A Polícia Federal é diferente?

As denúncias de corrupção sacodem o país com as operações da Polícia Federal. Gravações e fotos comprometedoras denunciam parlamentares, juízes, donos de construtoras e até o irmão do presidente. Novamente, a consciência de que todas as instituições estão corrompidas se difunde.

Todas? Não, a PF está se reforçando no imaginário popular como algo diferente. Muitos trabalhadores que apóiam o governo falam: “agora sim, temos um presidente que combate a corrupção, olha aí a ação da PF”. Será isso verdade?

Não é verdade que Lula combate mais que ninguém a corrupção. É fato que os indiciados pela polícia são soltos logo depois e terminam impunes. Todos os presos pela Operação Navalha, incluindo o dono da Gautama, estão livres.

Continua funcionando a lógica de classe da justiça burguesa: são presos (e muitas vezes torturados) os que roubam um pedaço de pão, mas ficam soltos os grandes ladrões que roubam milhões. Parlamentares reagem ao “vazamento de informações” contra esses ilustres larápios, mas se calam quanto ao massacre da polícia contra a juventude negra nos bairros pobres.

Vejamos o resultado das investigações feitas até agora contra a corrupção no governo Lula: dois deputados cassados, nenhum figurão preso. A impunidade realimenta a corrupção cada vez maior.

Não é verdade que a PF é uma garantia de investigação e punição. A explicação é outra: existe uma crise importante na polícia, marcada por um atrito com o governo em função do descumprimento de acordos salariais, o que levou os policiais à greve em meio às investigações. Também há uma séria disputa interna pela substituição do atual diretor-geral, Paulo Lacerda. Grupos chegam a utilizar as próprias investigações para denunciar seus adversários dentro da polícia. A Operação Navalha, por exemplo, derrubou três delegados, acusados de integrarem uma quadrilha que fraudava a construção de obras públicas. Isso faz a PF sair do controle imediato do governo ou da oposição de direita. Razão dos freqüentes escândalos.

No interior da PF, existem policiais honrados e combativos que enfrentam os governos nas campanhas salariais. Estes devem ficar insatisfeitos com a atual situação da instituição, pois a própria PF não está imune à corrupção que assola o país. O primeiro indício está no exemplo acima. Entre os três delegados afastados por corrupção estava Zulmar Pimentel, o segundo na hierarquia da instituição. A PF, portanto, não é exceção no Estado burguês apodrecido pela corrupção.

É evidente também que a PF não revela tudo o que sabe e não investiga tudo o que pode. Nas recentes operações, foi possível constatar seu poder de investigação. Só na Operação Xeque-Mate foram 156 mil ligações gravadas. Com toda essa capacidade, por que as relações de Lula com os episódios de corrupção não foram explicadas? Por que as investigações contra figurões como Renan Calheiros de repente empacam? Por que grandes bancos e construtoras não são investigados?

A PF tem uma direção que, no final das contas, freia ou desvia as investigações. E faz isso porque é parte de um Estado que funciona sob uma lógica de classe, a serviço da burguesia e do capital. E que termina por dourar essa realidade, disfarçando a impotência do Estado burguês para acabar com a corrupção.

Post author Editorial do Opinião Socialista nº 301
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