Bergman e Antonioni: o eclipse de uma era no cinema

As mortes do sueco Ingmar Bergman, em 30 de julho, e do italiano Michelangelo Antonioni, no dia 31, significaram mais do que uma coincidência quase cinematográfica. Em muitos aspectos, o falecimento dos dois cineastas pode ser visto como evidência do “fim de uma era” na história no cinema.

Uma “era” formada por uma geração de artistas que soube impregnar as telas dos cinemas com filmes que, ao mesmo tempo, expressam visões extremamente pessoais e autorais do mundo e questionamentos. Reflexões que dizem respeito a todo e qualquer ser humano dotado de sensibilidade suficiente para ver beleza e inspiração até nos aspectos mais contraditórios (e, por isso, mais ricos) da vida.

Uma geração da qual fizeram parte gente como o espanhol Luis Buñuel, o japonês Akira Kurosawa e os italianos Federico Fellini e Píer Paolo Pasolini. Cineastas com os quais Bergman e Antonioni, inclusive, mantiveram um intenso diálogo.

Beirando o sublime
Se realmente houve algo em comum entre Bergman e Anto-nioni foi a incrível capacidade de ambos em representar as contradições do ser humano em filmes que muitas vezes atingiram o limite do sublime. Obras que merecem o nome de “clássicos” por diversas razões.

A começar pela abordagem que eles dão às mais “existenciais” experiências do ser humano: os descaminhos do amor, o vazio da solidão, o sempre incômodo legado familiar, a dificuldade da comunicação pessoal, os pequenos segredos e grandes acontecimentos guardados na memória e, inclusive, a constante presença da morte ao nosso redor.

Também são filmes memoráveis na forma como, em seus universos, estes “dramas da existência” deixam sempre transparecer – muitas vezes através de comentários cínicos, ácidos e até cômicos – o tipo de mundo e o sistema de poder que fazem da existência humana algo muito mais penoso, sombrio e “desesperançado” do que deveria ser.

Poucos souberam fazer isso com um domínio genial da linguagem cinematográfica e tudo aquilo que faz do cinema uma forma única de arte.

Nas mãos deles, o “close” no rosto de um personagem poderia ganhar a profundidade de um enigma. Sutis movimentos de câmera construíam verdadeiros discursos e os prolongados planos e silêncios serviam como uma espécie de convite para que o espectador “entrasse” no filme, divagasse por aquele universo, dialogasse com os conflitos de seus personagens, refletisse sobre os questionamentos levantados pelas muitas “estranhezas” que sempre caracterizaram as obras de Bergman e Antonioni.

O mal-estar do mundo
Não é uma coincidência que ambos sejam frutos do pós-Segunda Guerra e do cinema (principalmente a partir do neo-realismo italiano) que se originou em uma Europa que, depois de anos de destruição e luta, buscava se renovar desesperadamente.
Bergman trilhou seu caminho em mais de 50 filmes e dezenas de outras produções para a TV, o teatro e a ópera. No cinema, foram obras inesquecíveis como “Fanny e Alexander” (1982), “Sonata de outono” (1981), “O ovo da serpente” (1977), “Cenas de um casamento”, (1973), “Gritos e sussurros” (1972), “Persona” (1966), “Morangos silvestres” (1957) e “O sétimo selo” (1956).

Antonioni deu início a sua história no cinema com uma trilogia cujo tema é o árido mundo da alienação e da solidão, explorado na trilogia composta por “A aventura” (1960), “A noite” (1961) e “O eclipse” (1962). Seu maior sucesso internacional foi “Blow Up” (que, no Brasil, ganhou o título “Depois daquele beijo”), de 1966.
Baseado no conto “Las babas del diablo”, do argentino Julio Cortázar, e transformado em filme-ícone da agitada Londres nos anos 60, o filme é um curioso mergulho num mundo em que a verdadeira aparência das coisas só se revela após sucessivas e persistentes tentativas.

Outros dois fantásticos exemplos de seu cinema foram “Zabriskie Point” (1970) – uma quase psicodélica e pouco otimista visão do futuro, contada ao som de Pink Floyd, Grateful Dead e Rolling Stones – e “Profissão: repórter” (1975), no qual Jack Nicholson vive um intricado conflito de identidade.

Distintos em vários sentidos, em todos esses filmes há uma perceptível sensação de “mal-estar”. Um “mal-estar no mundo”. Não é incomum, por exemplo, que os personagens desses diretores vaguem pela história em busca de suas origens, de algo que lhes complete ou de alguém que lhes dê um sentido para a vida. De algo ou alguém que amenize o tédio e a solidão em que eles se encontram mergulhados.
Bergman e Antonioni foram tidos por muitos críticos (principalmente os da esquerda dos anos 1970 e 1980) como “existencialistas” e, conseqüentemente, “despolitizados”. Mas os dois cineastas foram expressão daquilo que a arte tem de único e mais revolucionário: a possibilidade de expressar não só a realidade humana, mas também sua subjetividade.

E o cinema se vai?
Bergman e Antonioni permanecem vivos não só em suas obras, mas também na infinidade de diretores que eles influenciaram. A morte dos dois, inegavelmente, não pode ser tomado como mero episódio na história do cinema.

Seu significado pode ser exemplificado através de um dos mais belos filmes de outro representante da geração de Bergman e Antonioni. Em “La nave va” (1983), Federico Fellini contou a história de uma poética viagem marítima realizada para fazer o funeral de uma diva da ópera, às vésperas da Primeira Guerra, em 1914.

Tudo no filme serve como metáfora para “o fim de uma era” que se aproxima ao ritmo dos conflitos estabelecidos no interior do navio, se afirma na constante presença da morte e martela a consciência com a certeza de que o mundo, tal como se conhecia, está à beira de se desfazer.

Um esfacelamento que no filme de Fellini é tão inevitável quanto necessário. É um daqueles momentos de crise, no sentido mais literal da palavra: quando a renovação só pode surgir com a destruição do velho.

Tanto as obras de Berg-man e Antonioni quanto a coincidência em suas mortes têm algo de “felliniano”. Símbolos de uma geração que cresceu durante uma guerra e criou em um mundo agitado por revoltas contra o sistema e contra-ataques das elites, os diretores morreram num momento que talvez seja o pior (salvo raras e honrosas exceções) que o cinema já enfrentou desde seu surgi-mento, em 1895.

Uma crise que em tudo espelha a do mundo atual: a submissão à lógica do mercado; a vulgarização da vida e suas contradições; a propaganda descarada da ideologia burguesa; a padronização estética; a valorização do “espetáculo” sobre o conteúdo.
A coincidência na morte dos dois mestres serve de alguma forma como alerta: o eclipse desta era pede o surgimento de algo novo.

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