João C, do Rebeldia USP e ex-aluno de Colégio Militar

Na última terça-feira (15/09), o Exército determinou a volta às aulas presenciais em todos os Colégios Militares do país. Mas os professores civis do Colégio Militar do Rio de Janeiro (CMRJ) não deixaram barato, e bravamente decidiram entrar em greve por tempo indeterminado em defesa da saúde. Mesmo com as promessas da diretoria de retorno escalonado e que as medidas de higiene seriam seguidas, é evidente que apenas isso não garantiria de fato a saúde e segurança dos estudantes, dos funcionários e do conjunto dos professores. A pandemia continua, sem que  existam testes para todos, e a promessa de vacina para todos ainda parece muito distante.

Os professores civis do Colégio Militar de Brasília (CMB) também exigem a reversão da decisão e a suspensão do retorno das aulas presenciais, que estava prevista para ontem, 21/09, apesar de não terem decidido pela greve. Diante da repercussão na imprensa, o Colégio Militar de Fortaleza (CMF) e de Santa Maria (CMSM) recuaram a reabertura.

A decisão do Exército segue a linha geral do governo Bolsonaro e seus governadores e prefeitos aliados, criam o risco iminente de provocar um novo surto de contágio do coronavírus. Acontece na mesma semana em que o presidente ataca cinicamente os professores e os sindicatos, dizendo que “para eles tá bom ficar em casa” porque “não trabalham”.

A prova de que essa política desastrosa vai causar uma piora drástica na situação da pandemia nos locais onde as escolas reabriram já é uma realidade. Em apenas 15 dias da volta às aulas em Manaus, 342 professores de ensino médio da rede pública testaram positivo para o coronavírus. E não se pode esquecer que, logo no início da pandemia, a negligência ativa do Exército e da Aeronáutica em suspenderem as aulas na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) e na Escola Preparatória de Cadetes do Ar (EPCAR) permitiu o contágio de mais de 240 e 213 alunos, respectivamente. Isso, sem contar os casos não notificados e os que não foram testados, o que contribuiu consideravelmente para que a pandemia agravasse nas cidades onde ficam essas instituições.

Risco de contágio

Um estudo conduzido por pesquisadores de sete universidades de três países concluiu que, mesmo com todos os protocolos de segurança sendo seguidos, a volta às aulas em São Paulo causaria contaminação pela Covid-19 em até 46,35% dos estudantes e professores do ensino básico, após três meses.

Já segundo levantamento recente da Fiocruz, 9,3 milhões de pessoas idosas ou com comorbidades convivem diretamente com crianças em idade escolar no Brasil. Somado aos dados, por exemplo, da própria prefeitura de São Paulo, que apontam que mais de 64% das crianças e adolescentes infectados por Covid-19 em SP são assintomáticas, sobram evidências de que o retorno aumentaria as chances de contágio, adoecimento e morte não só dos estudantes, mas de seus parentes também. Além do mais, até 40% dos professores das redes públicas de ensino fazem parte dos grupos de risco, sem contar os outros profissionais da educação, conforme levantamento realizado por 11 estados brasileiros.

A conclusão é que nas escolas é inviável garantir o distanciamento social, o monitoramento e o uso de máscaras permanente nas crianças e adolescentes, a segurança dos trabalhadores da educação, assim como garantir a circulação do ar nos ambientes, a higienização dos banheiros e espaços de alimentação para que não se prolifere o vírus. A maioria das escolas possui inúmeros problemas estruturais, falta de espaço e produtos de higiene básica, e carência de funcionários que consigam garantir os procedimentos sanitários adequados.

Política genocida

Ou seja, a flexibilização é a continuidade de uma política genocida, apoiada pela hipocrisia ignorante e o descaso displicente de instituições como a Sociedade de Pediatria e o Instituto Ayrton Senna, esse último que através de sua presidente Viviane Senna declarou que “está claro que a reabertura das escolas não agrava a pandemia”.

Assim, fazem pouco caso das centenas de vidas perdidas a cada dia, já que a taxa de contaminação pelo coronavírus segue alta e muito longe de estar controlada, o contrário do que iludem os governos e parte da imprensa. Não se importam com o ensino e com a comunidade acadêmica, mas com a imposição da flexibilização total, naturalizando as mortes e a contaminação como parte de um “novo normal”, em prol da “economia”, o que significa garantir lucros maiores para as empresas, os bancos e as instituições privadas de ensino, em detrimento da vida e da saúde da maioria da população, das crianças, dos jovens e trabalhadores.

Sabemos que a maioria dos trabalhadores está voltando ao trabalho, tendo que pegar todos os dias transportes lotados e sendo obrigados a se exporem a todas as situações de risco imagináveis, enquanto na última semana tivemos uma média móvel de 747 novas mortes e 30 mil novos casos por dia.

Não é hora de relaxar, mesmo com o desamparo do governo e das empresas que não conseguem garantir nem quarentena, nem empregos, nem renda e salário. Na verdade, é hora de nos protegermos mais ainda, de todas as formas que conseguirmos, pois já começaram novas ondas de pandemia em países e estados que relaxaram o isolamento, mas também continuar exigindo e organizando manifestações e greves, virtuais e presenciais, em defesa das nossas vidas e da nossa saúde.

Não podemos permitir a volta das aulas presenciais neste contexto. O calendário escolar tem que ser suspenso. É fundamental a construção de uma ampla mobilização nacional da comunidade escolar, em unidade com a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), sindicatos, centrais, movimentos sociais e toda a sociedade, para que as escolas continuem fechadas. E se for preciso, que esse movimento ajude a construir uma greve sanitária nacional da educação.

– Conteúdo se recupera, as vidas perdidas não! Volta às aulas só depois da vacina!
– Contra as tentativas de intimidação das chefias e dos comandos militares! 
– Colégios Militares fechados, em defesa da vida!

#EscolasFechadas #EmDefesadaVida #EscolasFechadasVidasPreservadas

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O que são os Colégios Militares?

O Sistema de Colégios Militares do Brasil, instituições de ensino consideradas públicas e federais, administradas pelo Exército brasileiro através da Diretoria de Educação Preparatória e Assistencial. Ao todo são 14 CMs espalhados pelo Brasil, que contam com o ensino do 6º ano do Ensino Fundamental ao 3º ano do Ensino Médio, e neles estudam filhos de militares e civis que entram através de vestibulinho ou vagas reservadas (para filhos de militares). Neles dão aulas professores civis e militares. São diferentes das escolas militares administradas pelas Polícias Militares dos estados, e “primos” das escolas de ensino superior das forças armadas como a EsPCEx/Aman, a Escola Naval e a EPCAR/AFA.