Bolívia: `A frente operária e camponesa poderá ser alternativa nas eleições`

O Opinião Socialista entrevistou Jaime Vilela, dirigente do MST (Movimiento Socialista de los Trabajadores), da Bolívia. Vilela contou sobre o recente processo de luta dos trabalhadores bolivianos que derrubou o presidente Carlos Mesa e ainda apresentou sua opinião sobre o papel das direções das organizações da esquerda boliviana e a perspectiva de se construir uma alternativa de poder dos trabalhadores

Opinião Socialista – A Bolívia acaba de passar por um dos maiores processos revolucionários dos últimos tempos. O que houve nesse momento?

Jaime Vilela – Bom, a resistência do povo boliviano, tendo à frente a COB (Central Obrera Boliviana), a COR (Central Obrera Regional) e a Fejuve (Federación de Juntas Vecinales, organização dos moradores), ambas da cidade de El Alto, provocou a queda de três governos. Seu centro foi a exigência de nacionalização dos hidrocarbonetos, que hoje estão nas mãos das transnacionais britânicas, norte-americanas, espanholas e brasileiras. Por ser uma reivindicação que vai contra o coração dessas petroleiras, acabou arrastando os governos que estão a seu serviço.

Como se explica que tamanha mobilização não tenha levado ao poder a classe trabalhadora boliviana?

Jaime – De fato, as massas fazem de tudo, desestabilizam governos e instituições, mas não assumem o controle do país. A responsabilidade por isso recai basicamente sobre as principais direções do movimento. O MAS (Movimiento al Socialismo), partido liderado por Evo Morales, é um dos grandes responsáveis por isso, ao evitar que as massas chegassem ao governo, viabilizando assim a sucessão constitucional. Mas também são responsáveis a direção da COB, da Fejuve e da COR de El Alto, que são as principais lideranças dos trabalhadores.

O que essas organizações propunham como saída para a crise?

Jaime – O principal dirigente da COB, Jaime Solares, insiste em que pode haver um golpe cívico-militar. Abel Mamani e Carlos Patana, das organizações de El Alto, fazem seguidismo ao MAS, de Evo Morales, e chamam a necessidade de defender a democracia nesse momento de agudização das contradições. Assim, defender uma saída burguesa para a crise, que a burguesia continue no poder.

Qual foi a política do MST durante esse processo?

Jaime – Nós procuramos a todo momento fazer avançar a luta pela nacionalização dos hidrocarbonetos, conscientes de que ela coloca na ordem do dia o problema do poder. Só a classe trabalhadora, no poder, poderá resolver esse problema. Com esse ponto de vista, o MST cobrou a todo momento das organizações que assumissem o poder político. Nossas bandeiras foram “Todo poder à COB e às organizações em luta”, num primeiro momento, e finalmente, quando essas organizações em luta se aglutinaram em um comando denominado Asamblea Nacional, Popular y Originaria, lutamos para que esse comando assumisse o poder.

Rodríguez assumiu o poder. Como está esse governo hoje?

Jaime – Ele só pôde assumir a presidência porque conseguiu, literalmente, a permissão das organizações de El Alto. Sem essa permissão, não estaria no governo. Portanto, é um governo extremamente frágil e com uma agenda já estabelecida: eleições para a primeira semana de dezembro deste ano e eleição para a Assembléia Constituinte e referendum autonômico para julho do próximo ano. Tudo pode ocorrer, mas não está descartado que as massas voltem a reagir de forma violenta, porque nada foi solucionado.

Acaba de se formar uma frente operária e camponesa para disputar as eleições?

Jaime – Sim, no último dia 20 ocorreu um fato muito importante na Bolívia. Em um encontro histórico, se reuniram 29 organizações das massas bolivianas, e aprovaram a formação da Frente Obrero, Campesino, Popular y Originario para impulsionar as lutas e se apresentar como alternativa nas eleições. No entanto, isso ainda não está garantido, porque tanto a Fejuve quanto a COR, de El Alto, estão ameaçando romper a frente, deixando o caminho livre para que o MAS, de Evo Morales, aglutine os votos dos trabalhadores.

Qual foi o papel do governo Lula e da Petrobras?

Jaime – Lula se aproveita de seu prestígio como ex-dirigente operário para servir como sustentação do governo boliviano. Foi assim com Sanchez de Lozada, em 2003, derrubado pelas massas em luta, e agora tentou apoiar Mesa, mas também não adiantou. No auge da luta revolucionária, viajou à Bolívia um alto representante do PT, Marco Aurélio Garcia, para tratar de deter as principais direções dos trabalhadores, especialmente o MAS, que tem estreita relação política com o PT brasileiro. Queria que se viabilizasse uma saída nos marcos da democracia burguesa para permitir o respeito à nova lei de hidrocarbonetos aprovada pelo Senado, que mantém o mesmo contrato recolonizador que o do governo Lozada. Lula, em vez de estar ao lado do povo boliviano, tem sido o principal agente não só da Petrobras como de todas as transnacionais petroleiras para evitar que o povo boliviano consiga a nacionalização dos hidrocarbonetos.

Há um problema grave na Bolívia, que diz respeito às nacionalidades indígenas.
Como você vê isso?

Jaime – Repudiamos a exigência de autonomia por parte da burguesia de Santa Cruz, que quer dividir o país para garantir seus negócios. O verdadeiro direito à autodeterminação tem a ver com os povos originários, os aimaras, quechuas, guaranis, cerca de 30 etnias que existem na Bolívia. Nós não alentamos a divisão do país, mas que, se essas etnias exigirem o direito à separação, ela deveria ser concedida. Mas isso no marco de que a classe trabalhadora tome o poder. Nós queremos um governo operário e camponês, que caminhe rumo ao socialismo, de maneira pluricultural e multiétnica. Logo, um governo operário e camponês na Bolívia será aimara-quechua ou não será, já que 80% da população boliviana é aimara-quechua.

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