Colômbia: lições de uma crise

O ataque militar do governo colombiano de Álvaro Uribe a uma base das Farc no Equador provocou um grande repúdio em toda a América Latina. A última semana começou com o rufar dos tambores de guerra. Mas, na realidade, esta esteve muito longe de acontecer. Nos últimos dias, a crise entre os governos caminhou para uma solução e, apesar da retórica antiimperialista de Chávez e Correa, terminou com um constrangedor aperto de mão e um tapinha nas costas entre os dois presidentes, Chávez e o lacaio Uribe. Dedicamos estas páginas não só a avaliar as razões que levaram à crise, mas, também, a fazer um balanço polêmico sobre a atuação dos governos “nacionalistas” do Equador e da Venezuela.

As razões do conflito
O imperialismo aprofunda sua intervenção na América Latina, utilizando o governo de Álvaro Uribe para agredir outro país – o Equador. Esse é o significado do ataque militar às Farc, que resultou na morte de 20 guerrilheiros, entre eles Raúl Reyes, considerado o segundo dirigente da guerrilha.

O envolvimento do imperialismo norte-americano na provocação de Uribe é nítido. A agressão foi preparada e executada com informações, tecnologia e ajuda militar norte-americana. Uma demonstração de que Uribe é a ponta de lança para a intervenção militar do imperialismo no continente.

O diretor da Força Tarefa Conjunta dos EUA, Joseph Nimmich, esteve em Bogotá dias antes da operação militar em território equatoriano. Ele se reuniu com o alto comando militar colombiano para “compartilhar informações vitais sobre a luta contra o terrorismo”. Numa demonstração do que o imperialismo é capaz, a base militar norte-americana em Manta, no Equador, foi utilizada para atacar o próprio país.

A colaboração dos EUA não foi negada nem mesmo pelo chefe da polícia do país, Óscar Naranjo, que afirmou que “não é nenhum segredo” que as forças armadas colombianas têm uma “ligação muito forte com agências federais dos Estados Unidos”.

Após os ataques, Uribe, recebeu o apoio de Bush que em pronunciamento declarou: “A mensagem de nosso país ao presidente Uribe e ao povo colombiano é que estamos ao lado de nosso aliado democrático”.

Uribe, lacaio do imperialismo
Por meio do governo Álvaro Uribe, o imperialismo quer aprofundar sua política de intervenção militar e controle político e econômico na região. O objetivo é estender a lógica dos ataques “preventivos” (que justificaram a invasão ao Iraque e ao Afeganistão) aos países da América Latina. Dessa forma, Bush e Uribe desejam transformar a Colômbia num “Israel” do continente, isto é, num posto militar avançado do imperialismo onde seriam promovidos ataques semelhantes aos realizados pelo exército israelense contra os palestinos e outros povos. Essa é a essência do Plano Colômbia e do Plano Patriota, cujo objetivo é derrotar a guerrilha das Farc e transformar o país numa fortaleza ianque na região, financiada com bilhões de dólares de ajuda militar e pronta para intervir nos demais países.

Com isso, o imperialismo tentaria manter o controle sobre a produção de petróleo e gás e outras riquezas naturais dos países do continente.

Mas essa ofensiva colonial tem se chocado com a resistência dos povos latino-americanos que, nos últimos anos, protagonizaram levantes e revoluções. No terreno político, isso se refletiu na onda de governos de frente popular e nacionalistas burgueses, como o de Hugo Chávez e de Rafael Correa, cuja retórica nacionalista contrasta com a mais completa submissão do governo colombiano. Esta é a razão que levou Uribe a acusar os governos do Equador e da Venezuela de serem aliados das Farc e cúmplices dos “narcoterroristas”.

Uma ditadura assassina
Embora a imprensa noticie amplamente a questão dos seqüestrados, o mesmo não é feito para registrar os crimes praticados pelos paramilitares ligados ao governo Uribe. O governo está envolvido até o pescoço com os paramilitares e narcotraficantes.

No ano passado, oito parlamentares de sua base foram presos por ligação com os “paras”. A ministra das Relações Exteriores da Colômbia, María Consuelo Araújo, foi obrigada a renunciar ao saber que seu pai e seu irmão estavam entre os presos.

Nenhum jornal ou emissora de TV fala das quase 10 mil vítimas dos paramilitares enterradas em valas comuns. Não exigem castigo aos empresários e políticos que participaram da orgia de sangue contra os sindicalistas, lideranças e ativistas populares. Tampouco falam do assassinato de quase 3.500 dos militantes da União Patriótica (UP), partido fundado após as negociações entre as Farc e o governo de Belisario Betancurt, nos anos 80.

O governo de Bush, por sua vez, não tem nenhuma autoridade para qualificar as Farc de terroristas e exigir o respeito pelos direitos humanos. Basta ver os escândalos sobre as torturas nas prisões de Guantánamo, em Cuba, e de Abu Ghraib, no Iraque.

Duas políticas
O enfrentamento entre distintos setores do imperialismo e das burguesias regionais foram as causas de contínuas provocações que culminaram na crise dos últimos dias. Bush sabe que pode confiar no governo assassino de Uribe para estender sua dominação pelo continente. Por isso, ambos defendem a política de derrotar militarmente a guerrilha.

Já as burguesias da Venezuela e do Equador, em acordo com o imperialismo europeu (especialmente a França), buscam a via da negociação política para desmontar as Farc – uma política abençoada também pelo governo Lula. Dessa forma, pretendem repetir a experiência do desmonte das guerrilhas da América Central nos anos 80 pela via da negociação, como a Farabundo Martí, de El Salvador. Hoje, ex-comandantes guerrilheiros participam do governo e do parlamento em vários países do continente, como em El Salvador e na Nicarágua. Seus dirigentes foram incorporados ao regime e hoje ajudam a implementar os planos neoliberais.

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