Balanço da Assembléia Popular

Realizada em Brasília entre 25 e 28 de outubro, a Assembléia Popular foi organizada pelas Pastorais Sociais da igreja católica, Campanha Brasileira Contra a ALCA e a Dívida Externa e Consulta Popular, e teve a participação de mais de 5 mil pessoas. A Conlutas não participou da organização da Assembléia, mas enviou uma pequena representação que participou das discussões.

A Assembléia representou alguns dos dilemas que hoje afligem os movimentos sociais no país. Os participantes buscavam respostas para fortalecer suas lutas e ansiavam por expressar seu descontentamento com o governo Lula. Um dos momentos mais aplaudidos na mesa de abertura política foi quando Sandra Quintela disse que as pessoas já estão cansadas de um sistema eleitoral em que “a gente vota e depois fica marcando no relógio a hora em que aquele que foi eleito por nós vai nos trair”. A alusão a Lula era óbvia na cabeça das pessoas.

A Assembléia avançou ao sistematizar um conjunto de bandeiras dos movimentos e apontar uma proposta de calendário comum de lutas para o próximo ano. Valorizo particularmente a Jornada de Lutas pela Soberania e Contra o Pagamento das Dividas Externa e Interna proposta para a semana da pátria de 2006. Essa questão tem grande relevância para o país e para a classe trabalhadora.

No entanto, há ainda ambigüidades que são importantes, principalmente em relação ao governo federal. A preocupação em evitar a polarização “contra e a favor” do governo foi reveladora. O tema governo não aparece nem na Carta Final da Assembléia. É como se a luta do povo não tivesse nada a ver com o governo Lula.

Essa limitação não é menor, pois a luta pela realização do conjunto de bandeiras sistematizadas na Carta é também uma luta contra esse governo que aí está. A luta contra o imperialismo é fundamental nos tempos em que vivemos. Mas, o imperialismo opera suas políticas dentro dos nossos países através de vários instrumentos e os mais importantes são os governos nacionais. No caso do Brasil, é o próprio governo Lula. Quem é que dá continuidade ao pagamento das dívidas com a fome do povo? Quem aplica aqui as políticas do FMI? Quem mandou tropas brasileiras para o Haiti? Essa ambigüidade persiste porque não se quer enfrentar o governo Lula.

O discurso feito por João Pedro Stédile teve como centro a defesa da reeleição de Lula, analisando que um governo Lula, reeleito, não reprimiria as mobilizações que virão e se aliaria ao povo. Para que serve continuar disseminando essas ilusões de que Lula é nosso aliado contra as elites, a não ser para gerar confusão e enfraquecer a luta social?

Lembremos que essa ambigüidade em relação ao governo Lula foi fator importante na crise que viveu e vive a Campanha Brasileira Contra a Alca e a Dívida Externa. Em que deu a crença de vários setores de que Lula no governo atenderia a essas reivindicações dos movimentos sociais?

Outro elemento importante a ser superado é a existência de reservas que ainda dificultam uma unidade maior de todos os setores que querem lutar em torno dessas bandeiras. Parte das dificuldades parece ter sido removida ainda no processo preparatório da Assembléia. Mas, isso agora tem que avançar para um patamar superior, para que, no encaminhamento desse plano de ação, todos os setores que com ele têm acordo possam efetivamente participar de igual para igual. É condição importante para que setores significativos do sindicalismo brasileiro possam se integrar plenamente nessa luta, o que tem uma importância óbvia para a luta em si e para todos os setores envolvidos nela.

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