Corrupção e capitalismo andam de mãos dadas

Corrupção, dinheiro sujo, caixa dois, propinas e manipulações contábeis. Muitos acreditam que tudo isso é típico do “atraso brasileiro”. Isso é um engano. A corrupção afeta todo o mundo capitalista, porque envolve todas as situações em que uma minoria explora uma maioria, sem nenhum controle. A burguesia e seus funcionários utilizam o Estado para manter a dominação de classe em geral, e para conseguir vantagens particulares.

Assim, capitalismo e corrupção sempre andaram juntos. Mas existe um agravamento dos escândalos nos últimos vinte anos, porque o neoliberalismo elevou a prática da corrupção a níveis gigantescos. A desregulamentação e a privatização dos serviços criaram um cenário perfeito para as empresas que corrompem funcionários do Estado e políticos para abocanhar os milionários contratos públicos e desbancar seus rivais.

Em países imperialistas, por exemplo, constantemente explodem escândalos de corrupção envolvendo milionários empresários, governantes e altos funcionários do Estado.

“Modernidade”
Tomemos o exemplo do coração do capitalismo, o centro da “modernidade”. Um dos maiores casos de corrupção de todo o mundo é o governo Bush. No final de 2001, investigações revelaram corrupção por parte de grandes figuras do governo que facilitaram as fraudes contábeis bilionárias da empresa Enron, sétima maior multinacional do mundo. Ken Lay, o corrupto presidente da Enron, esteve ao lado de Bush desde o início de sua carreira política e o ajudou a se eleger governador do Texas. As somas envolvidas neste escândalo tornam PC Farias e Zé Dirceu meros aprendizes.

A Enron foi apenas a ponta do iceberg. A empresa de telecomunicações Global Crossing pediu concordata em janeiro de 2002. A WorldCom, segunda maior empresa de telecomunicações dos EUA, também fraudou suas contas.

Como se isso não bastasse, centenas de executivos e empresários que estavam respondendo a processos criminais por corrupção financiaram a campanha pela reeleição de Bush. Segundo a revista norte-americana Time, 261 corruptos deram dinheiro à campanha de Bush (entre eles, o presidente da Enron) e 31 deles financiaram seu adversário, John Kerry, do Partido Democrata.

Caso iraquiano
A podridão se revela ainda mais forte na ocupação do Iraque. O custo da corrupção pode chegar a US$ 4 bilhões por ano, segundo dados do próprio governo dos EUA. Grande parte da roubalheira garante altos lucros para empresas petrolíferas que se aproveitam da ocupação. O vice-presidente Dick Cheney, por exemplo, presidiu a Halliburton, maior empresa de petróleo beneficiária da ocupação do Iraque. Condoleezza Rice foi do conselho da petroleira Chevron, que também possui milionários negócios no Iraque.

Além disso, o Grupo Carlyle, que tem empresas fabricantes de tanques de guerra e helicópteros para os EUA, já teve como diretor o próprio presidente Bush.

A China, outro exemplo da “modernidade”, é outro antro de corrupção. Na província de Jianxi, recentemente um prefeito e o líder do partido local foram condenados porque contrataram um empreiteiro cego para fazer o projeto de uma ponte que caiu, matando 11 pessoas.

ONU e Banco Mundial
O Banco Mundial e a ONU, dois grandes organismos imperialistas, não escapam da corrupção.

Nas Nações Unidas, um escândalo envolveu o filho de Kofi Annan, ex-secretário-geral da organização, que desviava verbas do programa Petróleo Por Comida no Iraque. A empresa em que trabalhava como consultor recebeu em 1998 um contrato de US$ 10 milhões anuais para cuidar do programa.

Já o Banco Mundial, responsável pela aplicação do neoliberalismo no mundo, viu o seu presidente, Paul Wolfowitz, envolvido num episódio em que promoveu e aumentou o salário de sua namorada na instituição. Ele foi obrigado a renunciar.

Esses episódios mostram a hipocrisia dessas instituições que, além de impor a dominação imperial sobre as nações pobres, criticam a corrupção desses países.

As regras do jogo
A mais recente onda de escândalos de corrupção no Brasil atingiu grandes figurões da política. O presidente do Senado e terceiro na linha de sucessão de Lula, Renan Calheiros (PMDB-AL), está metido até o pescoço em um sórdido caso envolvendo empreiteiras. Como se isso não bastasse, o próprio irmão de Lula fez parte das investigações da Operação Xeque-Mate, acusado de utilizar o parentesco para beneficiar os empresários de jogos. O compadre do presidente e amigo íntimo da família chegou a ser preso na mesma operação. Os escândalos de corrupção ainda estão longe de sair de cena…

O novo escândalo que estremece Brasília atinge todas as instituições da democracia dos ricos, mostrando a completa impunidade que impera no corrupto Congresso Nacional, onde parlamentares têm salvo-conduto para roubar.

A nova crise expõe as regras do jogo da democracia burguesa, na verdade uma democracia para os ricos e corruptos e uma ditadura para os trabalhadores. Nesse regime, as eleições são controladas pelo capital, por isso os candidatos da grande burguesia sempre vencem. Nesse jogo de cartas marcadas, os capitalistas impulsionam os grandes partidos e financiam suas eleições milionárias. Empresas e bancos como Odebrecht, CSN, Itaú, Bradesco, entre outros, elegem suas “bancadas”, que negociam os direitos dos trabalhadores, aprovam leis em favor dos ricos na base da compra de votos e dos lobbies, e ainda faturam contratos milionários do Estado.

Por outro lado, a impunidade realimenta a corrupção. Já é praxe ver parlamentares renunciarem para fugir da cassação e em seguida voltarem ao poder, apoiados por uma imensa máquina eleitoral. Foi o que aconteceu nas eleições passadas, que trouxeram notórios picaretas e antigos corruptos, como Paulo Maluf, Fernando Collor e Antonio Palocci.

Também já virou rotina ver os poucos corruptos presos serem em seguida libertados pela Justiça, como foi o caso de todos os 49 envolvidos na Operação Navalha. Afinal, esses corruptos não são como Rosimeire Rosa de Jesus, negra, 33 anos, que ficou presa por 11 meses por tentar roubar uma ducha elétrica de R$ 19, em São Paulo. Ela foi condenada sem direito a apelar em liberdade. Um tratamento bem diferente foi dado aos corruptos presos pelas recentes operações da Polícia Federal.

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