Bush e Lula: dois enganos

Poucas vezes na história um presidente dos EUA foi tão repudiado em todo o mundo como Bush.

O maior representante do mais importante governo imperialista é recebido em todos os países que visita com manifestações de repúdio que crescem a cada dia. Não se trata somente do número dos presentes nas manifestações, porque existe um apoio de massas a esses atos. Existe uma consciência antiimperialista ampla que respalda essas manifestações. Essa é a face mais visível da crise do imperialismo, atolado com a resistência militar no Iraque e o desgaste dos planos neoliberais.

Quando a aparência não engana
A vinda de Bush ao Brasil vai tornar visível uma realidade que está sempre escondida das grandes massas que apóiam o governo do PT. De um lado, Lula e Bush discutindo amigavelmente como vão trabalhar juntos na América Latina. É provável que Lula novamente se derrame em elogios ao presidente norte-americano, como fez em seu encontro anterior, em que disse que Bush é um “amigo”. Do outro, dezenas de atos anti-Bush em todas as capitais do país, que contarão com o apoio, ainda que passivo, de uma parte considerável da população brasileira.

Bush e Lula de um lado, povo trabalhador do outro. O que vai aparecer nessa reunião é exatamente o que tem se passado no governo do PT. Lula obedecendo servilmente as ordens de Bush, o mesmo Bush que é repudiado e odiado em todo o mundo. Infelizmente, não é assim que pensa a maioria dos trabalhadores, que ainda acredita que o presidente Lula “é um dos nossos” e se “preocupa com os pobres”.

Nós chamamos os trabalhadores que ainda acreditam em Lula a refletir. As grandes multinacionais representadas por Bush nunca ganharam tanto dinheiro como no governo do PT. Essas empresas fazem o que querem no Brasil, sempre com o apoio de Lula. Financiam a campanha eleitoral do PT e do PSDB. O governo brasileiro, atendendo ao apelo de Bush, enviou tropas para invadir o Haiti, para evitar que os soldados dos EUA tivessem que assumir diretamente outra frente de batalha. Todos os que ficam indignados com a invasão do Iraque por Bush têm a obrigação de repudiar a ocupação do Haiti por tropas brasileiras.

Será que Lula consegue enganar Bush e as multinacionais completamente por tanto tempo? Ou quem está sendo enganado é o povo trabalhador do Brasil, que ainda acredita em Lula? Este é o primeiro engano, mas não o único nessa história.

…E quando a aparência engana
Perante a subserviência de Lula, não é de estranhar que seja Chávez quem se reforce com a vinda de Bush ao Brasil. Todo um setor de ativistas prefere os discursos de Chávez, chamando o presidente norte-americano de “diabo”, do que o “meu amigo” de Lula.

Trata-se de outro engano. Em política, assim como em boa parte da vida, é fundamental observar mais as ações dos governantes e menos seus discursos.

De uma análise concreta das ações de Chávez e Evo, conclui-se que esses governantes querem negociar com o imperialismo maiores compensações pelo petróleo, gás, etc. Mas não passa pela cabeça de nenhum deles a ruptura com o imperialismo. A dívida externa venezuelana continua sendo paga religiosamente, não existe nenhuma expropriação de empresas do petróleo ou gás. Nós defendemos as nacionalizações feitas perante qualquer ataque do imperialismo. Mas exigimos que esses governos rompam realmente com o imperialismo.

Existem hoje condições muito melhores para uma ruptura com o imperialismo que no passado. O argumento clássico do reformismo contra uma ruptura (“nós ficaríamos isolados”) hoje é desmentido pelos fatos. A consciência antiimperialista é tão difundida que permite um reflexo distorcido nas vitórias desses governos da centro-esquerda no continente. Nunca houve na história tantos governos de Frente Popular e nacionalistas ao mesmo tempo no continente. Uma ruptura com o imperialismo, seja do Brasil, Venezuela ou Bolívia, causaria uma onda de simpatia muito maior do que a existente hoje em torno desses governos. Por exemplo, se Chávez parasse de pagar a dívida amanhã e chamasse uma Frente de Países pelo não pagamento, isso criaria um movimento de massas no continente muito poderoso.

O engano Lula não pode ser substituído pelo engano Chávez.

Fora Bush!
É hora de ocupar as ruas deste país com o “Fora Bush”. Em todas as principais cidades vamos realizar atos em unidade de ação com todos os que se dispuserem a repudiar a presença do “senhor da guerra” no país.

Dentro dessa luta unitária, vamos defender também a retirada das tropas brasileiras no Haiti. Por isso nossa proposta é por “Fora Bush do Iraque e Lula do Haiti”.
Post author EDITORIAL DO OPINIÃO SOCIALISTA Nº 289
Publication Date