Carnaval: cada vez menos nos braços do povo

Maior e mais popular festejo brasileiro (e, como muitos querem, do mundo), o Carnaval tem suas raízes profundamente fincadas no questionamento dos valores e práticas da classe dominante. Originário nas festas gregas da Antiguidade, o festejo ocupou um importante espaço na sociedade medieval, em um dos períodos mais sombrios da História, quando a Igreja era senhora todo poderosa da sociedade – fazendo reis, ditando regras e perseguindo e matando qualquer um que se colocasse em seu caminho.

Celebração da vida e seus prazeres, a festa pagã foi perseguida pela Igreja que, contudo, foi incapaz de proibi-la totalmente e acabou sendo obrigada a incorporá-la em seu calendário, transformando a antiga celebração pagã em carnivale, uma última oportunidade para que as pessoas se refestassem com os prazeres da carne, literal e figurativamente, antes do jejum imposto pela Quaresma.

Ao atravessar o Atlântico, o Carnaval ganhou, no Brasil, o tempero fundamental das culturas africanas, que agregaram seu gingado e ritmos a uma festa que tinha como essência a inversão e o questionamento dos valores dominantes, por meio da sátira e de fantasias que, durante alguns dias, elevavam o “povo” à condição de senhores das ruas.

De lá para cá, se por um lado a festa sofreu um forte processo de domesticação e institucionalização, ela também não perdeu por completo aquilo que tem de mais libertário: a irreverência popular e a inversão dos valores vigentes.

Curvando-se ao Capital
Nas últimas décadas, o processo de mercantilização da festa invadiu todos os seus aspectos. Principalmente nas grandes cidades. No Rio de Janeiro, por exemplo, a maioria das Escolas de Samba, nascidas na clandestinidade e que serviram de celeiro para uma multidão de geniais músicos e artistas populares (como Cartola e Noel Rosa, apenas para citar dois nomes), não só vivem na sombra de “poderosos” como estão gradativamente substituindo os membros das comunidades por “celebridades” e turistas que pagam altos valores para integrar suas alas.

O “branqueamento” das escolas é a característica mais visível resultante desse processo. Mas está longe de ser o único. A vulgarização e a exploração da sexualidade feminina, a decadência da qualidade dos sambas e a institucionalização da festa são outros exemplos. De olho em patrocinadores e marcadas por uma competitividade gigantesca, as escolas curvaram-se ao capital, transformado no verdadeiro “rei” da festa.

Utilizando-se amplamente de sua incrível capacidade de “comprar” e incorporar até mesmo as manifestações mais legítimas no campo da arte e da cultura, a burguesia foi, aos poucos, apoderando-se do Carnaval, utilizando-o como palco para “festejar” seus próprios valores.

Exemplo categórico disso é o que tem acontecido com os sambas-enredo. No Grupo Especial do Rio, não faltam exemplos. Este ano, a Beija-Flor leva para a avenida a cidade mineira de Poços de Caldas; A Imperatriz Leopoldinense “canta” Santa Catarina e a Grande Rio traz um samba-enredo que faz malabarismo para combinar a exaltação à natureza com o “pólo industrial” do Amazonas, que patrocina a escola: “Viva o nosso pólo industrial! / Chegou a hora do Brasil gritar com todo o gás / Deixem o meu eldorado em paz!”.

Já a Caprichosos de Pilares não só exalta o Espírito Santo, como enfiou em seu enredo citações à fábrica de chocolate Garoto e um de seus principais produtos, em versos constrangedores de tão ruins. Depois de cantar “feito garoto me lambuzei”, a escola vem com o seguinte refrão: “Espírito Santo caprichou / É chocolate na Avenida / Numa serenata Pilares canta / Feliz da vida”. E, extrapolando as fronteiras nacionais, a Unidos de Vila Isabel utilizou-se do fato de que é patrocinada pela petrolífera venezuelana PDVSA (os membros das escolas prometem levar Hugo Chávez em um dos carros alegóricos), para fazer uma tresloucada apologia da “latinidade”.

No capítulo do marketing político, contudo, um dos exemplos mais deprimente é o da Mangueira. A escola decidiu usar de sua popularidade e carisma para fazer propaganda em defesa da transposição do Rio São Francisco: “O sertanejo sonhou / Banhou de fé o coração / E transbordou em verde-e-rosa / A esperança do sertão”. Apoiado oficialmente pelo Estado do Ceará, o enredo foi encomendado por Ciro Gomes, que, em troca, ganhou uma citação sobre seu ministério na letra: “Nas águas da integração, chegou Mangueira”. O governo do Ceará decidiu investir R$ 500 mil na Mangueira. Em compensação, a Escola terá alas organizadas em torno dos “projetos” desenvolvidos pelo seu patrocinador.

Em São Paulo, a lamentável história repete-se. Há “homenagens” a cidades como São Vicente (Vai-Vai), à pecuária (Casa Verde), ao agronegócio (Tucuruvi) e, de novo, ao Rio São Francisco (Mocidade Alegre).

Bastidores recheados de grana
Se isso não bastasse, a festa, nas grandes metrópoles, é cada vez mais inacessível para o povo em geral. No Rio, o lugar mais barato nas arquibancadas custa R$ 110, podendo chegar até R$ 290. Ah! e um camarote para 12 pessoas pode custar até R$ 39.400. Em Salvador, o abada, peça necessária para integrar os blocos, custa, no mínimo, R$ 130, para dois dias, mas os preços pode ir às alturas, em blocos mais conhecidos, como o Araketu (R$ 500, por três dias).

Para além do que se passa nas avenidas, o Carnaval ainda movimenta milhões em seus bastidores, principalmente dos milionários patrocínios relacionados à transmissão pela TV. Neste quesito, este ano, ninguém irá bater o Grupo Schincariol, que fechou contrato com a Rede Globo para transmitir o carnaval do Rio, com a Bandeirantes (em Salvador e no Recife) e com a Rede TV, para cobrir os bailes fechados.

Apesar da Skin não divulgar o quanto investiu para tirar as logomarcas da AmBev (Skol, Antártica e Bohemia) das telas de TV e, ainda, monopolizar a venda de cerveja dentro do sambódromo, analistas afirmam que apenas um parcela do custo corresponde a R$ 280 milhões.

Resgatando tradições
Diante de tudo isso, não chega a surpreender o fato de que, Brasil afora, velhas tradições carnavalescas e populares têm ganho espaço, inclusive entre os mais jovens – algo que só pode ser festejado. Na maioria das grandes cidades, os blocos têm atraído milhões de pessoas, que preferem tomar as ruas em vez de se limitarem às cercas dos sambódromos. Também é crescente o número de grupos que estão resgatando velhas tradições de origem africana, como os jongos, os afoxés, as rodas de samba de raiz, o chorinho e, até mesmo, as velhas marchinhas carnavalescas.

Organizados por gente “excluída” dos festejos televisivos e disposta a se divertir longe do falso moralismo global, esses blocos e grupos estão mantendo vivo aquilo que há de melhor no Carnaval: a explosão da criatividade popular e a idéia de que arte e cultura podem, e devem, ser irreverentes armas contra o sistema.

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