As máscaras e fantasias do carnaval

A vida política do país, tradicionalmente, só começa depois do carnaval. Seria importante que todos parassem para observar, neste carnaval, a criatividade popular que transparece nos blocos de rua, nas fantasias das pessoas comuns, mesmo com toda a comercialização dos desfiles das escolas de samba. O senso crítico dos brasileiros está presente, muito mais do que na “política oficial”.

O país está envolto em uma grande confusão. Todos têm ainda presentes as denúncias de corrupção da crise do ano passado, que estarão ainda mais presentes nas fantasias com cuecas transportando dinheiro. A ilusão, o sonho de mudar a vida com a posse de Lula que existia em 2002, já não existe mais.

No entanto, nas fábricas, bancos, escolas, hospitais, nos bairros operários, quando se começa a discutir as perspectivas para o país, ouve-se frases como: “Vou votar de novo no Lula, para evitar a volta da direita”. Ninguém tem muita esperança de mudar realmente o país com as próximas eleições, mas os trabalhadores temem que “se a direita voltar”, a situação vai piorar. Por isso, deve haver ainda muitas máscaras de Lula nas ruas.

Mas a vida vai piorar…
Pensando no que vai se passar depois deste e dos próximos carnavais, nós afirmamos que a vida vai piorar, e muito, ganhe Lula ou ganhe Serra as eleições.

O Brasil tem gravíssimos problemas, que transparecem em números impressionantes. É o país de maiores desigualdades sociais da América Latina, e um dos piores do mundo, só perdendo para alguns pequenos países africanos. Junto com isso, apresenta a maior taxa de juros em nível internacional. É o segundo mercado de helicópteros do planeta (para o transporte dos ricaços), e em muitas cidades do interior, a única fonte de renda dos pobres é a aposentadoria de alguns velhos. Enquanto existe a ostentação da Daslu (loja da alta burguesia), a fome ainda mata na periferia das grandes cidades. A alegria do carnaval é o contraponto de um povo que tem que viver a tristeza, a humilhação do desemprego e de ver o filho sem ter o que comer.

O Brasil vive em uma estrutura social capitalista, completamente integrada ao que existe de mais moderno no padrão neoliberal. A grande burguesia tem lucros altíssimos, e para avançar na integração ao capitalismo globalizado, vai impor salários cada vez mais arrochados para competir internacionalmente. A elevação atual do salário mínimo, fortemente influenciada pelo ano eleitoral, é uma exceção que confirma a regra.

O que espera o trabalhador brasileiro, caso ganhe Lula ou Serra, é uma perda de salários e conquistas muito maior dos que as já ocorridas até agora. Os funcionários públicos já perderam sua aposentadoria, uma conquista histórica. O próximo governo, seja Lula ou Serra, vai querer impor a reforma trabalhista, com a perda do décimo-terceiro e das férias. Ganhe um ou outro, vai seguir o plano já em execução de privatização gradual da Petrobrás, Correios, BB e CEF, com o avanço das terceirizações. Ganhe um ou outro, vai se seguir pagando as dívidas externa e interna aos banqueiros, com o dinheiro que deveria ser investido na saúde, educação e moradia da população.

Mais ainda: o próximo presidente vai inevitavelmente enfrentar a crise econômica cíclica do capitalismo que já está anunciada para um ou dois anos. As perdas vão ser grandes, muito grandes. Todo este clima atual, em que vários setores de trabalhadores puderam comprar uma coisinha a mais, em função do crescimento econômico, vai desaparecer.

A farsa das eleições
Não é possível mudar este modelo econômico capitalista neoliberal através do voto. As eleições são o caminho imposto pela burguesia, a democracia dos ricos, para canalizar a insatisfação do povo: “está ruim? Vote em outro para mudar”. Enquanto isso, controlam as eleições, financiando os partidos e candidatos que podem ganhar. Os compromissos que estes partidos e candidatos fazem com os diversos setores da grande burguesia nas campanhas eleitorais, os amarram com acordos que vão ser depois aplicados pelos governos eleitos. Os candidatos que ganham as eleições já estão de antemão comprometidos com a grande burguesia que, assim, ganha sempre as eleições. É como se no desfile das escolas de samba, a vencedora fosse aquela que pudesse pagar mais aos jurados. Ganhariam sempre as mais ricas, tivessem ou não o melhor desfile.

Essa farsa inclui também os partidos que têm origem entre os trabalhadores. Lula já foi operário no passado, assim como o PT já foi também um partido que nasceu das lutas dos trabalhadores. Mas o governo de Lula não é um governo dos trabalhadores, e sim da grande burguesia. É um governo presidido por um ex-operário, que faz o que os banqueiros e Bush mandam.

É uma ilusão completa imaginar que o voto em Lula em novembro vai impedir a volta da direita, e também evitar que a situação piore. A direita já está no governo Lula, influindo diretamente na política do dia-a-dia. Por trás da máscara de Lula, que será muito usada nestes dias de folia, está a cara de Olavo Setúbal (dono do Itaú) , a cara de Bush…

O novo é a criatividade que vem das ruas
E vai piorar tudo no próximo governo, ganhe Lula ou Serra. Para mudar o país realmente , só uma revolução, com grandes mobilizações sociais com um programa socialista e revolucionário. Para avançar neste sentido, passo a passo, é necessário apoiar as lutas diretas que surgirem, e construir uma nova direção para os trabalhadores. O Conat, Congresso Nacional de Trabalhadores, convocado pela Conlutas para o início de maio é um passo importantíssimo neste sentido.

Nas eleições de outubro, o pior que pode acontecer é que os trabalhadores fiquem polarizados ao redor de duas alternativas burguesas, o bloco governista e a oposição do PSDB-PFL. É preciso construir uma terceira força, dos trabalhadores, com uma Frente de Esquerda, Classista e Socialista, que inclua o P-SOL de Heloísa Helena, o PSTU, o MST, a Consulta Popular.

A irreverência de um povo, que se manifesta criticamente no carnaval com uma criatividade exuberante, não pode se limitar aos burocráticos desfiles oficiais. O novo não vai surgir das duas alternativas “oficiais”, é preciso criá-lo com a energia das ruas, dos trabalhadores e jovens sem máscaras.

Post author Editorial do jornal Opinião Socialista 249
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