China: dragão socialista ou semicolônia do imperialismo?

A China virou a “fábrica” do mundo. Hoje, o país concentra o maior número de multinacionais por metro quadrado. Já foi um dos países mais pobres do globo. Milhões de pessoas não comiam sequer um prato de arroz, ingrediente básico da culinária chinesa. Hoje exporta 50% de tudo o que as multinacionais produzem no mundo.

A etiqueta “made in China”, antes sinônimo de segunda categoria, mudou. Os produtos chineses ganharam qualidade. A China concentra um grande número de técnicos especializados, que ganham salários mais baixos e são aproveitados pelas multinacionais para melhorar os produtos.

A China entrou de sola no mercado de computadores. Em dezembro de 2004, a chinesa Lenovo comprou a divisão de PC’s da IBM, considerados os melhores do mundo, e já ameaça desbancar a Dell, maior fabricante mundial de micros. Muitas fábricas estão fechando na Alemanha e outros países para reabrir as portas em solo chinês. No México, as outrora poderosas maquiladoras, que gozavam de todos os privilégios por parte do Estado, estão indo à falência por não poderem competir com a China, que está vendendo produtos mais baratos e de melhor qualidade. Com tudo isso, o PIB chinês no ano passado cresceu três vezes mais que o PIB dos EUA (10% na China contra 3% nos EUA).

Hoje, 40% de tudo o que os EUA importam vêm da China e, de acordo com a revista Exame (11/5/05), ela já é o terceiro maior mercado para as exportações brasileiras, com compras no valor de 5,4 bilhões de dólares, atrás apenas dos Estados Unidos e da Argentina.

Dragão com pés de barro
Os números impressionam. Mas, em vez de fazerem da China uma grande potência, indicam justamente o contrário. Ela está se tornando, a passos rápidos, a maior e mais populosa colônia do imperialismo. Por um lado, continua essencialmente agrícola: 75% de sua economia está no campo, onde a maioria das terras estão em mãos privadas e de onde milhões de camponeses sem-terra estão sendo expulsos.
Nas cidades, a imensa maioria das empresas é estrangeira. O “boom” industrial tem pouco de chinês; é capital multinacional em busca de lucratividade. Aproveitam o enorme incentivo por parte do Estado, com impostos baratos e abundância de mão-de-obra. Extraem uma alta taxa de mais valia, facilitada também pelo “salário social”, ou seja, os serviços aos trabalhadores que são fornecidos pelo Estado, como assistência médica, auxílio-transporte, moradia e outros. São conquistas da revolução que estão se perdendo.

Com todas essas vantagens, o capital multinacional encontra na China um alto retorno, do qual pouco fica em território chinês. Assim, o “milagre chinês” tem feito ressuscitar alguns dos gigantes imperialistas, como é o caso da GM, a maior montadora de veículos do mundo, que vivia uma crise sem limites nos EUA, transferiu-se para solo chinês e voltou a lucrar.

A burocracia no poder
Depois de uma longa e sangrenta guerra civil, Mao Tsé Tung anunciou formalmente a fundação da República Popular da China (RPC), em 10 de outubro de 1949. O Exército de Libertação Popular, vitorioso, encabeçara uma revolução socialista no país mais populoso do mundo. A terra foi em parte coletivizada e conseguiu-se em grande medida superar a fome no campo, além de começar um processo de industrialização.

Tudo isso só foi possível porque a revolução alcançou a unificação nacional e a soberania da China, que antes era um território vasto, com grandes regiões sem controle central.

Mas a revolução foi encabeçada, desde o início, pela burocracia do PC chinês, liderada por Mao Tsé Tung, que instaurou um regime ditatorial.

País atrasado em matéria de indústria e tecnologia, e essencialmente agrícola, a China passou a depender de outros países, sobretudo da ex-URSS. Em seus primeiros anos, a RPC dependia da assistência técnica soviética para desenvolver suas próprias indústrias, redes de comunicações e fontes de energia.

Depois da morte de Stalin, as relações sino-soviéticas deterioram-se. Em 1956, Nikita Khruchev fez um discurso no XX Congresso do PC soviético denunciando os crimes de Stalin. Mao e toda a burocracia chinesa sentiram-se atingidos. Esse episódio serviu de pretexto para o afastamento entre os dois países, mas, na verdade, as duas burocracias afastaram-se movidas pela defesa de seus próprios interesses burocráticos, e não os interesses de seus países, que saíram prejudicados com essa ruptura. Esse episódio também demonstra o caráter criminoso da própria burocracia chinesa, que rompeu com a ex-URSS porque Khruchev denunciou os crimes horrendos que Stalin havia cometido.

A restauração do capitalismo na China
Nos anos 70, começa uma nova era para a China. O governo reforça a retórica socialista, enquanto se abre para o mercado mundial, estreitando relações com as grandes potências, sobretudo os Estados Unidos.

Esse processo teve um marco simbólico: a visita de Nixon a Pequim, em 1972, quando foi recebido por Mao Tsé Tung. Foram assinados vários acordos de importação de tecnologia avançada com os Estados Unidos e, mais tarde, com Japão, Inglaterra, Alemanha Ocidental e França.

Na vida econômica do país, já vinha surgindo uma nova tendência: a valorização do coletivo, criada pela revolução, foi substituída por uma estratégia de aumento da iniciativa local e da responsabilidade dos trabalhadores. As famílias rurais tiveram permissão para aumentar vastamente a quantidade de terra que podiam cultivar como lotes privados e para vender a produção no mercado aberto, a preços não tabelados. Na cidade, incentivava-se o negócio privado.

Fazer parte do mercado mundial era a estratégia da burocracia, para não ficar isolada. Desde a década de 60, a China vinha tentando ganhar assento na ONU, o que conseguiu em 1971, com apoio dos EUA, interessados no mercado chinês.

Em 1975, Deng Xiaoping, que havia sido afastado do poder porque defendia políticas de restauração do capitalismo e a “introdução de técnicas estrangeiras no país”, voltou ao poder. Em julho do ano seguinte, recebeu de volta seu cargo de vice-primeiro-ministro. Para essa “volta por cima”, Deng tirou força justamente da política restauracionista que já tomava corpo em um grande setor da burocracia chinesa. E, com isso, o objetivo de Jimmy Carter de normalizar completamente as relações diplomáticas entre EUA e China foi alcançado, com a visita em 1978 do secretário de Estado Cyrus Vance a Pequim.

Nesse momento, o salto qualitativo em direção ao capitalismo foi dado, com as chamadas “Quatro Modernizações”, uma espécie de “Perestroika chinesa”, que significava a introdução de novas relações de produção na agricultura, indústria, defesa nacional e ciência e tecnologia, impulsionadas pelo presidente chinês Hua Kuofeng. Ao mesmo tempo, Deng Xiaoping, o Gorbachev chinês, punha em prática um plano para incorporar investimentos e tecnologia externos, incluindo o envio de estudantes chineses ao exterior para treinamento nas multinacionais.

Em dezembro de 1978, o Comitê Central do PC chinês ratificou o Terceiro Plano Econômico, com uma série de aberturas para o capital privado e restrições às empresas estatais. Exatamente no mesmo dia (19 de dezembro de 1978), a Coca-Cola, um dos maiores símbolos do capitalismo, anunciou sua entrada triunfal em território chinês.

A exploração e a resistência dos trabalhadores

Contra a maioria das previsões, a restauração do capitalismo não é um bom caminho para a China. Para os trabalhadores da cidade e do campo, ela significa o aumento da exploração e a redução dos salários e dos serviços sociais.
Há um novo proletariado chinês – só nas novas indústrias de capital estrangeiro já trabalham 10 milhões de operários. A privatização no campo deixou uma massa de desempregados de 100 milhões de pessoas, que as empresas não estão preparadas para absorver.

As condições de vida da população chinesa não têm nada a ver com uma grande potência. Pelo contrário, vem se deteriorando a cada dia, com a destruição acelerada das velhas conquistas da revolução. Phil Mitchinson, em seu trabalho “China: revolução em preparação”, de 2000, diz que: “O coração industrial do nordeste vive uma explosão de desemprego. No passado, a unidade industrial na qual se trabalhava pagava o salário, dava moradia, escola para os filhos, garantia a saúde da família e uma aposentadoria ao operário. Agora, a privatização e as falências estão pondo um fim a tudo isso”.

Ele também informa que “milhões de pessoas continuam chegando do campo às cidades em busca de emprego. Esses trabalhadores migrantes fazem os piores trabalhos. Isto deu lugar ao fenômeno das ‘dagongmei’, jovens que trabalham nas piores condições. Muitas são forçadas a se prostituir ou a viver como mendigas. Ninguém está seguro de exatamente quantos migrantes econômicos existem atualmente, mas as estimativas chegam aos 130 milhões. Seu tratamento se compara à situação na Inglaterra do século 19”.

A resistência das massas
Tudo isso explica as constantes manifestações de massas na China. A maior delas ocorreu em maio de 1989, quando mais de um milhão de chineses se concentraram na praça Tiananmen e seus arredores, exigindo o fim da corrupção e da ditadura. O governo declarou a lei marcial, cujo cumprimento foi evitado pela coragem dos manifestantes, que bloquearam a entrada dos soldados no coração da cidade.

O governo, todavia, reforçou a repressão, mandando novos batalhões de soldados fortemente armados, apoiados por tanques e, muitos deles, vindos de outras regiões do país. Eles abriram caminho à força até a praça e promoveram um massacre sem precedentes na história da RPC, que chocou os chineses e o mundo inteiro.
Com o massacre em Tiananmen, a burocracia aplainava o caminho para a volta do capitalismo na China.

Hoje a China é regida por uma constituição burguesa clássica. Mantém, contudo, o regime de partido único e um governo ditatorial que atua com métodos fascistas contra os trabalhadores. A última reforma realizada instituiu o direito à propriedade privada, e os Estatutos do PC chinês também foram reformados, derrubando a cláusula que proibia a entrada de burgueses em suas fileiras.

Para o povo chinês, que já fez uma das maiores revoluções socialistas do mundo, que conseguiu vencer a fome de milhões de seres humanos, voltar a ser um país colonizado, servil e oprimido é no mínimo degradante. A restauração capitalista significa a destruição dessas conquistas, que são difíceis de apagar da memória da classe trabalhadora chinesa e que são o fermento das mobilizações que explodem a cada dia.

A grande lição que a China deixa aos trabalhadores do mundo inteiro é que Trotsky estava certo quando condenava a política de Stalin de construção do socialismo num só país. Para se desenvolver e consolidar, a construção do socialismo não pode ficar confinada às fronteiras nacionais. O que os capitalistas do mundo inteiro consideram de mais grandioso na China de hoje, para a classe trabalhadora chinesa e mundial, significa justamente a destruição de sua grande conquista e um futuro sombrio.

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