A “esquerda” e Obama

Que a burguesia festeje a vitória de Obama e defenda seus interesses é algo absolutamente normal. O problema é quando a burguesia encontra ajuda para isso em figuras que, aos olhos de milhões de trabalhadores, são apresentadas como de esquerda

Zapatero, na Espanha. Lula, no Brasil. Michele Bachelet, no Chile. Tabaré Vázquez, no Uruguai. Todos festejaram a vitória de Obama e falaram sobre estreitar ainda mais os laços com os Estados Unidos. Celso Amorim, o chanceler brasileiro, afirmou que “não vamos negar que o governo brasileiro teve uma boa relação com o [governo] de Bush, de pragmatismo e respeito. Mas agora a relação pode ser de afinidade e, esperamos, de cooperação com o novo governo norte-americano”.

As estrelas de Hollywood, cantores como Bruce Springsteen ou o documentarista Michael Moore, são entusiastas seguidores de Obama. Grande parte dos intelectuais de esquerda, como Tarik Ali ou Eduardo Galeano, expõem suas dúvidas e suas esperanças, e se dedicar a propor o que Obama deveria fazer para governar melhor. Todos afirmam que é preciso esperar para criticar Obama, que é preciso dar uma trégua porque Obama enfrentará muitos problemas.

É natural que os trabalhadores norte-americanos e de todo mundo vejam Obama com expectativas e ilusão, porque é negro, filho de um imigrante e que além disso não é milionário.

É provável que durante algum tempo a consciência antiimperialista esteja diluída pelas expectativas em Obama. Até que, por exemplo, continuem as agressões militares sob o seu mandato.

Queremos ressaltar os inúmeros apoios e congratulações recebidos por Obama de governos e dirigentes supostamente “revolucionários”. Chávez disse que “a eleição histórica de um afro-descendente à frente da nação mais poderosa do mundo é o sintoma de que a mudança que se tem gestado na América do Sul poderia estar tocando muito próximo dos Estados Unidos. Aqui da pátria de Simón Bolívar, estamos convencidos que chegou a hora de estabelecer novas relações entre nossos países e com nossa região, sobre a base dos princípios do respeito à soberania, a igualdade e a cooperação verdadeira”. Antes mesmo das eleições, Chávez pedia a Obama que, caso ganhasse, ele deveria acabar com o imperialismo. Evo Morales, por sua vez, disse ter “muita esperança de que as relações diplomáticas, de comércio e de investimento com nosso país irão melhorar. Temos muita esperança e somos otimistas”. Já Fidel Castro escreveu no jornal Granma: “Ao povo dos Estados Unidos lhe preocupa mais a economia que a guerra do Iraque. McCain é velho, belicoso, inculto, pouco inteligente e sem saúde.” E Lula acrescentou: “Se o racismo em todas as suas formas se impusesse e o candidato republicano conquistasse a Presidência, o perigo de guerra aumentaria”.

Estes governantes sabem perfeitamente quem Obama representa. Para eles, esta nova cara do imperialismo será uma oportunidade para continuar, ou melhor, para aprofundar a capitulação ao imperialismo. Aceitam que o imperialismo continue dominando o mundo e se recusam a romper com ele.

Esperam que Obama lhes aceitem como intermediários. Mas a suposta “esquerda” que apóia Obama parece ter esquecido que apóia-lo significa apoiar um presidente dos EUA, ou seja, o chefe do país imperialista mais importante do mundo.
Até a retórica de Hugo Chávez mostra os limites de seu suposto aintiimperialismo. Quando o presidente venezuelano falava de imperialismo, ele se referia apenas dos EUA e, nos últimos anos, somente de George W. Bush. Para o venezuelano, Bush era “el diablo”. O imperialismo europeu, com empresas como a Telefonica, simplesmente não existia. O presidente espanhol Zapatero chegou a ser considerado “revolucionário” por Chávez.

A burocracia cubana, por outro lado, já algum tempo perdoa tudo o que fazem os líderes do Partido Democrata dos EUA. Fidel até chega a duvidar que Obama possa mudar profundamente os EUA, mas não deixa de elogiar o norte-americano.

Com a retirada de cena de Bush do palco político, desaparece também o “antiimperialismo”, ou melhor dizendo, o discurso anti-americanista do castro-chavismo. O antiimperialismo, principalmente contra a figura dos EUA, foi o maior avanço que houve na consciência dos povos latino-americanos. Porém, isso pode retroceder por culpa dos comentários elogiosos destes personagens. Este é o papel sinistro que os governos ditos de esquerda latino-americana desempenham.

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