A guitarra metralhadora de Hendrix

Em 18 de setembro de 1970, James Marshall Hendrix, mundialmente conhecido como Jimi Hendrix, deixou a vida para entrar na história da música. Em pouco mais de seis anos, até sua carreira ser bruscamente interrompida devido ao excesso de drogas, Hendrix tornou-se um símbolo da rebeldia dos “loucos anos 60” e transformou a guitarra elétrica em um símbolo da contracultura.

Ao lado da voz de Janis Joplin, da postura dos Beatles e dos Rolling Stones, dos protestos de Bob Dylan e do existencialismo de Jim Morrison, os acordes distorcidos de Hendrix, mais do que uma explosão criativa daquele momento musical, embalavam os sonhos de uma juventude que ousou se revoltar contra a “ordem natural das coisas”, assustando as cabeças conservadoras.

Hendrix nasceu em 27 de novembro de 1942, em Seattle, Estados Unidos, e se considerava um autodidata em seu aprendizado musical. Nos anos 50, quando já era adolescente, Hendrix não ficou imune ao novo estilo musical que arrebatava mentes e corações da juventude urbana: o rock’n’roll. Foi nessa época que o jovem Jimi entrou em contato com o estilo rebelde de Elvis Presley e com o louco piano Jerry Lee Lewis, além do talento de Bo Diddley e Fats Domino. Mas a influência decisiva para Jimi se aventurar pela estrada do rock como guitarrista veio do som de Little Richard e Chuck Berry, os únicos músicos negros do gênero naqueles anos.

No início, a guitarra elétrica ainda não tinha o status de instrumento “supremo do rock” que ganharia pouco depois. Por incrível que possa parecer hoje, nos primeiros anos do estilo o instrumento ainda rivalizava nessa posição com o piano, o violão e até com o saxofone.

Hendrix chegou a tocar com a banda de Little Richard entre 1964 e 1965, mas depois preferiu seguir com suas próprias “experiências” musicais. Foi quando ele viajou para a Grã-Bretanha, que na época fervilhava ao som de Beatles, Stones e The Who. Em Londres, os novos ídolos do rock logo passaram a admirar aquele guitarrista que misturava soul, funk e blues com rock’n’roll. Em junho de 1967, estava instaurada oficialmente a era da psicodelia em todo o mundo. O marco inicial foi o lançamento do álbum dos Beatles Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. As “experiências” de Hendrix resultaram (também em 1967) em outro marco do rock psicodélico, o disco “Are You Experienced”.

Naquela época, a hegemonia da guitarra elétrica já era algo inquestionável. Mas Jimi revolucionou a forma de tocar o instrumento. Como diz Rita Lee, “‘guitarrísticamente’ falando, existe o antes e o depois de Hendrix…”. O músico também revolucionou a maneira de se apresentar nos shows. Suas distorções, microfonias e o timbre exagerado de seus solos eram mesclados com o uso de novos efeitos, como tocar a guitarra com os dentes ou com o instrumento em suas costas. A fama “selvagem” de seu estilo foi alimentada ainda por apresentações em que o guitarrista queimava seus instrumentos e destruía equipamentos.

O sucesso veio imediatamente com a incendiária e extremamente psicodélica “Purple Haze” (Névoa Púrpura) e a balada “The Wind Cries Mary”. “Purple Haze”, uma verdadeira viagem de ácido de Hendrix, chegou a ser adaptada para os quadrinhos pelo cartunista norte-americano Robert Crumb.

“Guitarra metralhadora”
Hendrix também firmou sua rebeldia contra o sistema. Como a atração final do famoso festival de Woodstock, em 1969, o guitarrista protagonizou uma das cenas mais memoráveis da cultura pop do século vinte, quando resolveu protestar à sua maneira contra a agressão imperialista ao Vietnã. Hendrix simplesmente improvisou o hino nacional norte-americano – o ultrapatriótico “The Star-Spangled Banner”-, criando com sua guitarra sons de guerra, como metralhadoras e bombas.

Pouco depois, sua “guitarra metralhadora” continuou a disparar contra a guerra. “Machine Gun” continha uma letra que era um verdadeiro canhão espalhando toda a dor sentida pela guerra, e também era tocada de uma forma que o baixo, a bateria e a guitarra atuavam juntos na tentativa de simular o barulho de uma metralhadora disparando no campo de batalha.

Naturalmente, Hendrix não foi alheio ao racismo que imperava nos Estados Unidos, muito menos às lutas pelos direitos civis conduzidas por Malcom X e Martin Luther King.

Com uma nova banda cujos integrantes eram todos negros, Hendrix protestava contra a segregação racial à qual o rock norte-americano não estava longe de ser imune, embora fosse um gênero comprovadamente derivado dos estilos musicais negros. O grupo Band of Gypsys foi a oportunidade de Jimi mostrar suas raízes de rock’n’roll (ao estilo Little Richards) e causou grande euforia entre os jovens negros dos EUA.
O trompetista Miles Davis registrou isso em sua biografia, afirmando que Jimi Hendrix, no final dos anos 60, era certamente o maior ícone negro respeitado pela juventude negra do país.

Quarenta anos depois de sua morte, o legado da breve e extraordinária carreira de Hendrix ainda abala as estruturas do rock’n’ roll e continua sendo a trilha sonora perfeita para a rebeldia contra o sistema.

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