Ato das universidades paulistas reúne 5 mil e chama a atenção da sociedade

Cordão da PM retém manifestantes
Diego Cruz

Estava marcada para a tarde de 31 de maio uma visita dos estudantes, funcionários e professores das três universidades estaduais paulistas – USP, Unesp e Unicamp – ao Palácio dos Bandeirantes, sede do governo estadual. O objetivo era entregar a pauta de reivindicações ao governador José Serra (PSDB). O encontro não aconteceu, porque o governo e a polícia impediram os manifestantes de chegarem ao Palácio. O fato foi pauta dos principais meios de comunicação do país.

A concentração
Faltava ainda uma hora para o horário previsto para a saída da caminhada quando milhares de pessoas já se concentravam em frente à reitoria da USP. Estudantes de outros estados – como, entre outros, Paraná, Rio de Janeiro e Pará – também estavam presentes, em apoio ao movimento paulista e na tentativa de unificar com as lutas que acontecem em suas regiões.

Tiago Guapo, estudante de História da Universidade Estadual de Maringá e membro da Conlute, veio do Paraná para visitar a ocupação. Ele disse que veio até São Paulo porque este movimento “está servindo como exemplo para que os estudantes de outros estados também sigam o caminho dos estudantes das estaduais paulistas para defender a qualidade das universidades públicas”. Tiago falou que, no seu Estado, o governador Requião (PMDB) “também instaurou um decreto que retira a autonomia universitária, e esses ataques fazem parte de um projeto maior que se chama reforma universitária”.

Caminhada sai e vai ganhando adesão
Por volta das 13h30, cerca de cinco mil pessoas saíram em passeata da frente da reitoria da USP rumo à sede do governo. O clima era de muita animação. Aos estudantes, servidores e professores da USP, somaram-se representantes dos três setores da Unesp e da Unicamp, também em greve.

Com a passeata já em movimento, ainda chegavam ônibus do interior, de muitos dos campi das universidades, e os estudantes iam se somando ao protesto. Eles traziam informes da luta contra os decretos em suas faculdades, como o representante da Unesp de Assis, que se desculpou por terem enviado apenas uma representação, pois o restante teve de garantir a ocupação que também acontece por lá.

A passeata reuniu mais de cinco mil pessoas. Alguns órgãos de imprensa noticiaram até dez mil. A PM informou entre 3 a 5 mil, um número não muito confiável, já que existe uma margem de diferença muito grande, de duas mil pessoas.

De cima do carro de som que puxava a passeata, não se podia ver o fim da coluna. Era possível avistar muitas faixas indicando cursos e faculdades em greve, em que os estudantes faziam questão de anunciar que estavam parados em defesa das universidades.

Durante o percurso, entidades falavam no caminhão em apoio ao movimento, como o Sindicato dos Trabalhadores no Serviço Público Federal do Estado de São Paulo (Sindsef-SP), a Coordenação Nacional de Luta dos Estudantes (Conlute), O Movimento da Juventude Trabalhadora e o MST.

Emiliano Soto, da Conlute, relacionou a luta que acontece nas universidades paulistas a um projeto mais geral para a educação no Brasil. “O governo Lula também tem seus decretos, a reforma universitária tem o mesmo sentido de entregar a soberania do país ao seu novo melhor amigo, o senhor George W. Bush”, disse.

A Coordenação Nacional de Lutas (Conlutas) distribuiu um adesivo e cartazes contra os decretos, com a foto em que Serra segura uma arma, que foi massivamente usado pelos manifestantes. Estiveram presentes, ainda, o PSTU e o PSOL.

Os ativistas só paravam de gritar as palavras-de-ordem para ouvir as falas que aconteciam no carro de som. Entre as mais cantadas, percebia-se a vontade de unir as lutas e de ampliar as reivindicações. “USP, Unesp, Fatec e Unicamp; na luta professor, funcionário e estudante” e “É Lula lá, é Serra aqui, e a nossa verba vai para o FMI” foram algumas das mais entoadas.

Passeata barrada
Com o caminho já planejado e comunicado à Polícia Militar, a caminhada seguiu pela avenida Francisco Morato, de onde sairia para entrar na avenida Morumbi, acesso ao Palácio dos Bandeirantes. Entretanto, ao chegar na esquina das duas avenidas, a PM esperava pela marcha com cerca de 150 efetivos da força tática e da tropa de choque. Eles faziam um cordão que trancava a passagem completamente.

Revoltados, os manifestantes queriam passar. O governador, numa provocação explícita, disse que somente receberia uma comissão numa praça próxima à região. A partir daí, seguiu-se um impasse por mais de quatro horas. A cada momento, chegavam mais policiais da tropa de choque para garantir a repressão.

Os militantes argumentavam que tinham o direito legítimo de seguir até o governo, mas já se sabia que a polícia estava ali para impedir de qualquer forma a passagem. Isso ficou demonstrado em tentativas de romper o bloqueio, em que a PM partiu para cima dos manifestantes com gás pimenta e cacetetes. Sobrou até para a imprensa: além de lançar gás pimenta nos repórteres presentes, alguns policiais apontaram armas de balas de borracha, ordenando que os jornalistas saíssem da frente ou iriam atirar.

Em resposta, os estudantes mostraram suas “armas” aos PMs: eles levantaram livros e jogaram materiais contra a polícia, como borrachas, canetas e papéis inofensivos. Um estudante chegou a ser detido, mas foi solto logo depois por pressão do movimento. A imprensa testemunhou e registrou o momento em que o garoto foi arrastado avenida Morumbi acima, apanhando da polícia.

Os policiais não tinham identificação, como vem acontecendo em todas as ocasiões que reprimem o movimento. Questionado por uma repórter, um soldado disse que, nesse caso, não usavam as tarjetas com os nomes porque, se algo acontecesse, o responsável pelas ações seria o coronel, identificado por ele como José Roberto.

“Confusão” em São Paulo: a culpa é de quem?
Por volta das 17h, a Companhia de Engenharia de Tráfego divulgou que havia mais de 100 quilômetros de lentidão no trânsito da capital paulista. As avenidas Morumbi e Francisco Morato, esta última uma das mais movimentadas da cidade, ficaram fechadas pela Polícia Militar por mais de cinco horas. No entorno do Palácio dos Bandeirantes, as vias de acesso foram bloqueadas pela PM.

A maioria dos veículos de comunicação da imprensa burguesa tenta fazer com que a população se volte contra o movimento organizado, jogando a culpa pelos transtronos nos militantes honestos que apenas lutam por seus direitos e por uma educação de qualidade.

É necessário dizer que os transtornos causados na cidade de São Paulo no dia 31 de maio são de inteira responsabilidade do governo do Estado e da Polícia Militar, que agiram de forma arbitrária e intransigente, forma vista nos tempos da ditadura militar, como bem lembraram muitos ativistas. Nenhuma alteração na vida da cidade teria acontecido se a passeata não tivesse sido impedida de exercer seu direito de se manifestar e se o governo e a PM não tivessem resolvido parar uma passeata num dos pontos mais movimentados de São Paulo.

Governo não quer negociar
O movimento não dava sinais de esmorecer. Assim, foi permitida a passagem de uma comissão de 15 pessoas, representando os três setores das três universidades e outros segmentos presentes na manifestação, para negociar a ida do ato até o Palácio.

O governador não recebeu a comissão, enviando apenas representantes, que nada resolveram. Inflexível, não permitiu sequer a passagem dos manifestantes. Quando a comissão voltou, já era noite, e os manifestantes, em votação, decidiram voltar para a ocupação e realizar uma plenária das três universidades, com estudantes, professores e funcionários, para decidir sobre as próximas ações do movimento.

Na avaliação dos ativistas, foi desgaste desnecessário que mostrou que o governador, apesar do aparente recuo com relação aos decretos, na prática não quer negociar. “É um absurdo impedir uma manifestação pacífica como essa”, disse Gabriel Casoni, estudante da USP. “Nosso objetivo é exigir do Serra a imediata suspensão dos decretos”, afirmou.

E agora, Serra?
A situação para o governo do Estado de São Paulo não é nem um pouco favorável. Na manhã de quinta-feira, antes do ato, saiu publicado no diário Oficial um decreto declaratório dos decretos sobre as universidades. No texto, Serra faz alguns recuos com relação aos decretos iniciais. Para Gabriel Casoni, as mudanças “sem dúvida nenhuma, são frutos que a ocupação vem conseguindo e que a greve vem conseguindo também”.

Há um ponto, entretanto, em que o governo não cede: a criação da Secretaria do Ensino Superior. A retirada dessa secretaria, que tem como função elaborar políticas para a universidade, é o principal ponto da pauta do movimento. O segundo vice-presidente da Associação dos Docentes da USP, João Zanetic, disse à imprensa, durante o ato de ontem, que a medida de Serra “foi um recuo, mas ainda não suficiente”. “Queremos as universidades junto com as Fatecs”, declarou. Uma das conseqüências da Secretaria é a desvinculação entre universidades e faculdades de tecnologia.

Na manhã desta sexta-feira, a ocupação da reitoria publicou uma nota em que afirma que a luta vai continuar. Segundo o texto, a essência dos decretos se mantém.

Movimento se fortalece e vira pauta nacional
O movimento está crescendo a cada dia. Novas assembléias estão marcadas em todos os campi das três universidades paulistas para indicar greve. A cada dia, novos cursos anunciam que estão parando na USP, na Unesp e na Unicamp.

A mobilização que iniciou há quase um mês com a ocupação da reitoria da Universidade de São Paulo já tomou proporção nacional e ultrapassou o âmbito das reivindicações específicas da USP ou das estaduais paulistas. O movimento passa a compreender que os ataques são os mesmos em todas as universidades e que o objetivo final dos governos é a reforma universitária, encabeçada por Lula.

A toda hora, chegam informes de mobilizações em todo o país. São estudantes, funcionários e professores que se espelham no movimento paulista e vêem que é possível lutar e vencer.

Agora, resta saber se o governo vai continuar atacando a educação pública, passando por cima da comunidade universitária, ou se vai finalmente ceder ao apelo do movimento. Por que se depender dos milhares de militantes mobilizados, esta luta só poderá acabar com uma vitória do movimento e do ensino.