Afeganistão é o Vietnã de Obama?

Correio Internacional – uma publicação LIT-QIO novo governo de Barack Obama, eleito com um discurso “democrático e popular”, fez da guerra do Afeganistão o seu cavalo de batalha. Desde a campanha eleitoral, Obama vem defendendo que nesse país se trava “a principal batalha contra o terrorismo”, e que, diferente do Iraque, as tropas americanas podem sair de lá vitoriosas.

Após assumir, o presidente intensificou o esforço de guerra, mandando 30 mil soldados a mais ao país. Hoje, existem 68 mil soldados norte-americanos e outros 32 mil de diferentes países da Otan (totalizando 100 mil). No entanto, cada vez mais, os Estados Unidos parecem ter se metido em um atoleiro: quanto mais afundam, mais problemas têm para sair.

UMA GERRUA JUSTA?
Obama utiliza os mesmos argumentos de Bush para manter a guerra: ela seria uma “guerra justa” contra o “terrorismo”. O novo presidente prometeu “destruir, desmantelar e derrotar a Al Qaeda e seus aliados extremistas”, incluindo os talibãs. Outro argumento para justificar a ocupação militar, também utilizado por Bush, seria a necessidade de impedir um novo regime reacionário e repressivo do Talibã. Destaca-se a repressão contra as mulheres, a obrigação do uso da “burka”, a proibição de que estudem etc.

No entanto, oito anos após a invasão do país, os fatos mostram que esses argumentos não são mais do que pretextos. A situação mudou sim, mas para pior. A ocupação produziu bombardeios constantes que atingem indiscriminadamente a população e já mataram dezenas de milhares de civis. O regime político, agora supostamente “democrático”, está baseado na corrupção, na fraude eleitoral, na violência e, sobretudo, nas tropas de ocupação. A situação de atraso do país, que gera a violência contra a mulher, não mudou. Hoje, se mantém inclusive o uso da “burka”.

Eliminados esses pretextos, fica claro que o verdadeiro motivo para a ocupação militar foi a necessidade dos EUA de controlar um país estratégico para toda a região porque se encontra entre o Irã, as repúblicas da Ásia Central (que faziam parte da ex-URSS) e o Paquistão. Essa guerra também teve a ver com o petróleo, já que um de seus objetivos era permitir a construção de um oleoduto que levaria a produção dos países da Ásia Central, através do Afeganistão, diretamente aos portos paquistaneses, sem depender do transporte pela Rússia. É cada vez mais difícil para o imperialismo defender que é “uma guerra justa”. Mas o pior para ele é sua situação no terreno militar e político.

UMA SITUAÇÃO QUE PIORA
Os números falam por si mesmos. As tropas dos EUA ocupam o Afeganistão há oito anos, um período quase 50% mais longo do que a participação do país nas duas Guerras Mundiais. No entanto, após todo esse tempo, o Talibã (deposto no momento da invasão, em 2001) mantém uma atividade guerrilheira permanente em quase todo o país.

Segundo o centro de estudos britânico International Council on Security and Development (O Estado de São Paulo, 11/09/2009), o Talibã atua em 97% do território.

Em 80%, a presença de insurgentes seria permanente. Essa porcentagem vem crescendo rapidamente: de acordo com o mesmo estudo, em novembro de 2007, era de 54% e em 2008, de 72%. Um mapa realizado pelo instituto mostra que quase a metade do país está sob o controle do Talibã ou sob risco de seus ataques. Nos últimos meses, os insurgentes aumentaram seus ataques no norte do país, uma região até então considerada “pacífica”. As baixas norte-americanas e dos países da Otan vêm crescendo constantemente e, neste ano, atingiram seu número mais alto. As tropas de ocupação controlam só a região da capital, Kabul, mas não conseguem evitar ataques como o atentado com bomba em frente ao quartel geral da Otan que matou sete pessoas.

No entanto, a situação militar de uma guerra não pode ser explicada senão pela situação política da qual a guerra é “a continuação por outros meios”. É neste terreno que os problemas do imperialismo são mais graves. Uma comparação com a guerra do Iraque, onde as tropas dos EUA já se retiraram das cidades e programaram sua saída definitiva para 2011, mostra que o panorama no Afeganistão é tremendamente difícil para o imperialismo norte-americano.

No Iraque, os EUA entregaram o controle do aparelho estatal à burguesia xiita, setor que é maioria no país, aliado aos curdos, que controlam a região norte. Esses setores aceitaram formar um governo fantoche manipulado pelos EUA, que assumiu a reconstrução do exército e da polícia para que pudessem reprimir a resistência. Mas, neste caso, o governo fantoche baseou-se no antigo aparelho estatal, relativamente moderno e construído com o dinheiro do petróleo.

No Afeganistão, o aparelho estatal e a própria infraestrutura são quase inexistentes devido ao atraso do país, as dificuldades geográficas e os quase trinta anos de guerras permanentes, desde a invasão da ex-União Soviética. Inclusive o próprio exército afegão, a mais importante instituição de qualquer Estado, não passa de um “rejunte” dos exércitos dos “senhores da guerra” que controlam as principais etnias do país.

No Iraque, os EUA puderam usar uma parte dos imensos recursos petrolíferos do país para comprar os “serviços” da burguesia xiita e curda. Chegaram inclusive a pagar 60 milhões de dólares mensais para que as milícias da insurgência sunita pudessem funcionar, mas abandonando os ataques às tropas imperialistas.

No Afeganistão, não existe petróleo. O ópio, vindo das plantações de papoula, é o principal produto de exportação, com um valor estimado de 5 bilhões de dólares anuais. O país produz 93% da matéria prima para a fabricação da heroína mundial.

Ainda que o imperialismo utilize frequentemente as drogas como uma arma política, neste caso existe um grande risco. Ao contrário das fontes produtoras de petróleo, não se pode controlar as plantações de papola, sobretudo nas regiões mais conflitivas. Por isso, o dinheiro da droga é uma das principais fontes de financiamento do Talibã. A província de Helmand, com forte presença deles, produz 70% do ópio afegão.

Ademais, o narcotráfico se infiltra diretamente no aparelho de estado fantoche. Um dos principais traficantes do país é Walid Karzai, irmão do atual presidente, Hamid Karzai. Neste aspecto, a situação no Afeganistão se parece cada vez mais com o Vietnã na década de 1960: os principais traficantes do país, Nguyen Thieu e Can Ky, chegaram a ser presidente e vice-presidente, respectivamente, do governo fantoche do Vietnã do Sul.

GOVERNO FANTOCHE E FRÁGIL
Em resumo, o governo de Karzai não tem um aparelho estatal digno desse nome; principalmente, um verdadeiro exército nacional. A polícia afunda-se na incompetência e a corrupção e o tráfico de ópio e heroína atingem os principais degraus do governo. Ou seja, é um governo extremamente frágil e incapaz de controlar o país e, inclusive, de sobreviver sem o apoio permanente das tropas dos EUA.
Essa conclusão se fez evidente nas últimas eleições presidenciais de 21 de agosto. O processo eleitoral custou 300 milhões de dólares e muito esforço para seus organizadores, mas o resultado foi uma crise. Calcula-se que só votaram entre 40% e 50% dos 15.600.000 eleitores habilitados. O resultado é muito inferior à eleição anterior (2004), quando a participação, segundo os organizadores, chegou a 70%.

A abstenção eleitoral mostrou a fragilidade do governo afegão e das “instituições” criadas pelo imperialismo. Basta apenas um exemplo para comprovar isso: na cidade e província de Kandahar, no sul do país, santuário do Talibã, a abstenção pode ter chegado a incríveis 95%, segundo observadores internacionais independentes.
O processo de votação esteve marcado pelas denúncias de fraude que favoreceram o presidente Karzai, que tentou ganhar no primeiro turno e evitar o prolongamento da campanha eleitoral no segundo turno. A conclusão é clara: as eleições serviram muito pouco ao objetivo imperialista de criar a imagem de um “regime democrático” e de uma situação mais estável, apesar da guerra.

Além das eleições, a existência do próprio regime se baseia em uma farsa. Um processo eleitoral que se realiza em um país ocupado militarmente por potências imperialistas não pode ser democrático. Os 100 mil soldados dos EUA e da Otan são o verdadeiro poder no Afeganistão. O governo de Hamid Karzai não passa de uma marionete nas mãos dos generais norte-americanos, que dirigem de fato o país. Basta ver que a “segurança” das cidades e dos lugares de votação foi garantida pelos soldados ocupantes. E todas as despesas de organização das eleições foram pagas pelos organismos que estão por trás das tropas de ocupação. Como se isso não bastasse, foi decretada uma censura de imprensa nos dias anteriores à eleição, impedindo que jornais, rádios e redes de TV divulgassem notícias de atentados do Talibã para não “alarmar a população”.

EUA ESTÃO NUM ATOLEIRO
O imperialismo encontra-se em um verdadeiro dilema: se permanece no país, arrisca-se a perder cada vez mais homens e enormes quantidades de dinheiro, sem nenhuma perspectiva de estabilizar o país. Se sair, o mais provável é que o Talibã derrote o governo de Karzai em poucas semanas e volte ao poder, o que seria inaceitável para qualquer governo norte-americano.

Os problemas do imperialismo não acabam por aí: o palco da região pode piorar. A guerra do Afeganistão estendeu-se ao Paquistão, um país de 172 milhões de habitantes, cujo estado possui armas nucleares e onde uma possível desestabilização poderia comprometer toda a região.

A “contaminação” do Paquistão com a guerra produziu-se por motivos geográficos, sociais e políticos. Os dois países compartilham 2.400 quilômetros de fronteiras que, na realidade, são produto de uma divisão artificial promovida pelo imperialismo britânico. Foi falsa porque o povo pashtun, a maior etnia do Afeganistão (40% da população do país), é a mesma que está presente no Paquistão, do outro lado da fronteira, em várias províncias e territórios. Ademais, no Paquistão, existem mais de 2 milhões de refugiados afegãos, que se concentram, sobretudo, ao redor da cidade de Peshawar.
Os insurgentes do Talibã atravessam a fronteira, porosa e muito pouca vigiada, e se refugiam no país vizinho. Tinham chegado a dominar uma região, o Vale do Swat, onde implantaram a lei muçulmana da sharía, com acordo do governo paquistanês. Recentemente, esse governo rompeu o acordo e atacou o Talibã, expulsando-os do Vale. No entanto, a ofensiva do exército paquistanês gerou mais de um milhão de refugiados paquistaneses em seu próprio país.

A guerra do Afeganistão pode chegar a desestabilizar toda a região porque o país tem uma posição estratégica: localizado entre o Oriente Médio, região possuidora das maiores reservas petrolíferas do mundo, a Ásia Central (que também tem importantes reservas) e o subcontinente índico. Ademais, as etnias que existem no país são as mesmas dos países com os quais tem fronteira: pashtuns, 42%, com Paquistão; hazaras, 9%, com Irã; tadjiques, 27%, com Tadjiquistão; uzbekos, 9%, com Uzbequistão; turcomanos, 3%, com Turmequistão (outros 10% da população são formados por grupos étnicos menores).

Consciente desse perigo, o governo Obama está tentando sair do “atoleiro” com uma política dupla. Em primeiro lugar, busca fortalecer sua posição militar: enviou 30 mil soldados a mais; 4.000 deles à província de Helmand, para combater a presença dos insurgentes na região, uma das mais conflitivas do Afeganistão. Mas seu verdadeiro objetivo é conseguir uma saída negociada com o Talibã para a guerra. Neste sentido, a ofensiva militar se subordina ao segundo aspecto da política. Isto é, o reforço militar busca obter uma posição mais vantajosa na negociação.
Obama sabe que o rumo dessa guerra não pode ser mudado com o envio de mais tropas, salvo em uma escala que não seria aceitável à opinião pública norte-americana. Um ex-agente da CIA afirma que seriam necessários um milhão de soldados para derrotar o Talibã e estabilizar o país. Até setores conservadores, como o conhecido colunista reacionário do Washington Post, George Will (autor do artigo “Devemos saber quando se deve parar”), começam a se declarar contra a continuidade da intervenção dos EUA no Afeganistão.

Obama tem que suportar os problemas gerados não só pela política de intervenção militar de George W. Bush, mas por outras iniciativas imperialistas. Por exemplo: o imperialismo ajudou a criar o próprio Talibã, através do ISI, o serviço de segurança do Paquistão. Mais tarde, este movimento, que deveria ter sido um dócil instrumento, se voltou contra o imperialismo.

Uma das ironias desta guerra é que o reacionário Talibã (que reprime as mulheres, os trabalhadores e a população em geral) luta atualmente contra o imperialismo, com armas em mãos. Esta contradição não é casual: a política sistemática de recolonização dos países periféricos e o brutal ataque militar lançado pelo governo Bush acabaram fazendo com que uma força que tinha sido impulsionada pelo imperialismo terminasse o enfrentando.

Por todos estes elementos, a política de Obama não tem como estratégia conseguir uma vitória militar, algo impossível. Seu verdadeiro objetivo se traduz nas declarações de seu enviado especial para a região: “É possível negociar com o Talibã com o objetivo de conseguir algum acordo que estabilize o país”.

DERROTA DO IMPERIALISMO SIGNIFICA TRIUNFO DAS MASSAS
O destino da guerra do Afeganistão interessa a todos os trabalhadores e povos explorados do mundo. Uma derrota do imperialismo americano pode significar um golpe tremendo contra o opressor. Devemos lutar para que esta guerra termine sendo “o Vietnã de Barack Obama”. Por isso, a LIT chama todas as organizações populares e democráticas do mundo a denunciar a ocupação militar do Afeganistão e a exigir a retirada das tropas invasoras. Chamamos, em especial, os trabalhadores dos países imperialistas que mantêm tropas de ocupação no país, como Inglaterra, Alemanha e Espanha, a se mobilizar para exigir de seus governos a retirada imediata de seus soldados.

Nós não somos neutros na guerra que está ocorrendo no Afeganistão. Estamos ao lado dos oprimidos e agredidos pela invasão e a ocupação imperialista. O povo afegão luta para expulsar as tropas imperialistas de ocupação e conseguir a verdadeira independência nacional do país. Por isso, sem que isto signifique dar nenhum tipo de apoio político às posições do Talibã, a LIT declara seu apoio às ações militares da resistência.

A luta guerrilheira que enfrenta o imperialismo, ainda que esteja dirigida por uma organização burguesa reacionária, é um dos fatores fundamentais para as baixas e o desgaste das tropas ocupantes, para a crescente queda de popularidade do governo Obama e a crise da ocupação militar. Esta luta militar de resistência, junto com as mobilizações e a pressão da opinião pública, sobretudo dos países imperialistas, é que pode infringir uma derrota ao imperialismo.

Post author Liga Internacional dos Trabalhadores (LIT-QI)
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