Chico Science: “São demônios os que destroem o poder bravio da humanidade”

Jeferson Choma

Dando vivas a “Zapata, Zumbi e a todos os Panteras Negras”, era lançado em 1994 o álbum Da Lama ao Caos, o primeiro da banda pernambucana Chico Science & Nação Zumbi. Considerado um clássico da música brasileira, o trabalho apresentou um som totalmente inovador. Mesclando maracatu, embolada, coco, capoeira, guitarra elétrica e sintetizadores eletrônicos, criou um novo ritmo, desafiando as repetições do rock e da música pop nacional, que muitas vezes fizeram as bandas brasileiras parecerem cópias mal-feitas dos seus originais americanos e ingleses.

Eram tempos do mangue beat, um movimento de contracultura surgido nas ruas de Recife (PE) no início daquela década. Chico Science, ao lado de talentos como Fred Zero Quatro, Renato L., Mabuse e Hélder Aragão, entre outros, foi um dos idealizadores do movimento.

O mangue beat brotou da lama dos manguezais recifenses, cujo símbolo da realidade cotidiana são os “homens caranguejos” – termo emprestado do título do livro escrito pelo geógrafo Josué de Castro (Homens e caranguejos, 2001) sobre a realidade de milhões de famintos que catavam o crustáceo na capital pernambucana. Esse movimento tão vigoroso contaminou outras formas de expressão cultural, como o cinema, a moda e as artes plásticas.

Caranguejo cerebral

Nascido em Olinda (PE) em 13 de março de 1966, Chico Science sempre será lembrado como a principal expressão do movimento. Nos anos 1980, Science teve contato com a cultura produzida nas periferias de Recife. Passou por estilos como hip hop, soul e ska até fundi-los no maracatu. Jackson do Pandeiro, Josué de Castro, música de rua, conflitos étnicos “e todos os avanços da química aplicados no terreno da alteração e expansão da consciência”, como dizia o manifesto Caranguejos com cérebro, escrito por ele e Fred Zero Quatro.

Inclusive o apelido “Science” (ciência) foi dado por um amigo ao vê-lo realizar tantas experiências musicais. Experiências inseridas na melhor “tradição” antropofágica, cuja ideia é que a única forma de constituir uma identidade própria sem submeter-se aos padrões impostos pelos setores dominantes é agindo como canibais, ou seja, alimentando-se da força e da energia do outro para criar algo novo.

Suas letras e canções sempre denunciaram a situação de pobreza dos trabalhadores e da juventude de Recife e apontaram a necessidade de lutar pela transformação dessa realidade. Chico Science foi fundo nisso. O refrão “e com o bucho mais cheio comecei a pensar / Que eu me organizando posso desorganizar” soa como combustível para lutar e virar pelo avesso a sociedade.

Em “Banditismo por questão de classe”, Science começa com a proclamação de que o “homem coletivo sente a necessidade de lutar”. Além disso, faz uma analogia entre o “banditismo por necessidade”, do cangaço de Virgulino Ferreira, e os modernos “lampiões”, levados ao crime pela sociedade dividida em classes “pra comer um pedaço de pão todo fodido”. Tudo isso se passou num tempo em que o neoliberalismo era apresentado como mais uma porta mágica que conduziria o Brasil à modernidade. Eram tempos em que não estava na moda falar em “luta de classes”, condenada por pseudointelectuais a ser uma “peça de museu”, enquanto a miséria se alastrava pelas periferias de todo o país.

Censura

Até hoje “Banditismo por questão de classe” provoca a fúria e o ódio dos reacionários e de seus lacaios fascistas. No carnaval, bolsonaristas da Polícia Militar de Pernambuco proibiram a banda Janete Saiu pra Beber de tocar a música e ameaçou seus integrantes de prisão. A banda Devotos também sofreu censura durante apresentação na terça-feira de carnaval. Um absurdo completo, sinal dos tempos em que um presidente defende de forma explícita o genocídio do povo pobre e negro das periferias, sem mencionar os indígenas. “Em cada morro uma história diferente, que a polícia mata gente inocente”, diz a letra de Science. Esse é o lema hoje desse governo e de sua horda.

Um hino de resistência

“É de tiro certeiro, meu irmão, como bala que já cheira sangue, quando o gatilho é tão frio quanto quem tá na mira”.

Hoje Chico Science teria motivos de sobra para continuar cantando sobre a barbárie social que toma conta do país. Mais do que nunca, suas canções soam como um hino de revolta contra a familícia Bolsonaro e seu projeto de ditadura para transformar o país numa colônia dos gringos. Mas nem esse governo estupido nem suas hordas fascistoides calarão as milhões de vozes que cantam e sempre cantarão as músicas de Chico Science em carnavais, protestos e mobilizações. Os demônios não vão destruir o poder bravio da humanidade.

Chico Science, Um caranguejo elétrico

De José Eduardo Miglioli Junior

Documentário (2016)