Crise na Parmalat evidencia castelo de areia da economia capitalista

``ArteO recente escândalo da Parmalat trouxe à tona, mais uma vez, o caráter corrupto dos mercados financeiros e das grandes corporações capitalistas. A empresa que surgiu nos anos 60, em Parma, expandiu seus negócios na década seguinte através de subsídios da União Européia, e com as facilidades proporcionadas pelos paraísos fiscais. Instalou-se no Brasil em 1972, indo depois para outros países da América Latina. Na década de 90, no auge do neoliberalismo, a multinacional abriu seu capital, afirmando-se como um modelo de empresa globalizada.

Formou-se, então, uma intrincada rede de subsidiárias, incluindo empresas fantasmas em paraísos fiscais, principalmente nas Ilhas Cayman. A multinacional diversificou seus investimentos e se tornou uma das principais empresas alimentícias do mundo, líder em vendas. Uma semana antes do escândalo que evidenciou toda a fraude, suas ações estavam entre as mais recomendadas. O anúncio do rombo nas contas da Parmalat, em dezembro, deixou perplexos investidores de todo o planeta e trouxe a lembrança de fraudes contábeis de grandes empresas, como a Enron e a WorldCom, dos EUA.

Uma sórdida história de desvios, fraudes e mentiras

A desconfiança sobre a empresa italiana iniciou quando a Parmalat investiu US$ 500 milhões em um fundo de investimento nas Ilhas Cayman. Pressionado por investidores da empresa que se opunham ao negócio, o fundo declarou não ter recursos para pagar o investimento que acabara de ser feito. Agências de risco acionaram a luz vermelha para a multinacional, enquanto esta tentava acalmar os mercados através de um documento atestado pelo Bank of America, anunciando possuir reservas para cumprir todas as pendências com acionistas. Quando já era evidente a bancarrota da empresa, o Bank of America declarou que o documento divulgado pela Parmalat se tratava de uma grosseira falsificação. Porém já era tarde, ninguém acredita que uma fraude destas proporções pudesse ser acobertada por apenas uma empresa. O caso evidenciou as intrínsecas relações espúrias entre empresas e instituições financeiras na manipulação de balancetes e fraudes.

Como já não dava mais pra esconder, a multinacional confessou um rombo de US$ 5 bilhões. O presidente e fundador da Parmalat, Calisto Tanzi, foi afastado e preso com outros 11 dirigentes da empresa. O governo italiano interveio e nomeou o especialista em empresas insolventes, Enrico Bondi, para presidir a empresa. A partir daí foram descobertos desvios de recursos para contas pessoais de Tanzi e de empresas ligadas a ele. Acredita-se que o ex-presidente da multinacional italiana tenha desviado cerca de US$ 1,7 bilhão. Calisto Tanzi tornou-se, assim, ainda mais representativo do “modelo” do típico empresário da era da globalização dos mercados. O emaranhado de subsidiárias da Parmalat em todo o mundo foi utilizado para o roubo, inclusive a brasileira Carital. O contador da matriz italiana, Gianfraco Bocchi, confessou à Justiça italiana que a Carital Brasil dedicava-se a “atividades esquisitas” e que recebeu um “saco de dinheiro” da matriz.

Dinheiro público financia remessas de lucro e corrupção

A direção da subsidiária brasileira alega que a crise local é exclusivamente causada pelas dificuldades enfrentadas pela matriz na Itália. No entanto, a empresa brasileira, pelo montante enviado ao exterior nos últimos anos, parece não depender da matriz. Entre os anos de 1996 e 2002 foi remetido ao exterior R$ 1,7 bilhão. A CPI do Banestado investiga R$ 583 milhões enviados para a subsidiária Wishaw, sediada no Uruguai. Um engenhoso esquema de evasão de divisas foi montado, utilizando até mesmo a parceria com o Palmeiras para remeter dinheiro ao exterior sob a fachada de negociações de atletas do clube.

Enquanto despachava volumosos recursos para fora, no Brasil a empresa se afundava em dívidas e sonegava impostos. Até outubro do ano passado, a Parmalat devia cerca de R$ 3,8 milhões ao INSS. Como de costume, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) realizou um empréstimo de quase R$ 26 milhões à empresa em outubro. Dois meses depois, a multinacional deixou de pagar fornecedores de leite, a maioria pequenos e médios produtores. O presidente da empresa no Brasil afirmou que o fechamento da Parmalat é “questão de dias”.

Post author Diego Cruz, de Bauru (SP)
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