Crise na ocupação imperialista se amplia

Manifestação reúne 600 mil pessoas que exigiram saída das tropas norte-americanas. Dias depois, clérigo xiita, Moqtada Al Sadr,
se retira do governo.

No dia 1° de maio do ano passado, o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, discursou para militares presentes no porta- aviões Abraham Lincoln. Na ocasião, ele disse que a situação no Iraque estava “totalmente controlada”. Um ano depois da declaração, os fatos mostram que as palavras de Bush nunca estiveram tão distantes da verdade. O imperialismo enfrenta umas das situações mais difíceis desde o início da guerra. Os eventos que ocorreram no mês de abril são uma contundente prova disso.

No dia 9, milhares de iraquianos tomaram as ruas de Najaf contra a ocupação norte-americana. Nessa data também se completavam quatro anos da ocupação de Bagdá por tropas dos EUA. Um dia antes da passeata, o comando militar dos EUA no Iraque anunciava a morte de dez soldados ianques em ataques da resistência.

A manifestação foi chamada pelo clérigo xiita, Moqtada al-Sadr, e foi o maior protesto contra a ocupação desde seu início. Segundo as autoridades policiais de Najaf, cerca de 600 mil pessoas foram às ruas. Palavras-de-ordem foram entoadas contra as tropas norte-americanas e bandeiras dos Estados Unidos foram estendidas no chão para que os manifestantes passassem por cima, algo que é considerado pela cultura árabe um ato de extremo repúdio.

Centenas de bandeiras iraquianas também foram agitadas, numa demonstração de unidade do povo iraquiano contra as provocações fomentadas por grupos pró-ianques que podem levar a uma guerra civil no país. Embora tenha sido convocada pelos xiitas, a manifestação também contou com autoridades sunitas. Todos exigiam a retirada das tropas e pediam a unidade de todos os iraquianos contra os ocupantes.

A saída de Al Sadr
Dias depois da manifestação, os integrantes do governo iraquiano ligados ao clérigo Al Sadr apresentaram sua renúncia. Por ordem do líder religioso, seus seguidores não devem mais colaborar com o governo do Iraque. A justificativa para a saída foi a prisão de vários dos soldados de seu exército Mahdi e a recusa do governo fantoche de Maliki em estabelecer um cronograma exigindo a saída das tropas imperialistas do país. O bloco de Al Sadr contava com seis ministros no governo e controla 32 das 275 cadeiras do Parlamento iraquiano.

Enquanto os ministros de Al Sadr se retiravam do governo, milhares de pessoas realizaram manifestações em Basra, a segunda maior cidade do Iraque. Cerca de 3 mil pessoas se reuniram próximo da mesquita da cidade e marcharam até o gabinete do governador Mohammed Al Waili.

Logo após a saída de Al Sadr do governo, uma bomba explodiu em pleno Parlamento iraquiano, localizado na Zona Verde, região considerada a mais “segura” de Bagdá.

Para onde vai?
Al Sadr é um grande problema para o governo de Al Maliki e os EUA. O exército do clérigo xiita conta, segundo estimativas, com cerca de 60 mil seguidores, algo intolerável para o imperialismo. O clérigo tem relações diretas com a hierarquia religiosa iraniana. Sua força política se encontra principalmente nos bairros xiitas de Bagdá e na região de Basora, no sul do país.

Mas antes de integrar o governo, Al Sadr e seu exército se enfrentaram em ataques com os marines norte-americanos. Mesmo no governo, o clérigo continuou sendo um problema para Washington, que exigia a entrega das armas de sua milícia.

Um confronto maior com Al Sadr foi evitado, até então, pelo governo fantoche iraquiano, pois se temia que tal atitude poderia empurrá-lo para uma aliança com a resistência sunita, o que seria o inferno para as tropas imperiais. Por outro lado, a política negociadora dos aiatolás do Irã e sua influência sobre Al Sadr, impediram até agora a unidade efetiva com a resistência.

Mas ainda é cedo para concluir se Al Sadr vai avançar para uma política de unidade com a resistência sunita ou não. No passado, o clérigo xiita também teve escaramuças com o governo fantoche iraquiano e setores xiitas, o que não impediu que ocupasse ministérios depois. Sua saída pode representar uma manobra para sua preservação política e se postular como alternativa, uma vez que o governo iraquiano se afunda a cada dia. No entanto, algo é bastante certo. Com sua saída, agrava-se a crise do governo fantoche, que fica simplesmente sem maioria no Parlamento títere.

Bush veta lei aprovada no Senado
Para piorar a situação de Bush, no último dia 26, o Senado dos EUA aprovou uma lei estipulando a saída das tropas ocupantes do Iraque. A lei foi remetida à Casa Branca e Bush a vetou. Os democratas então recuaram, e agora insistem em condicionar a liberação de US$ 124 bilhões para a guerra a um cronograma de metas que deve ser cumprido pelas tropas dos EUA no país.

Os democratas manobram com o sentimento antiguerra majoritário na população dos EUA, porque eles também estão a favor da continuidade da ocupação. Pesquisas indicavam que a maioria da população norte-americana não acredita mais na possibilidade de uma vitória dos exércitos ocupantes no Iraque. Segundo a pesquisa, 55% dos entrevistados opinam que os EUA não podem mais alcançar a vitória, contra 36% que ainda acreditam nessa possibilidade.

Unidade
O imperialismo aposta em fortalecer sua posição no Iraque. Não há no horizonte nenhuma perspectiva de retirada do país por “boa vontade” imperial, seja com Bush, seja com os democratas. Ao contrário, segue no horizonte a possibilidade de Bush estender ao Irã sua ofensiva militar.

O único caminho possível é derrotar e derrubar as tropas ocupantes e seus governos submissos. Para isso, é fundamental a unidade das massas árabes e muçulmanas. Hoje é mais necessária do que nunca a unidade dos xiitas, sunitas e laicos iraquianos para que este triunfo possa se concretizar. A passeata do dia 9 pode ser um primeiro passo nesse sentido.

Nessa ocupação, está em jogo boa parte do destino da atual política do imperialismo norte-americano. Uma derrota de Bush e do imperialismo abrirá condições muito mais favoráveis para o avanço das massas do mundo inteiro.

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