Centrais sindicais celebram o sindicalismo pelego

Dirigentes das centrais durante o
Divulgação

CUT, Força Sindical, CTB e congêneres promovem comício a céu aberto e o chamam de “Conclat”O nome até pode ser igual, mas o real significado não poderia ser mais diferente. Ocorreu nesse dia 1º de junho a autodenominada Conferência Nacional da Classe Trabalhadora (Conclat), iniciativa que reuniu a CUT, Força Sindical, CTB, CGTB e NCST. Anunciada como a reedição do histórico Conclat de 1981, o atual reafirma a máxima de Marx que a história sempre se repete, mas como farsa.

O evento, segundo a CUT, reuniu 22 mil pessoas no estádio do Pacaembu, quando a própria organização havia divulgado esperar 30 mil. Estranhamente, a ideia de se realizar esse “Conclat” foi divulgada assim que a Conlutas e Intersindical anunciaram o seu congresso de unificação. Mais coincidência ainda, CUT e demais centrais marcaram o evento a poucos dias desse congresso.

O verdadeiro Conclat
Há quase 30 anos os setores mais progressivos do sindicalismo e do movimento de massas no Brasil se reuniram para avançar no processo de reorganização. A experiência das grandes greves de 1978 e 1979 mostrava a necessidade de se unificar as lutas e estreitar a ligação dos setores independentes, como forma de enfrentar a ditadura militar, os patrões e, sobretudo os pelegos.

Foi assim que o Conclat de 1981 aprovou a formação de uma “Comissão Pró-CUT”, responsável por organizar um congresso que fundasse uma nova central no ano seguinte. Posteriormente, porém, devido à extrema heterogeneidade, essa comissão rachou.

Os setores mais combativos, no qual Lula e os chamados “autênticos” se incluíam, fundaram a CUT em 1983 e a chamada “Unidade Sindical”, que reunia militantes do PCB, PCdoB e demais correntes que não concordavam com um movimento sindical de confronto, fundaram a CGT, que posteriormente viria a rachar e se desdobrar no que hoje é a Força Sindical e outras centrais menores.

De todo modo, pode-se dizer que o Conclat de 1981 deu o pontapé inicial para a fundação da CUT. Um inegável avanço na época que cumpriria um papel fundamental para o movimento operário e sindical nos 20 anos seguintes.

Falsificação histórica
A tal conferência liderada pela CUT no estádio do Pacaembu, porém, resumiu-se a um enorme comício em defesa do governo e de sua candidata, Dilma Roussef. Se o Conclat de 1981 se enfrentava com o governo, a farsa protagonizada pelas centrais hoje é financiada justamente pelo imposto sindical. É justamente a negação do processo que culminou no primeiro Conclat.

Os dirigentes das centrais envolvidas nesse “Conclat” divulgaram uma “agenda da classe trabalhadora” que expressa bem o significado que esse ato teve. Para nos ajudar a estabelecer as diferenças entre os dois Conclat´s, vale a pena fazer uma rápida comparação entre as resoluções da Conferência de 1981 e o documento recém-divulgado.

O primeiro Conclat, embora reunisse um amplo espectro de forças, que se traduziu num documento limitado, trazia medidas como “a estabilidade no emprego a todos os trabalhadores a partir da contratação e a extinção dos contratos de experiência e os empregos temporários“. Também pregava o “fim da política recessiva do governo ditada pelo FMI, de diminuição dos gastos públicos, de redução creditícia, da liberação das taxas dos juros e de desemprego” .

Não se limitando às reivindicações do mundo do trabalho, a pauta avançava para a defesa do “monopólio estatal dos recursos minerais e energéticos sob o controle efetivo dos trabalhadores“. Também defendia a “nacionalização dos bancos estrangeiros e das empresas multinacionais” .

Já o documento divulgado pela CUT, Força Sindical e congêneres defende “uma política de redução dos juros, do superávit primário e câmbio equilibrado”. Com relação às empresas, as centrais pretendem “articular uma política de desenvolvimento produtivo para fortalecer a presença das empresas nacionais na cadeia produtiva”. Ao longo de todo o documento, não há diferenças de classes, os interesses dos trabalhadores são tratados como meras conseqüências naturais do aumento dos lucros dos empresários.

Como se isso não bastasse, o documento, com nada menos que 293 reivindicações, que deve ser apresentado aos pré-candidatos à presidência defende, com relação à política enérgica e o pré-sal, a “aprovação de uma nova legislação para o petróleo do pré-Sal, garantindo a participação majoritária da Petrobrás no regime de partilha da produção“. Nem uma só palavra ou crítica sobre a privatização da Petrobrás, implementada na prática através da abertura de seu capital, sequer o monopólio da exploração do petróleo.

Encontro histórico?
Os dirigentes das centrais não hesitaram em classificar essa “conferência” como histórica. Pode até ser, mas não pelos mesmos motivos que tornaram histórico o Conclat de 1981. A farsa protagonizada pelas centrais nesse 1º de junho vai ser lembrada como a celebração do sindicalismo atrelado ao Estado e aos empresários. A celebração do sindicalismo pelego.