Chapas de metalúrgicos desafiam sindicalismo governista no ABC e em Contagem

Há pouco mais de 20 anos, o papel dos sindicatos foi fundamental na derrubada da ditadura. Naquele momento, varrer os pelegos da estrutura sindical foi determinante para organizar a luta dos trabalhadores por seus direitos e contra a ditadura vigente. Hoje, guardadas as diferenças históricas, os trabalhadores estão diante de uma situação semelhante.

As eleições dos metalúrgicos no ABC e em Contagem são exemplos da disputa contra a existência de sindicatos atrelados ao governo e aos patrões e da luta pela construção de novos instrumentos, controlados pela base, que possam servir para organizar os trabalhadores. Um processo e um objetivo que são a própria razão de existência da Coordenação Nacional de Lutas, a Conlutas.

No ABC, a luta contra as parcerias com patrões e governo

Emmanuel Oliveira, de São Bernardo do Campo (SP)

Nos dias 12 e 13 de abril, serão realizadas eleições para diretores de base do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em 80 empresas. Em duas delas, Volkswagen e Kostal, haverá chapas de oposição à atual diretoria.

Na Volks, onde há mais de 9 mil sindicalizados, a oposição tem tradição e dirige setores da produção, tendo eleito dez representantes para a atual comissão de fábrica. Lá, a chapa é composta por membros da Coordenação Nacional de Lutas, a Conlutas, de setores da esquerda da CUT e de outras correntes.

A chapa da oposição concorrerá com a de Luiz Marinho, atual presidente da CUT. Na última eleição para a comissão de fábrica, o afastamento e as traições do sindicato cobraram seu preço: a chapa apoiada por Marinho teve menos de 20% dos votos em seu setor, o da pintura.

Na Kostal, com 900 trabalhadores e cerca de 500 sócios, a oposição irá se enfrentar com a chapa defendida pela diretoria do sindicato, que na eleição passada não conseguiu os 33% necessários para ter representantes no comitê sindical de empresa.

Em ambos os casos, o principal embate refere-se à política de “parceria” entre o sindicato, os patrões e o governo, que tem resultado em desastrosos acordos, como banco de horas e dias, terceirizações, redução da jornada com redução de 15% nos salários e contratações com salários rebaixados.

São ataques e traições que se intensificaram com o governo Lula. Há cinco anos, por exemplo, o sindicato conseguiu, na Justiça, que os trabalhadores não pagassem a CPMF. Agora, com o ex-metalúrgico e dirigente sindical do ABC no poder, o sindicato fez um novo acordo para que o pagamento voltasse a ser feito, mediante um parcelamento em 180 vezes, com uma parcela mínima de R$ 50.

Na Kostal, o último ataque veio na forma de um acordo para o estabelecimento de um quarto turno, ou turno 6×2, sem passar por assembléia dos trabalhadores.

Por um sindicato independente e de luta
Por essas e outras, o programa das chapas de oposição na Volks e na Kostal defende a independência da entidade ante o governo e os patrões e rechaça a flexibilização de jornada e salários e todo e qualquer tipo de acordo que corte direitos ou favoreça os patrões.

Nesta luta para que o sindicato não se transforme numa subsede do governo federal, as chapas de oposição colocam-se na linha de frente do combate contra a reforma Sindical e Trabalhista, que irão significar um ataque ainda mais violento contra a democracia sindical e os direitos ainda existentes.

A importância desta disputa no ABC é ressaltada por Sinval M. dos Santos, o Sassá (representante mais antigo da comissão de fábrica da Volks e membro da chapa de oposição): “A oposição quer resgatar o sindicato classista de luta, independente do governo e dos patrões, para barrar ‘parcerias’ que só têm prejudicado os trabalhadores. Por isso, somos contra as reformas e, também, contra o atrelamento de nosso sindicado ao governo. Os trabalhadores, aqui na base do ABC, estão desconfiados porque sempre foram contra os projetos neoliberais dos governos anteriores. Há uma raiva particular em relação a como a atual diretoria faz as negociações: não debatem nada com o trabalhador e depois fazem uma assembléia para aprovar as propostas que só ajudam a empresa. É pra mudar tudo isso que a Chapa 2 está apresentando seus candidatos e se propondo a construir uma nova alternativa de direção”.

Oposição em Contagem organiza as lutas durante a campanha

A eleição para o Sindicato dos Metalúrgicos de Contagem (MG) ocorrerá entre 26 e 29 de abril. De um lado, estará a chapa capitaneada pela CUT e formada com o objetivo de transformar o sindicato em uma ferramenta do governo Lula e de suas políticas. Ela é composta pelas correntes petistas Articulação Sindical e Democracia Socialista e a Corrente Sindical Classista (PCdoB), além de ex-integrantes do Movimento por uma Tendência Socialista (MTS).

Do outro, estará a Oposição Metalúrgica, ligada à Coordenação Nacional de Lutas (Conlutas) e composta por metalúrgicos do PSTU ou independentes, que querem construir um sindicato de luta, independente dos patrões e do governo.

As diferenças entre as chapas ficam evidentes nas posturas adotadas pela maioria da atual direção do sindicato, apoiada pela chapa cutista. Quando FHC era presidente, o sindicato criticava os planos neoliberais e buscava mobilizar a categoria para defender seus direitos. Hoje, com Lula no poder, o sindicato vive na sombra do governo, está atrelado às políticas pelegas da Central governista e não mobiliza mais a categoria.
O resultado não poderia ser outro: há um enorme descrédito na categoria. Apesar de ter mais de 50 mil metalúrgicos na base, somente 4.662 são associados ao sindicato.

Construindo a luta na base
Exemplo da postura pelega do sindicato e de sua chapa é o debate sobre a reforma Sindical e Trabalhista. A chapa da CUT afirma que “a reforma é boa, ainda que sejam necessárias algumas mudanças para melhorá-la”. A posição do PCdoB nesta história tem sido particularmente “interessante”. Nos materiais, a chapa defende a reforma juntamente com o PT, mas, nas ruas, divulgou uma carta à categoria denunciando a posição de seus aliados da Articulação como sendo “podre”.

Uma manobra que evidencia que, para não perder a “boquinha” do aparato sindical, essa gente é capaz de qualquer tipo de acordo.

Já a Oposição Metalúrgica, há dois meses, tem percorrido todas as fábricas para explicar o significado da reforma e como ela atacará os direitos dos trabalhadores para satisfazer os interesses do FMI e dos patrões.

Essa preocupação em discutir com os trabalhadores e organizá-los para a luta também orientou a formação da Chapa 2. Em dezembro, a Oposição começou a procurar os ativistas com o objetivo de formar uma chapa que pudesse renovar a maioria da diretoria. A definição final da chapa se dará em uma convenção aberta a toda categoria, no dia 28 de março, mas a expectativa é que ela seja composta por mais de 30 novos ativistas, que surgiram dos debates, além de alguns membros da atual diretoria.

A chapa da CUT, ao contrário, a exemplo do que ocorre no ministério de Lula, está sendo loteada entre as correntes da CUT, em uma briga de foice que já dura dois meses e deve ter 80% dos diretores vindos da velha diretoria.

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