheres que regressam sem pernas, sem braços e sem capacidade mental depois de suas repetidas voltas pelo Iraque?

A guerra no Iraque, que provavelmente custará trilhões de dólares do dito ao fato, é desenhada, na verdade, para o benefício de umas poucas empresas petrolíferas e suas filiais. (Claro, os combustíveis fósseis provenientes de depósitos de petróleo têm seus próprios custos ecológicos e sociais que ainda não começamos a calcular.)

Bush e os príncipes sauditas bailam a dança das espadas (uma ironia perto da venda de armas por 20 bilhões de dólares anunciada por Bush), enquanto a economia e a ecologia ardem.

Os embargos de gêneros de sobrevivência disparam; as manufaturas fogem da China; os preços da gasolina sobem; os bairros decadentes se transformam em buracos infernais onde as pessoas tentam sobreviver; e as escolas parecem campos de treinamento para a prisão.

E as prisões? Talvez sejam a única indústria em crescimento nos Estados Unidos.

As guerras são pobres substitutos para as economias enfermas porque apenas produzem dor, perdas e, afinal, mais guerra.

Esta guerra, iniciada pelos imbecis neo-conservadores e pela máfia Bush/Texas, produziu dor, perdas e mortes em escalas épicas.

Nenhum político sequer, na corrida presidencial, tem a menor idéia de como pôr fim ao ciclio, porque todos eles também estão amarrados numa rede imperial, tecida pelos grandes negócios.

Nem sequer prometem uma solução, apenas mais do mesmo, talvez em outro lugar.

Do corredor da morte, Mumia Abu-Jamal.

Artigo escrito em 20/01/2008 e publicado posteriormente no portal www.lahaine.org

  • Clique para ler e escutar o artigo na voz de Mumia Abu-Jamal (em inglês)