A CUT e o auge das lutas sindicais nos anos 80

O primeiro congresso da CUT (I Concut) foi realizado em 1984. Contou com 5.260 participantes, praticamente o mesmo número do congresso de fundação, em 1983.

Fez-se um balanço da atuação da central, e foi cobrada uma postura mais dura em relação à Conclat pelega. Considerou-se também “tímida” a participação da central na campanha das “Diretas-Já”. Em relação à greve geral de 84, se criticou as idas e vindas na marcação da data, assim como se avaliou que a greve deveria ter sido mais política. Além de ter como centro a revogação do decreto salarial 2.045/83, deveria ter incorporado outras bandeiras, como a luta pelas Diretas-já, e contra o Colégio Eleitoral que elegeu Tancredo Neves presidente, contra o FMI etc.

Foi aprovada a proposta de uma nova estrutura sindical, um Código (mínimo) do Trabalho e a defesa da reforma agrária radical, sob o controle dos trabalhadores. A Plataforma de Lutas repudiava a política econômica do governo, o arrocho salarial, defendia a redução da jornada de trabalho, a liberdade e autonomia sindical, uma política habitacional que atendesse aos trabalhadores, contra a privatização das estatais, contra todo tipo de discriminação, em defesa da população indígena, a revogação da Lei de Segurança Nacional e a livre organização política e partidária. Por fim, Jair Meneghelli, dos metalúrgicos do ABC, foi eleito presidente da CUT.

II Concut: o peso da esquerda
O segundo Concut foi realizado no Rio de Janeiro, entre os dias 31 de julho e 3 de agosto de 1986. O número de delegados presentes foi novamente em torno de mais de 5 mil. Destes, 35% eram rurais (maior participação do campo na história da CUT), 24% da indústria e 29% do setor de serviços.

O peso da esquerda neste congresso foi bastante significativo. Isso se refletiu no fato de que um dos pontos altos foi a proclamação, pela primeira vez explícita, de que a CUT lutava por uma sociedade socialista. Sob o lema “Salário, emprego e liberdade para todos. Terra para quem nela trabalha”, foi aprovado um plano de lutas que defendia a recuperação das perdas e aumento real dos salários; salário mínimo do DIEESE; congelamento dos preços e o abastecimento; reajuste automático mensal dos salários; estabilidade no emprego; fim da mão-de-obra temporária; redução da jornada para 40 horas semanais; salário-desemprego real; liberdade e autonomia sindical; participação popular na Constituinte; reforma agrária sob controle dos trabalhadores; punição dos assassinos dos trabalhadores rurais; não pagamento da dívida externa.
Outro fato que atestou o peso da esquerda é que foi barrada a proposta de transformar a CUT numa central de sindicatos, diminuindo o peso das oposições sindicais no congresso, definindo uma estrutura vertical para a central e a passagem do intervalo entre os congressos de dois para três anos.

III Concut: a aprovação do ‘funil’
Em 1988/89 as greves atingiram o ponto mais alto da década de 80. O III Concut realizou-se entre os dias 7 e 11 de setembro de 1988, em Belo Horizonte (MG). Esse foi o último congresso de massas da central e o maior da história do movimento operário no Brasil. Participaram 6.218 delegados. O número de entidades filiadas passou de 284 para 450 entidades. Enquanto a CUT se fortalecia, a CGT entrava em crise. Neste ano o PCdoB saía da CGT para entrar na CUT.

O grosso das bandeiras do plano de lutas aprovado no III Concut foi praticamente do congresso anterior, acrescentando-se a exigência da imediata implementação das reivindicações dos trabalhadores incluídas na Constituição de 1988, agora recém promulgada.

O congresso se polarizou em torno às questões estatutárias, particularmente, sobre a participação das “bases” nos congressos. No pano de fundo do debate, estava a perspectiva de transformação da CUT numa central com perfil sindical, negociador, ou melhor, de conciliação.

A luta foi duríssima e, ao final, se conseguiu aprovar a proposta que diminuía a participação dos delegados das oposições sindicais nos congressos. Ao mesmo tempo, o número de delegados por entidade sindical passaria a ser proporcional ao número de sindicalizados, e não mais ao número dos trabalhadores na base.

Por fim, os delegados do congresso nacional não seriam mais eleitos diretamente na base, mas nos congressos estaduais. Através deste “funil”, se reduzia a participação da base nos congressos da Central e, ao mesmo tempo, o peso da esquerda, abrindo o caminho para o avanço da política reformista na central.

O IV Concut: Fraude da Articulação pra garantir maioria
Foi realizado entre os dias 4 e 8 de setembro de 1991, após Lula perder as eleições presidenciais para Collor, a derrocada do Leste Europeu e a contra-ofensiva do imperialismo. Refletindo um refluxo da luta de classes, este foi o congresso mais tenso da história da CUT.

A luta começou no credenciamento. A Articulação, percebendo que poderia perder o congresso, inflou os delegados do Pará, aumentando o número de sindicalizados de alguns sindicatos e aplicou um redutor nas delegações da Bahia e de Minas, alegando débito de alguns sindicatos com a CUT. Embora a comissão eleita no congresso tenha confirmado o inchaço da delegação do Pará de 57 para 95 delegados, por outro lado, foi irredutível na questão do débito das delegações de Minas e Bahia. O congresso se iniciava com uma correlação de forças indefinida.

A polarização atingiu o ponto alto novamente em torno da questão estatutária. A oposição se unificou em torno da adoção do critério da proporcionalidade qualificada para eleição da direção. A Articulação defendia a proporcionalidade direta. A votação empatou. Uma nova contagem deu a vitória para a oposição: 742 a 741 votos.

No entanto, no dia seguinte, a direção decide anular a votação, afirmando que um dos votos em separado estaria repetido. O congresso paralisou. Delegados da Articulação gritavam “racha, racha”. A burocracia fez uma provocação contra Cyro Garcia, da Convergência Socialista e, quando ele tentou se defender, foi impedido de falar, dando início a uma grande briga.

O jornal O Globo (09/09/91), relatou os acontecimentos: “A pancadaria (…) começou quando o ex-presidente do Sindicato dos Bancários do Rio de Janeiro, Cyro Garcia, invadiu o palco onde estava a mesa diretora dos debates e tentou arrancar à força o microfone (…) Logo, outros sindicalistas invadiram o palco e houve troca de chutes e tapas, puxão de cabelo e muito choro”. Houve quatro hospitalizados e, posteriormente, o companheiro Nélson, bancário do Rio e membro da Convergência Socialista, teve um enfarte e veio a falecer.

Em meio ao tumulto, a Articulação bancou a continuidade do congresso. A mesa abriu a inscrição das chapas. A oposição não se inscrevia. Foi anunciado o início da votação só com uma chapa inscrita. Ao final, a oposição resolveu se inscrever.
A Chapa 1, encabeçada por Meneguelli (Articulação/Nova esquerda/Vertente Socialista/Unidade Sindical), obteve 786 votos (47,845). A oposição encabeçada por Durval (formada principalmente pela CUT pela Base, Convergência Socialista, Corrente Sindical Classista e Força Socialista) obteve 721 votos (47,84%). Havia 1.546 delegados credenciados, dos quais 1.531 exerceram direito a voto. Abria-se, assim, o caminho para o retrocesso da CUT.

Post author Paulo Aguena, da Direção Nacional do PSTU
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