As derrotas também podem ensinar

Muitos trabalhadores e estudantes já viveram a experiência de entrar numa luta e ser traído pela direção do sindicato ou entidade. Isso acaba de ocorrer na França.

Era uma luta difícil por enfrentar um governo de direita como Sarkozy, ainda em seu início e gozando de alta popularidade. Mas as direções de maior peso, ligadas ao Partido Socialista e ao Partido Comunista, fizeram de tudo para conduzir a mobilização à derrota. O PS declarou que não estava contra a reforma, mas contra a forma como o governo negociava. O PC, em nenhum momento, chamou a unidade dos setores em luta.

As derrotas têm conseqüências negativas como enfraquecer temporariamente a disposição de luta. Mas podem também levar a uma reflexão sobre a importância de mudar essas direções traidoras. Construindo novas direções se possibilitará que, numa futura luta, existam melhores condições de alcançar uma vitória.

Essas conclusões são importantes para os ativistas do movimento sindical, estudantil e popular no Brasil. A semelhança entre a situação francesa e a brasileira é muito maior do que se pensa. Aparentemente, as coisas são muito diferentes, por Lula ser “de esquerda” e Sarkozy “de direita”. Mas, ambos são governos burgueses que aplicam planos neoliberais a serviço das grandes empresas. É isso o que leva Sarkozy a impor as reformas na França, e Lula a se preparar para um novo ciclo de reformas no Brasil.

Ambos têm o mesmo caráter de classe burguês. Mas têm uma forma muito diferente, por Lula vir do movimento sindical e por isso ter ainda a confiança da maioria dos trabalhadores. Essa é a “vantagem” para a burguesia de governos como os de Lula, no qual os trabalhadores confiam: são aplicados planos da grande burguesia às vezes com maior facilidade do que pelos governos de direita. Por exemplo, Lula conseguiu impor a reforma da Previdência de 2003, algo que FHC não conseguiu.

As principais direções do movimento sindical, popular e estudantil vão, também no Brasil, trair as mobilizações contra a reforma. Ainda mais sendo a CUT e a UNE parte do governo. A UNE, neste momento, está apoiando em todo o país a imposição do Reuni, a reforma universitária privatizante de Lula. A CUT, junto com a Força Sindical, patrocina o projeto de “reconhecimento das centrais”, que inaugura a reforma sindical, por atrelar os sindicatos ao Estado, como nos tempos da ditadura militar. Nem a CUT nem a UNE, nem o PT nem o PCdoB vão se jogar na mobilização de massas que existirá contra a reforma da Previdência do governo Lula.

Felizmente, existem, no Brasil, alternativas de direção do movimento de massas, contrárias às reformas e independentes do governo, como a Conlutas. O ato do dia 24 de outubro em Brasília, promovido pela Conlutas e outras entidades, foi a maior mobilização em 2007 contra as reformas do governo.

Sindicatos de peso estão organizados na Conlutas, junto com oposições sindicais representativas que disputarão eleições em breve entre metalúrgicos, bancários, professores e petroleiros, etc. A UNE governista está sendo varrida em eleições de DCEs das universidades federais: chapas encabeçadas pelo Conlute ganharam na UFRJ, UFMG, UFPR, UFSC, UNB, UFAL, e estão disputando outras, como na USP.

Os ativistas devem refletir sobre o que se passou na França e discutir duas questões com as bases. A primeira é a explicação do plano de reformas do governo, que é ainda desconhecido dos trabalhadores. A segunda é a construção da Conlutas e da Conlute, as organizações que podem unificar as mobilizações contra as reformas.

Post author Editorial do Opinião Socialista nº 323
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