A respeito de dois congressos

Congresso da UNE é festa do governo em defesa da política neoliberal de LulaHá 30 anos, o Centro de Convenções em Salvador era apenas um esqueleto de concreto. Ainda assim, aquela estrutura, que parecia mais estar em ruínas do que em construção, foi o palco do congresso de reconstrução da UNE.

Neste evento, os estudantes, enfrentando a ditadura militar, aprovaram a histórica Carta de Princípios da UNE, na qual afirmavam seu compromisso estratégico com a classe trabalhadora e sua independência inegável para fazer história.

A UNE dessa época não existe mais. O congresso realizado em Brasília na última semana demonstrou isso de forma categórica. A decadência política da entidade é triste e não dá para disfarçar.

Nenhuma independência
Contrastando com o esqueleto de concreto que sediou o congresso de Salvador, o 51º congresso da UNE teve sua sessão solene de abertura na Câmara dos Deputados, em Brasília.

O ato de abertura contrastou também com a ausência dos atos de rua nos últimos anos. Num momento em que o conjunto da sociedade brasileira e dos estudantes se indigna com os escandalosos atos secretos de José Sarney e companhia, a UNE silencia, vai até o Congresso e troca afagos com os coronéis e corruptos.

Depois de abraçar Fernando Collor e proclamar Sarney intocável, Lula, ao lado de Dilma Rousseff, deu o ar da graça no congresso da UNE. O ato no encontro de estudantes do Prouni se transformou em palanque da ministra para as eleições presidenciais de 2010, com direito a coro de torcida por sua eleição.

Vale lembrar que esta é a primeira vez em 70 anos de história que a UNE convida um presidente ao seu congresso. Não é para menos. Nenhum governo na história destinou tantos recursos a ela. Durante o governo petista, a entidade já recebeu mais de 10 milhões de reais. O mais escabroso, porém, é que o novo presidente da UNE, Augusto Chagas, do PCdoB, estufa o peito para dizer: “É mais do que legítimo que o governo financie o movimento estudantil”

A inegável perda de independência da entidade não é apenas evidente nos atos de abertura do evento, mas também nas resoluções de seu congresso. Este terminou sem aprovar uma única resolução capaz de organizar o movimento estudantil brasileiro para lutar.

A resolução pelo Fora Sarney não foi aprovada na plenária final. Isso porque o presidente do Senado e o PMDB são aliados de Lula, de Dilma e do PCdoB em 2010. Portanto, o movimento estudantil não deve se mobilizar contra o coronel.
Essa mesma lógica impediu a aprovação das principais tarefas do movimento estudantil, tais como derrotar a reforma universitária do governo, materializada no Reuni, no Prouni, no ensino à distância, no EnadeSinaes, etc., e fazer uma campanha contra a crise econômica, as demissões e os cortes do governo no orçamento da educação pública. Enfim, devido ao seu atrelamento ao governo, o congresso da UNE não serviu para que o movimento estudantil caminhasse um único passo à frente na luta contra o projeto neoliberal.

Nenhuma democracia
Lamentavelmente, a ausência de democracia e debate foi, mais uma vez, uma das principais características do congresso. Na realidade, a falta de democracia expressou tão somente a continuidade de uma eleição de delegados extremamente despolitizada.

Esse processo, embora todo ano seja marcado por fraudes e esvaziamento do debate, este ano se superou. Passou longe do movimento real e beirou o patético em algumas das principais universidades do país, como na USP, onde os realizadores do pleito não conseguiam chegar a um acordo entre si sobre como realizar a fraude, se acusando publicamente uns aos outros.

Embora tenha sido celebrado pela direção majoritária como o congresso mais representativo de todos os tempos, o que se viu foi uma realidade muito diferente. Não muito mais que 3 mil delegados participaram da escolha da nova diretoria da UNE e da aprovação das resoluções do congresso.

Mais uma vez, o bloco governista encabeçado pelo PCdoB se saiu vencedor nas eleições da diretoria, com mais de 70% dos votos. Novamente, como nos últimos anos, o congresso da UNE não serviu em nada para a resistência ao projeto neoliberal. Pelo contrário, serviu para que o governo pudesse legitimar sua política de ataque à juventude e à educação pública, cobrindo-a com um verniz de esquerda.

O veredicto da história
Há não mais que dois meses, outro congresso ocorreu no país. Ao contrário daquele, este evento não teve sessão solene na Câmara nem a presença do presidente Lula. Também ficaram de fora da lista de convidados os 10 milhões de reais doados pelo governo à UNE.

O Congresso Nacional de Estudantes, convocado por centenas de entidades estudantis, entre elas os DCEs da USP, da UFRJ e da UFMG, ocorreu entre os dias 11 e 14 de junho no Rio de Janeiro. Nele se encontraram mais de 1.800 estudantes para debater e organizar a luta do movimento estudantil contra os ataques neoliberais de Lula.

Ali, o que se viu foi um intenso debate democrático de ideias que terminou na aprovação de uma série de resoluções e campanhas cujo objetivo é mobilizar os estudantes para lutar contra os ataques do governo Lula. Nesse histórico congresso, se criou também a Assembleia Nacional dos Estudantes – Livre (Anel), uma nova entidade nacional dos estudantes criada para organizar a luta diante da falência da UNE.

Não é preciso muito para constatar qual delas representa a continuidade e a tradição do movimento estudantil brasileiro. Nos próximos meses, as resoluções e campanhas aprovadas pelos dois congressos irão se enfrentar nas universidades em todo o país.

De um lado, a UNE, com seu silêncio cúmplice sobre Sarney e sua lamentável defesa do projeto neoliberal de Lula, ainda mais criminosa em tempos de crise econômica. Do outro, a Anel, enfrentando a crise econômica e seus efeitos e denunciando implacavelmente os escândalos de corrupção.

Deixemos que as mobilizações, as ocupações de reitoria e as lutas de todos os dias deem a última palavra. Estamos seguros de que elas nos darão razão.

Post author Leandro Soto, da Secretaria Nacional de Juventude do PSTU
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