A crise econômica internacional vai chegar ao Brasil?

Essa é uma pergunta feita por muitos ativistas do movimento sindical, estudantil e popular. O governo tem defendido que não chegará ou, caso chegue, terá seus efeitos reduzidos pela política econômica acertada. O crescimento atual (5,4% em 2007, que seguiu nesse primeiro trimestre) parece dar razão ao governo. No entanto, a crise econômica é grave a nível internacional e chegará ao Brasil. Bem ao contrário do que afirma o governo, terá conseqüências mais sérias, exatamente pela política econômica de Lula.

A crise que está se iniciando é parte do funcionamento da economia capitalista. A cada seis, sete anos (em algumas vezes dez) o capitalismo entra em crise. Depois, vem outro ciclo de crescimento e nova crise no futuro. Mas as crises não são iguais umas às outras. A última, que ocorreu em 2000 e 2001, durou cerca de dez meses nos EUA, com uma recuperação relativamente rápida.

Os reflexos nos países semi-coloniais, e em particular na América Latina, foram muito mais duros, com fortes crises. As conseqüências políticas foram também muito importantes, gerando uma desestabilização geral dos governos de direita, com sua derrubada pela ação de massas em vários países (Argentina, Equador, Bolívia), ou pela via eleitoral. A eleição de Lula no Brasil esteve diretamente ligada à crise do plano real de FHC.

A crise atual vai se abater sobre os governos de “centro-esquerda” (de frente popular e nacionalistas burgueses) do continente. É natural que Lula queira de todas as formas evitar ou adiar a crise no Brasil. No entanto, a perspectiva é outra. Vai alcançar e fortemente o país. Mas, para chegar até essa questão, vamos ver o que é e para onde vai a crise internacional.

Império treme
Ao contrário da anterior, essa crise aponta para ser mais grave nos países imperialistas. Já se iniciou pelo centro, pela produção industrial dos EUA. O PIB no quarto trimestre de 2007 já tinha recuado para 0,6% (4,9% no terceiro trimestre), e a produção industrial em 2008 vem confirmando as previsões recessivas: crescimento de 0,1% em janeiro e queda de 0,5% em fevereiro.

Há uma clara tendência de se confirmar uma recessão nos EUA no primeiro e segundo trimestres deste ano. É a evolução da indústria dos EUA que determina os ciclos econômicos globais de crescimento e crise, assim como seu ritmo e a intensidade dos períodos. Os outros países imperialistas já apontam no mesmo sentido, com a economia paralisada (0,3% de crescimento do PIB em fevereiro na Europa).

Poderosos instrumentos estão sendo usados pelos governos imperialistas para impedir a crise, como a queda na taxa de juros, o apoio financeiro direto às grandes empresas em crise, assim como o mais importante deles, o ataque aos salários e direitos dos trabalhadores. Os bancos centrais estão despejando bilhões de dólares para salvar os bancos e acalmar o mercado.

Estão fazendo tudo o que podem, mas até agora a crise se aprofunda. Falta a grande prova da luta de classes que é o ataque inevitável aos trabalhadores.

Crise financeira pode agravar a situação atual
Não é a crise financeira que determina os ciclos econômicos mundiais, mas ela pode agravar e muito uma crise econômica. Nos últimos anos, os capitalistas deslocaram para a especulação parte da mais-valia extraída dos trabalhadores. Nesse período de globalização, o mercado financeiro assumiu dimensão e complexidade gigantescas. Os burgueses fugiram assim da tendência à queda da taxa de lucros, deslocando parte de seus lucros para a especulação em vez de investir na produção.

A especulação é um jogo onde quando um ganha, outro perde. Mas isso pode ser camuflado em uma fase de crescimento na qual todos aparentemente ganham. Assim, se monta uma gigantesca pirâmide financeira que depois desaba. Agora, começa a desinflar a enorme bolha financeira acumulada em anos de especulação.
Martin Wolf, analista do ‘Financial Times’, estima que as perdas podem chegar a U$ 3 trilhões. Isso seria o prenúncio de crises e falências em grandes bancos. Dois já faliram como o Carlyle Capital Corporation e o Bearns Stearns, enquanto outro (o Lehman Brothers) está praticamente falido. Caso isso realmente aconteça, a crise pode tomar rumos muito mais graves.

Mas ainda não está claro que a crise possa tomar esse rumo. No momento o que se vê é que a crise já começou, e que tende a ser mais grave que a anterior. A resultante será necessariamente decidida no terreno da luta de classes: os trabalhadores aceitarão a carga de miséria que virá com a explosão da crise, pelo medo do desemprego? Ou se gerarão novas comoções sociais, com ascensos revolucionários, como em 2000-2001?

Post author Diego Cruz e Eduardo Almeida, da redação
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