Começa a mobilização da classe operária inglesa contra os planos de ajuste

Leia abaixo texto publicado pelo site da LIT-QI sobre os ajustes na InglaterraOs trabalhadores tomarão as ruas em manifestações quando o governo de coalizão inglês (Conservadores e Liberais Democratas – conhecido como o Governo ‘ConDem’) apresentar ao Parlamento em 20 de outubro os cortes mais rápidos e mais profundos nos gastos públicos nos tempos modernos.

Os cortes irão atingir os vulneráveis, destruir serviços vitais e ameaçar postos de trabalho, tanto do setor público quanto do privado, e comunidades. Os sindicatos não têm dúvidas de que o que está vindo é selvagem e poderia continuar ao longo dos anos.

O Planejamento dos Gastos Públicos [1] (Public Spending Review) vai anunciar planos para cortar 83 bilhões de libras de gastos estatais para reduzir o déficit público recorde em quatro anos. Este déficit foi criado pela especulação e atividade desenfreadas dos bancos que foram “salvos” pelo Governo Trabalhista com o apoio dos Conservadores (Tories). Os Conservadores exigiram que os ministérios façam cortes de até 25%, exceto para as Forças Armadas que teve sua meta de corte reduzida para 8% – gerando indignação de militares e outros.

Qual é o plano?
Isso significa a extinção de pelo menos 250 mil postos de trabalho no setor público, enquanto 100 mil do setor privado serão perdidos. O Serviço Nacional de Saúde (National Health Service – NHS) emprega cerca de 1 milhão de trabalhadores e todos esses empregos poderiam ser perdidos em 3 anos – enquanto o NHS é forçado a usar prestadores privados para manter a saúde “pública” em maio à maior reestruturação do pós-guerra. Os desempregados serão alvo de monitoramento e sanções draconianas, benefícios previdenciários serão reduzidos além dos benefícios de habitação e maternidade. As taxas escolares, que já são as mais elevadas da Europa (cerca de $5000 por ano), podem dobrar e, como nos Estados Unidos, planeja-se retirar o limite sobre as taxas, de forma que as universidades possam cobrar o que acharem melhor.

Os planos também incluem o aumento da idade de aposentadoria talvez para 70 anos. Um dos setores mais vulneráveis, o de imigrantes, verá leis de imigração intensificadas e agressivamente aplicadas, como deportações forçadas. As condições de vida e de direitos dos imigrantes devem ser defendidas sobre a base de direitos iguais.

Além disso, das autoridades locais planejam reduzir postos de trabalho e serviços e estão usando o mesmo plano aplicado no NHS para cada vez mais tornarem-se uma coordenação dos prestadores privados. As autoridades planejam livrar-se da prestação de quaisquer serviços públicos na educação. No ensino público, as escolas podem sair do controle da autoridade local para adquirir um status de “escola livre” – levando a educação escolar à busca do lucro.

Esta é a maior luta que os sindicatos enfrentam desde a introdução do Estado de bem estar social, estabelecido pela luta da classe trabalhadora ao longo das décadas de 1940 e 1950, quando a saúde, educação e habitação públicas e benefícios universais foram criados.

Por vários meses Conselhos de Sindicatos e sindicatos em muitas cidades organizaram alianças anticortes. Esta semana ocorrerão ações coordenadas em todo o país, inclusive em frente ao Parlamento e outras manifestações em Londres. O Congresso de Sindicatos (Trades Union Congress – TUC) fez um chamado para a ação coordenada de greves, em seu Congresso nacional de setembro, mas a direção majoritária tem resistido ao chamado para uma manifestação nacional durante meses. Propõem adiá-la até a primavera de 2011. O Sindicato dos Transportes (RMT em inglês), no entanto, chamou uma manifestação em Londres para 23 de Outubro para marchar até a sede do TUC num protesto público. O RMT é apoiado por vários sindicatos, incluindo os bombeiros da FBU e outros. Em 2010, o RMT organizou várias greves contra os ataques aos empregos e às condições do metrô de Londres e em vários serviços ferroviários em todo o país.

A FBU anunciou planos para ações grevistas em 14 de outubro, aprovadas por uma maioria de 79% numa votação em urnas com a participação de 79% da base. Os patrões dos serviços de combate a incêndios exigem novos contratos como parte do plano para fechar bases operacionais e estão ameaçando demitir qualquer bombeiro que não os aceite.

Outras reuniões e manifestações estão previstas em muitas cidades. Na Escócia, haverá uma marcha chamada pelo TUC escocês. Em 27 de outubro, a Convenção Nacional de Aposentados (National Pensioners Convention – NPC) está chamando uma manifestação nacional pelo aumento da aposentadoria, nenhum corte nos subsídios de combustível e na assistência social gratuita. A NPC representa mais de 1000 grupos e cerca de 1,5 milhão de aposentados. Em novembro será realizada uma manifestação nacional da educação com uma aliança entre o Sindicato dos Trabalhadores de Faculdades e Universidades (Universities and Colleges Union – UCU) e a União Nacional dos Estudantes (National Union of Students – NUS) contra o fechamento de cursos e os ataques aos empregos, salários, aposentadorias e taxas escolares.

Muitos das alianças anticortes enfatizam a necessidade de uma aliança nacional de sindicatos do setor público e privado com as Comunidades e usuários dos serviços públicos.

Um desafio central para o movimento sindical é a lei contra o direito sindical. Uma série de greves tem sido barrada pelos empregadores usando tal lei em 2010, como contra o RMT e outros sindicatos. Porém uma das lições das recentes greves não oficiais [2] foi de que se elas forem suficientemente fortes, o Estado tem receios em usar estas leis draconianas.

Os movimentos estão apenas começando e as lutas na França, Grécia, Espanha e Itália podem ser uma inspiração para a classe operária britânica.

[1] O Planejamento dos Gastos Públicos (Public Spending Review) é um mecanismo do Ministério da Fazenda para aplicar o orçamento em função das prioridades governamentais por um período de 4 anos. O novo orçamento será anunciado em 20 de outubro deste ano.
[2] Greves não oficiais (ou ilegais) são aquelas realizadas por fora dos sindicatos para evitar a aplicação da lei antigreves.
Sobre o autor: Martin Ralph – Membro do Conselho de Sindicatos de Liverpool e do Sindicato de Trabalhadores de Faculdades e Universidades (UCU).

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