As manobras dos governistas no Plebiscito Popular

Entre os dias 1º e 7 de setembro, milhares de ativistas arregaçaram as mangas e recolheram milhões de votos para o Plebiscito Popular em todo o país. Na maioria das regiões, os ativistas da Conlutas, Pastorais Sociais, Grito dos Excluídos, MST, Intersindical, MAB e demais setores que participam da Assembléia Popular, utilizaram a cédula que continha as quatro questões; sobre a reestatização da Vale, o pagamento das dívidas interna e externa, a tarifa de energia elétrica e a reforma da Previdência.

Não foi assim, entretanto, com as governistas CUT e UNE. Desde o início da campanha, as duas entidades realizaram todo tipo de manobra para impedir as outras questões, mantendo somente a pergunta da Vale no Plebiscito.

A direção da central afirmou que não participaria do plebiscito se este contivesse mais questões além da pergunta sobre a Vale. Para a CUT, a questão sobre a reforma da Previdência e os demais problemas levantados pelo plebiscito não passavam de “questões específicas”. A CUT defendeu uma só pergunta porque a privatização da Vale se deu no governo FHC, enquanto as outras três questões estão sendo encaminhadas por este governo, especialmente a reforma da Previdência. Assim, a central tentou manobrar com uma estratégia deliberada de barrar qualquer crítica ao governo Lula ou alguma iniciativa que fortalecesse a luta contra a reforma previdenciária do governo no próximo período. Para isso, contaram com o apoio da UNE, que defendeu a mesma posição, mostrando a real política do PCdoB.

A manobra ficou ainda mais explícita quando, na maioria das regiões do país, a CUT dividiu o plebiscito ou sequer organizou a coleta de votos. A atitude divisionista da CUT pode ter influenciado no resultado final do plebiscito. Seria possível alcançar uma votação superior à conquistada. Mas a CUT e UNE atuaram para impedir isso. Na prática, agiram como os pelegos que só vão a uma greve para impedir que ela se choque com os patrões.

Uma resolução que não vale
Outra manobra que surgiu na reta final da preparação do plebiscito foi protagonizada pelo Partido dos Trabalhadores. Durante a realização do seu 3º Congresso Nacional, foi aprovado um texto de apoio à realização de um plebiscito que questiona a privatização da Vale do Rio Doce. Evidentemente, o PT não aprovou e nem aprovaria alguma resolução apoiando a luta contra a reforma da Previdência, pois isso é defendido com unhas e dentes pelo seu governo. No entanto, o dirigente petista da “esquerda” do partido, Valter Pomar, disse que a resolução aprovada só vale para o PT, não vale para o governo: “Ao votar a resolução da Vale, o PT não está se pronunciando sobre qual será a postura do governo”, disse.

Dias depois, vários ministros petistas do governo se pronunciaram contra a reestatização da Vale. Até o ex-todo-poderoso, mas ainda influente, José Dirceu saiu dizendo que era contra a medida. “Sou contra a reestatização da Vale. É uma empresa de sucesso, para que reestatizar?”, disse. (Valor Econômico, 3/9/2007)

O próprio Lula fez questão de enfatizar que a reestatização da Vale está fora de questão. “Agora, eu posso dizer que esse tema não passa pelo governo, não se discute no governo, porque tem um ato jurídico que foi consagrado e que o governo vai respeitar. Isso não está na minha mesa e nem entrará na minha mesa essa discussão sobre a questão da Vale do Rio Doce”, disse o presidente, em entrevista a emissoras de rádio.

Mais ainda: Lula disse que a resolução do PT foi para “fazer média” com os movimentos sociais, ou seja, um meio de recuperar um espaço perdido pelo desgaste do partido por manter o mesmo plano neoliberal no país e praticar a mesma corrupção dos governos de direita. Já o presidente do partido, Ricardo Berzoini, corroborou a opinião de Lula. “É uma ação dos movimentos sociais que o PT está apoiando, o que não quer dizer que um eventual resultado do plebiscito vincule a ação política do partido”, disse sem corar.
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