‘A Amazônia e os povos da floresta estão ameaçados ‘

Dercy Teles: 'Nossa luta é internacional'
Diego Cruz

Portal do PSTU conversou com Dercy Teles, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri, no AcreSe o I Congresso da CSP-Conlutas foi o local onde as lutas se encontraram, também foi onde os lutadores se reuniram. Inclusive lutadores e lutadoras que fizeram história. É o caso de Dercy Teles de Carvalho Cunha, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri (AC). Filha de seringueiros, Dercy começou sua militância ainda muito jovem no Acre e foi a primeira mulher a presidir um sindicato de trabalhadores rurais no país. Antecedeu Chico Mendes no cargo da entidade. A sindicalista conversou com o Portal do PSTU durante o 1º de maio da CSP-Conlutas em São Paulo.

Portal do PSTU – Explique como a senhora se envolveu no movimento sindical
Dercy TelesÉ uma pergunta que muita gente me faz, porque na época não era comum as mulheres militarem no movimento sindical. O movimento sindical rural era um mundo extremamente masculino. Mas o nosso envolvimento foi a partir da falência do extrativismo e a entrada da pecuária na região. Os grandes grupos agropecuários que foram do sul e centro-sul se instalar na região. E aí a nossa luta era para conquistar a posse da terra. Manter a posse da terra e consequentemente a nossa sobrevivência.

Quais os desafios a senhora enfrentou ao assumir o sindicato?
Foi naquele momento um episódio considerado extraordinário. Eu, além de mulher, era jovem e solteira. Existia um machismo muito grande, inclusive por parte das próprias mulheres. Não conseguiam compreender e nem achar normal uma mulher presidir um sindicato. Por isso que já falei que o mundo do movimento sindical era um departamento que pertencia aos homens. Eu não tive muita dificuldade para lidar com isso, porque acho que a dificuldade acontece quando você não procura se nivelar no mesmo nível de compreensão das pautas de debates que os homens têm. Se a gente conseguir se instrumentalizar de conhecimento e informação, essa diferença é superada.

Como a senhora vê a atuação das mulheres no movimento sindical de lá pra cá, e do próprio movimento sindical?
A atuação da mulher se multiplicou, agora os sindicatos em geral regrediram muito. Entraram num processo de cooptação muito grande, tanto em relação aos sindicatos rurais quanto urbanos. E isso é causado por um processo de alienação e cooptação que o Partido dos Trabalhadores impôs ao longo desse últimos governos. Os sindicatos se degeneraram enquanto instrumento de politização e defesa dos trabalhadores. E isso é muito difícil porque hoje você tem que reconstruir. E reconstruir é muito difícil porque você vai ter que reconscientizar as pessoas. Os erros servem para se atuar no futuro.

Como está a violência contra os seringueiros naquela região?
Hoje essa violência perdura, mas de uma forma sutilizada. Com essa mercantilização dos bens comuns, a Amazônia está ameaçada e os povos tradicionais, da floresta, também estão ameaçados de extinção. Porque a política que está sendo imposta à Amazônia é de apenas de exploração do bem comum, principalmente a madeira.

Qual sua avaliação do congresso da CSP-Conlutas?
Achei muito bom. Reanima a continuar a luta, porque você vê que a nossa luta não é isolada, não é só nacional, mas também internacional.

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