Ahmed Shawki fala ao Portal do PSTU sobre as lutas nos EUA

Durante o Congresso da Conlutas, em julho, o Portal do PSTU aproveitou a presença do ativista árabe-americano Ahmed Shawki e o entrevistou para saber um pouco mais da situação das lutas e da economia nos Estados Unidos. Editor da International Socialist RPortal do PSTU – Quais são as suas expectativas quanto ao congresso da Conlutas e ao Elac?
Ahmed Shawki
– É um encontro associado à Conlutas. Trata-se de um sucesso, mesmo que ainda não saibamos os detalhes de quantas pessoas, de que categorias, de que partes do país. Já é talvez o único lugar do mundo em que uma central sindical de oposição e movimentos de lutas sociais estão se reunindo contra as estruturas oficiais com tamanho alcance. Os grupos que convocaram juntos o Elac estão, também, tentando fazer um encontro político, um encontro internacional para agrupar pessoas com opiniões semelhantes. Isso por si só já é muito importante. A segunda questão: eu vivo nos EUA, que é o país líder do mundo – menos poderoso, mas ainda o poder imperialista dominante. Por isso, a solidariedade entre grupos da América Latina e na América do Norte é absolutamente central e é parte da nossa ligação internacional que pretendemos aprofundar com camaradas no Haiti, na Venezuela, no Brasil e no resto da América Latina.

Fale um pouco sobre as lutas nos EUA. Recentemente houve importantes lutas dos portuários.
Ahmed
– Existe luta todos os dias nos EUA. A mais básica luta, aquela para sobreviver, o que não é brincadeira em nenhum sentido. Existe hoje nos EUA pessoas na linha de pobreza que precisam de comida, num país em que ninguém jamais imaginaria tal situação trinta ou quarenta anos atrás. Devo dizer que o preço de produtos simples aqui no Brasil também mostra o problema brasileiro, porque ele está quase no mesmo preço dos EUA. Sobre a luta dos trabalhadores, você mencionou as lutas dos portuários. Os portuários da Costa Oeste dos EUA tiveram uma batalha recente em que eles declararam greve no 1º de Maio. Muitos americanos e muitos fora dos EUA não sabem que a primeira celebração dessa data foi nos EUA, como resultado e em honra da luta pelas oito horas de trabalho em 1886. Ainda estamos esperando pela jornada de oito horas, e acho que no Brasil também. Esta é a razão pela qual celebraram o 1º de Maio, mas devo dizer que eles se inspiraram não apenas porque eles eram militantes portuários de esquerda, mas também porque o movimento de imigrantes, os chamados imigrantes ilegais, dois anos atrás fez do 1º de Maio o dia de uma greve geral. Isso é muito importante para trazer de volta a memória dessa data aos EUA. Ainda é uma minoria os trabalhadores que vêem o 1º de Maio como um feriado da classe trabalhadora, mas houve um desenvolvimento extremamente significante.

Qual é sua opinião sobre o que ainda resta do governo Bush?
Ahmed
– Primeiro ponto: o governo de Bush será visto na história como um dos maiores desastres. Desse ponto de vista, no 11 de setembro de 2001 os EUA estavam aptos para ganhar a simpatia do mundo por causa dos ataques. Hoje essa simpatia já não existe na maioria do mundo. Isso quer dizer que, após ver a América como vítima de um ataque, a maioria das pessoas do mundo vê os EUA como um agressor. Segundo ponto: todo o capital político ganho pelos EUA foi dissipado por Bush. A guerra no Iraque, que foi baseada em mentiras, hoje todos concordam que tenha sido assim. Hoje todo um setor da classe dominante americana está convencido de que Bush deve sair. O que quer dizer que precisamos de um novo começo. O imperialismo americano está tentando se reabilitar e se rearmar. Tenho que fazer um parêntese para dizer que isso não falhou em todas as frentes. O mundo foi militarizado de uma forma que não conhecíamos em 2001. Há legislação escrita que permite que você seja preso, levado para qualquer lugar, não só para os EUA ou Guantánamo, mas também Europa – uma legislação antiterrorismo e antiimigração que existe de forma muito mais acentuada. Aqui na América Latina o imperialismo militarizou muito mais do que antes. Então, embora estejam num pântano no Iraque, eles alcançam certos ganhos. Esta é a razão, segundo meu ponto de vista, pela qual há um apoio tanto da classe dominante quanto da maioria da classe trabalhadora a Obama. A classe dominante por um novo começo – Obama pode completar o ataque do imperialismo americano que Bush já não tem credibilidade para fazê-lo. E se você pensar que Obama trará mudanças, ele o fará, mas não necessariamente as mudanças que queremos. Ontem o The New York Times publicou um editorial chamado “O novo, mas não melhor Obama”, criticando-o por ir de uma linguagem mais populista para o centro e a direita. O título do editorial do The Wall Street Journal foi “O terceiro mandato de Bush”, referindo-se à presidência de Obama. Então há um movimento, e isso é muito importante entender. O povo negro e todas as raças deveriam estar felizes que um homem negro pode quebrar a barreira. Mas não nos enganemos – mulher ou homem, ambos estão comprometidos em manter o capitalismo americano e o programa do imperialismo. A sociedade americana se engajou, e isso é bom, em que um homem negro ou uma mulher pudesse ser eleito. E outra coisa para confundir é quem são este homem e esta mulher e a quais interesses eles servem. No caso de Obama, garanto que ele está herdando uma situação na qual ele está se colocando à frente como a pessoa para reabilitar o imperialismo e o capitalismo americanos. E ele irá fazer isso pelas costas dos trabalhadores americanos. Temos que deixar claro que o voto em Obama representa o desejo por mudança, mas não o mesmo tipo de mudança que os trabalhadores e este mundo precisam.

Qual é o tamanho das expectativas em Obama?
Ahmed
– Absolutamente imensas. No Brasil houve muitas expectativas no governo de Lula. Como a situação se desenvolve, nunca é idêntico na história. Antes de tudo, o movimento por Lula foi parte de um grande movimento no PT, nos sindicatos e movimentos sociais. Conosco não existe tal movimento por trás de Obama. Há uma imensa esperança popular, mas não um movimento. Acredito que estamos no começo de uma nova radicalização política, econômica e social nos EUA, como não vimos em 30 anos. Acredito que os EUA estão se movendo para a esquerda, como outras partes do mundo. É claro que esses são desenvolvimentos flutuantes, mas eu honestamente acredito que veremos o crescimento das aspirações nos EUA e muitas dessas esperanças serão derrotadas rapidamente.

Como Obama não irá satisfazer o desejo de mudança, você acredita que haverá desilusão?
Ahmed
– Sim, mas no Brasil isso tem levado tempo com Lula. Obama e Lula não são o mesmo, mas a função é igual, fazer com que as pessoas se iludam e depois não acreditem em mais nada. Se continuarem com Bush, haverá uma explosão. Você pode ver os sinais nas pesquisas, em todo lugar. Aqui vocês já tinham espaços organizados, o que permitiu criar uma oposição. Nos EUA, o movimento é mais fraco. O descontentamento é tão grande quanto, mas de certa forma faz parte da história dos EUA: longos períodos de refluxo, 20, 30 anos, e então enormes surtos de lutas. Nos anos 50, do macarthismo, 20 anos de refluxo, e então de 1955 até 1965 as grandes lutas dos negros, e de 1965 até 1975 o surgimento dos movimentos de estudantes e trabalhadores e da esquerda revolucionária. Não acho que estejamos nesse estágio. Acho que estamos na fase inicial do que será uma longa e difícil luta, porque algumas pessoas ficarão desiludidas, outras se juntarão à luta, outras irão se vender, outras serão derrotadas. Mas estamos nos estágios iniciais de uma acumulação de forças para um novo período de lutas. Disso estou convencido e as evidências são fortes.

Obama diz que vai acabar com a guerra…
Ahmed
– Ele disse por um bom tempo que não tinha votado pela guerra. É verdade, ele promoveu algumas questões. No entanto, as objeções à guerra se resumiam a que ela custaria muito dinheiro ao imperialismo americano, por isso deveria ser feita no Afeganistão e não no Iraque. Ele disse estar a favor de uma guerra mais eficiente e efetiva, e a maneira de Bush lutar contra o terrorismo é o caminho errado. Então ele disse que traria soldados de volta – não foi bem claro quando. O que está claro é que ele está comprometido com a continuidade da presença militar dos EUA no Iraque. E acredito que ele colocará mais ênfase no Afeganistão. Em geral, a guerra ao terrorismo, se lembrarmos que Bill Clinton bombardeou o Sudão por fábricas químicas… Acho que veremos mais ações como essa. E também que acredito que o problema identificado por Obama e por toda a classe dominante na guerra é que o exército está limitado ao Iraque. Eles precisam de homens e dinheiro para a América Latina. Não se pode ser a polícia do mundo e ficar parado num lugar, sem nem mesmo sair das bases. No entanto, Obama apareceu com algo novo há dois dias. John MacCain disse que Obama nunca esteve no Iraque. Então Obama teve a oportunidade de dizer que iria anunciar sua política para o Iraque depois de visitar o país e conversar com o general Petraeus (chefe das tropas). Este é o candidato da paz… O candidato que fala com generais para saber como chegar à paz…

Fale um pouco sobre as lutas dos latino-americanos nos EUA e sua relação com as eleições presidenciais.
Ahmed
– É uma questão complicada, porque na luta há imigrantes da América Central, da América do Sul, de Porto Rico, do México… Em outras palavras, houve um grande movimento de imigrantes, que foi em grande parte dominado por mexicanos ilegais. Essa luta não irá desaparecer. É a batalha da próxima década. Não apenas porque onde há opressão, há luta. Hoje 5% da força de trabalho nos EUA é ilegal. Este não é um fenômeno que desaparecerá da noite para o dia. Se 5% da força de trabalho é ilegal, isso está se construindo na estrutura do capitalismo. O principal fato político nos EUA hoje é que o país enfrenta de 12 a 18 meses de séria recessão, sem saída interna. Isso guiará todas as questões políticas, particularmente a da imigração. Se você olhar para a Europa, com os ataques aos imigrantes, haverá um apelo semelhante ao sentimento nacional antiimigrantes pela direita. Isso colocará na ordem do dia a questão da defesa dos imigrantes de uma nova maneira, porque o movimento há dois anos era por direitos para os imigrantes contra um ataque legal, em uma atmosfera em que a maioria das pessoas era pró-imigrante. É totalmente possível que no próximo ano haja ataques à luta dos imigrantes e, se a situação econômica e de desemprego piorar muito, coloquem a opinião pública contra os imigrantes. A luta dos imigrantes nos EUA é a mais importante na última década. Absolutamente enorme, não dá para ter idéia. Os imigrantes trouxeram com eles as tradições políticas de seus países. Muitos estão em sindicatos, outros estão fora, mas são pró-organização, o que significa que introduziram um elemento de luta na vida americana que não era visto há muito tempo no movimento da classe trabalhadora.

Como está a questão dos preços dos alimentos nos EUA?
Ahmed
– É muito simples. Quando a guerra começou, o petróleo custava US$ 40 o barril. Hoje está em US$ 140. Nos EUA, 10% da gasolina é composto por etanol. Agora, por causa dos preços do petróleo, 30% da gasolina é etanol. Então você sai de US$ 2 o bushel (medida equivalente a aproximadamente 27 kg) de milho. Agora todo mundo está vendendo o milho para a gasolina (nos EUA o etanol não é feito da cana-de-açúcar), por isso o preço triplicou. A soja também subiu. Então a guerra está completamente ligada à inflação dos alimentos. A inflação nos EUA se tornou endêmica. O problema é que isso não aparece porque é feita uma média a partir dos preços dos alimentos, que subiram, e de produtos duráveis (carros, computadores, etc.), que caíram. Quantos trabalhadores compram um carro todo mês? O preço do leite dobrou, o pão subiu em um terço. É fenomenal num país em que os salários não subiram em 30 anos. Na média, os salários são os mesmos ou menores hoje. Em 1997 havia 27 anos de perda de 1% dos salários por ano. Desde então, houve algum crescimento, por isso eu disse que são os mesmos ou menores do que eram. Nós vemos as primeiras aglomerações e confusões por comida. Na cidade de Milwaukee, a uma hora de Chicago, onde eu vivo, o governo local anunciou a distribuição de cupons para comida. Quatro mil pessoas apareceram às oito da manhã. Às nove horas, eles descobriram que estavam pegando os cupons para preencher um papel e esperar uma semana. Então houve uma corrida até a porta atrás de comida. Isso mostra o quanto as pessoas estão famintas. Todos os dias da semana, 4 mil pessoas apareceram. Mais de um terço das crianças americanas crescem em lares que vivem abaixo da linha da pobreza. Esta é a realidade dos EUA, que poucas pessoas fora do país conhecem porque não é boa publicidade para o capitalismo americano dizer “adote nossos métodos econômicos, mate de fome sua população”.