Ato com dom Cappio, em São Paulo, reuniu 500 pessoas

Dom Cappio falando no ato
João Zinclar

Na capital paulista, um passo importante para a construção de uma alternativa que una as lutas específicas em torno de um objetivo comum“Aqui quem fala é o trabalhador / contra as mentiras do governo traidor”. Esse era o clima no ato que aconteceu na Casa de Portugal, em São Paulo, na noite de 1º de abril. O evento marcou o encerramento do Dia de Luta contra as mentiras.

A mesa, bastante representativa, simbolizou o espírito de unidade dos variados setores para defender os interesses dos trabalhadores contra as mentiras e os ataques dos governos e dos patrões. Conlutas, Intersindical, Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Pastorais da Igreja, PSTU e PSOL compuseram a mesa junto com dom Luiz Cappio, bispo de Barra (BA) e ícone da luta contra a transposição do rio São Francisco.

Na platéia, estavam cerca de 500 estudantes e trabalhadores dos movimentos sindical e popular vindos de diversas cidades, como São José dos Campos, Campinas e do ABC paulista. Os trabalhadores da General Motors, que hoje travam uma dura batalha contra a retirada de direitos na multinacional, vieram de são José dos Campos para participar do ato. O MTST também marcou presença com seus militantes e moradores das novas ocupações. No dia 28 de março, o MTST promoveu ocupações em Campinas, Mauá e Embu das Artes, todas em São Paulo.

Além dessas, várias outras categorias estavam representadas, como os trabalhadores dos Correios, que estão em greve nacional, servidores públicos, estudantes universitários e secundaristas, operários e trabalhadores do Metrô. Muitos sindicatos e entidades que não puderam estar presentes enviaram saudações e mensagens de apoio que foram lidas ao longo da atividade.

Verdades e mentiras
“A nossa verdade é que não temos teto para morar, que nossos direitos estão sendo retirados”, ressaltou Atnágoras Lopes, do PSTU. Para ele, o ato representou “um passo adiante para construir a unidade cotidiana da classe trabalhadora”. “De um lado, estão os trabalhadores e a vontade de se libertar; de outro, Lula e os ricos”, disse.

Heloísa Helena, do PSOL, disse que é obrigação dos militantes e ativistas denunciar os planos do governo, pois “a omissão é a forma mais covarde de cumplicidade”. Ao falar sobre a transposição, ela classificou a obra como uma “fraude política” que só vai “viabilizar os interesses dos grandes produtores rurais”.

Já Edson Carneiro, da Intersindical, lembrou que o que “ele [Lula] faz é levar a cabo uma política econômica para aprofundar o que Fernando Henrique fez”. Ele se solidarizou com as comunidades ribeirinhas e disse que Lula tem um “profundo desprezo pelo meio ambiente” ao levar adiante a transposição.

Zé Maria de Almeida, da Conlutas, iniciou sua fala saudando as diversas lutas que estavam representadas no plenário e chamando uma salva de palmas para cada uma delas. Ele fez uma saudação especial a dom Cappio. “As lutas fazem parte de um mesmo processo, e as conseqüências, cada trabalhador e trabalhadora, todo o povo pobre, sente nas costas todos os dias”, disse.

Em sua fala, ficou marcada a preocupação em unir as mobilizações para derrotar o governo e “construir uma alternativa de luta da classe trabalhadora brasileira capaz de fazer uma grande luta nacional, capaz de mudar esse país”. Porém Zé Maria não resumiu-se às lutas pontuais. Ele opinou que é necessário “fazer avançar a unidade de ação e ter a grandeza de sentar-se numa mesa, todos nós, para construir uma alternativa estratégica da classe trabalhadora”. Essa alternativa, segundo ele, deve ser socialista para “dar um basta a essa situação que massacra os trabalhadores e impede a juventude de ter uma vida digna”.

O povo paga a água dos ricos
O ponto alto da atividade foi a fala de dom Cappio. Ele leu seu discurso, em que demonstrou porque a transposição é uma farsa, com dados e propostas alternativas. “O projeto de transposição do rio São Francisco não prioriza o abastecimento humano e animal; se esse fosse o objetivo, nós seríamos a favor”, disse.

Na opinião de dom Cappio, a transposição é um projeto retrógrado que “não representa o desenvolvimento que se quer para o Nordeste brasileiro”. Ele ilustrou muito bem isso ao falar: “Eu moro na beira do rio São Francisco e se eu caminhar 500 ou mil metros na direção da caatinga, vou encontrar cidades que não tem água”. Essas regiões citadas não serão contempladas com o projeto do governo.

“O povo paga a água consumida pelos grandes grupos econômicos: é o pobre colocando a mesa para o rico”, disse o bispo. Para encerrar o ato, ele disse que aquele era o “grande dia da verdade do povo, e o povo precisa ter conhecimento das suas verdades e das mentiras do governo. É preciso que todos nos demos as mãos”. A platéia, em sintonia com as palavras de dom Cappio, cantava: “o Velho Chico é da população / eu digo não à transposição”.

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