Ministro da Agricultura é o quarto ministro a cair em apenas oito meses de governoNo dia 17 de agosto, o então ministro da Agricultura, Wagner Rossi, entregou sua carta de demissão à presidente Dilma. Foi o desfecho de duas semanas de revelações quase ininterruptas de irregularidades e corrupção no órgão, que fizeram a permanência do ministro insustentável. Em apenas oito meses de mandato, Rossi foi o quarto ministro a cair.

Mais uma ação da “faxina” de Dilma nos ministérios? Essa é a ideia que tanto a imprensa como setores do governo tentam vender. No melhor estilo da “vassourinha” eternizada na campanha de Jânio Quadros, Dilma estaria “varrendo” a corrupção ao expurgar quadros do governo envolvidos em escândalos.

Contra essa visão de que Dilma estaria empenhada em promover uma limpeza ética nos ministérios, está o fato de que o governo sustentou até o último minuto cada um dos quatro ministros que caíram. E, uma vez fora do governo, continuam impunes e sem qualquer investigação.

Cai representante do agrobusiness
O caso de Wagner Rossi foi ilustrativo. Ministro desde 2010 quando foi nomeado por Lula, o político é um apadrinhado do vice-presidente Michel Temer (PMDB) e fiel representante do agrobusiness. Desde o final de julho, o político foi alvo de uma saraivada de denúncias, que vão de desvios da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), órgão que comandou, a fraudes e superfaturamento em licitações, cobrança de propinas e o recebimento de privilégios por parte dos empresários do setor.
Rossi é acusado de, no comando da Conab, liberar 100 toneladas de feijão à prefeitura de João Pessoa (PB), em 2007, dirigida pelo aliado Ricardo Coutinho (PSB). O então prefeito estocou o feijão para distribuí-lo durante as eleições de 2008. Hoje ele é governador do estado.

Outra denúncia é a da atuação de um lobista ligado às empresas agropecuárias em pleno prédio do ministério. O lobista Júlio Fróes teria não só livre trânsito no ministério da Agricultura, como total liberdade para fechar contratos. A audácia era tanta que o lobista contava até com sala no prédio do ministério, equipada com computador e telefone para ele “trabalhar”.

A revelação de que Wagner Rossi e seu filho, o deputado Baleia Rossi (PMDB), contavam com um jatinho da empresa Ouro Fino à disposição, foi a gota d’água. A empresa produz vacinas para febre aftosa e mantinha negócios com o governo. Temendo o aparecimento de novas denúncias e como forma de resguardar Baleia, presidente do PMDB em São Paulo e uma das principais apostas para a renovação de quadros da sigla, Wagner Rossi pediu demissão. A Dilma coube lamentar a demissão.
Rossi saiu, mas a pasta continuou na “cota” do PMDB. O novo ministro, o deputado gaúcho Mendes Ribeiro Filho afirmou que tinha “muito a aprender” com o ex-ministro. O governo varreu a sujeira para debaixo do tapete.

Corrupção e o governo
A sucessão de demissões, longe de partir de uma “cruzada ética” de Dilma, ocorre quando já há uma avalanche de denúncias sem explicação. O governo tenta agora fazer dos limões uma limonada, ou seja, apresentar essas quedas como parte de uma ação moralizadora do governo, a fim de esconder essa crise. A corrupção, porém, não é um corpo estranho infiltrado em Brasília. É parte do próprio governo, por suas escolhas e sua natureza.

A fim de garantir a “governabilidade”, o PT há muito se rendeu ao chamado pragmatismo político, isto é, à ideia de que se deve abrir mão de princípios e bandeiras para conseguir uma sólida base no parlamento. E isso pressupõe a fisiologia, ou seja, a troca de cargos por apoio no Congresso. A prioridade dada à aliança com o PMDB aprofunda ainda mais isso, já que o partido de Temer é o símbolo da corrupção e fisiologismo no país.

Outro aspecto que faz com que a corrupção seja parte integrante desse governo são as relações espúrias entre o setor público e privado. São empresários, fazendeiros e banqueiros que financiam as campanhas e os partidos que estão no poder. Uma vez eleitos, vão retribuir o apoio. Nem sempre apenas com a aprovação de leis. Licitações e contratos são os meios para irrigarem as empresas.

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