A crise econômica, as centrais sindicais e a redução dos salários

Desde novembro de 2008, o desemprego é realidade na indústria brasileira. Além de ser vítima do desemprego, os trabalhadores são alvos de um ataque mais grave ainda: a ofensiva sobre a sua consciência. A campeã desta campanha é a Rede Globo. Das telenovelas ao Fantástico, a cantilena é uma só: reduzam os salários e preservem o emprego.

A Força Sindical não só reduziu o salário dos operários em várias fábricas em São Paulo, como defendeu esta medida entusiasticamente. A Central Única dos Trabalhadores, no entanto, vive uma aparente contradição. Enquanto os dirigentes nacionais da CUT dizem estar contra a redução de salários e direitos, a central vem fazendo acordos de redução salarial em vários sindicatos que dirige.

Poderíamos até pensar que não haveria forças para defender outra coisa. Mas, na medida em que os dirigentes sindicais defendem publicamente a redução dos salários para preservar os empregos, descartamos o fato de que tais sindicatos tenham sido obrigados a assinar os acordos.

A contradição entre as declarações da direção da CUT e a prática é apenas aparente. O programa e a teoria que a direção da CUT defende sobre o capitalismo conduzem, necessariamente, à desmoralização e à derrota dos trabalhadores.

O consumo como motor do capitalismo?
O argumento dos dirigentes da CUT é que não existia crise na produção e que, se os trabalhadores fossem às compras, a crise não chegaria ao Brasil. Ao afirmar que a política dos capitalistas aprofunda a crise porque diminui o consumo, a CUT pretende salvar os capitalistas que, ao reduzir os salários, somente estão agravando a situação. A CUT tenta salvar os capitalistas dos próprios capitalistas.

Na superfície do problema, o mundo se resume a oferta e demanda de bens, às taxas de juros que sobem e descem e a bolsas de valores. Mas tudo isso tem apenas a função de esconder o essencial: a exploração à qual a classe operária é submetida nas fábricas.

A exploração é a chave
Vejamos uma fábrica de autopeças que produz para uma montadora qualquer. Digamos que Pedro da Silva, trabalhador desta fábrica, receba R$ 800 por mês e trabalhe 240 horas. Pedro produz três peças a cada hora de trabalho. Assim, ao final de 240 horas de trabalho, Pedro produziu 720 peças. O seu patrão vende cada peça a R$ 50. No final do mês, o patrão terá embolsado, só com o trabalho de Pedro, R$ 36 mil. Pedro ficará com R$ 800.

Em oito horas Pedro fez 24 peças, gerando, em um dia de trabalho, R$ 1.200. Ele pagou o seu próprio salário e encargos. Mas não recebeu absolutamente nada pelas outras 232 horas que seguiu trabalhando. Aqui está o segredo do lucro. Segunda conclusão: quanto maior for a jornada que Pedro trabalhar de graça, mais o patrão poderá aumentar os seus lucros.

Suponhamos, agora, que o encarregado chame uma reunião na seção de Pedro. Ele fala que a empresa está em dificuldades e que todos têm de fazer um sacrifício reduzindo o salário. Por fim, a empresa acaba reduzindo o salário em 20%. Pedro agora vai receber R$ 640 e a jornada ficou em 192 horas no mês.

Se antes o patrão pagava a Pedro com as 24 peças que ele produzia, agora o salário de Pedro e os encargos são pagos com apenas 19,2 peças. Depois de três meses, ele é demitido. Assim, Pedro não somente gerou o seu salário, mas também os custos de sua demissão.

Uma parte dos operários continuou trabalhando. Com a redução da jornada para 192 horas, agora cada um produz 576 peças em vez de 720. Passado um mês, o encarregado diz que o ritmo da produção tem de aumentar. Mesmo com a jornada menor, eles voltam a produzir 720, mas em vez de produzir em 242 horas produzem em 192 horas.

Agora, cada trabalhador recebe R$ 640 ou R$ 960, incluindo os encargos. Ou seja, o patrão aproveitou a crise e aumentou a produtividade de cada trabalhador. O resultado é que o trabalhador gerou o seu salário em 6,4 horas de trabalho em vez de em oito horas como anteriormente, uma redução de 1,6 horas sem nenhum investimento extra por parte do patrão.

A redução do salário ou o banco de horas tem um único objetivo para o capitalista: aumentar a exploração. Em tempos de crise, essa regra se converte em questão de sobrevivência para os capitalistas. Isso é assim porque existe a propriedade privada. A produção não está voltada para atender às necessidades das pessoas. Cada patrão isolado deve maximizar o seu lucro. Se não fizer isso, o vizinho faz. Aí vem a CUT e diz que, com isso, vai diminuir o consumo.

Se esta fosse a forma como o sistema funciona, seria fácil resolver. Bastaria que Lula decretasse a estabilidade no emprego. Não haveria pressão pela redução do salário e o consumo não cairia.

Então, por que a CUT não reivindica isso? A resposta é simples: a defesa do consumo como satisfação das necessidades esbarra no fato de que este consumo para o capitalismo só tem sentido se houver lucro. Portanto, para defender o consumo, teriam de atacar o lucro. Acontece que o governo e a CUT, ao dizer que o fundamental é o consumo, acabam defendendo os interesses dos patrões.

Chegamos ao núcleo central do problema: a crise somente expressa o que ocorre todos os dias no interior do sistema capitalista. A exploração da classe operária é base de toda sustentação do sistema que se apóia na propriedade privada das máquinas, ferramentas e edifícios. É a força de trabalho que gera tudo isso. O trabalho é social, mas o lucro só pertence ao capitalista.

Investimento e crise
Para que a tese da CUT e do governo se confirmasse, eles deveriam primeiro explicar um fato: por que a crise explode no momento em que estamos no auge do aumento do consumo no país?

Comentando a variação entre 2007 e setembro de 2008, o IBGE informa que “a despesa de consumo das famílias alcançou a taxa positiva de 7,3%, o vigésimo crescimento consecutivo nessa comparação. Um dos fatores que contribuíram para este resultado foi a elevação de 10,6% da massa salarial real, com aumento de ocupação e do rendimento médio real do trabalho”.

O crescimento da massa salarial reflete o fato de que foi incorporada à produção uma quantidade maior de trabalhadores. Isso somente foi possível pelo fato de que os capitalistas aumentaram o investimento das empresas. Os novos operários incorporados à produção gastaram o seu salário e, com isso, aumentou o consumo.

O tamanho do consumo na sociedade capitalista está determinado pelo grau de investimento dos capitalistas. Agora, a pergunta: por que os capitalistas pararam de investir? A resposta é simples: porque eles já não teriam o mesmo lucro de antes. E por que eles não teriam o mesmo lucro de antes? Por incrível que pareça, a resposta é: porque eles investiram muito.

O presidente da GM do Brasil, Jaime Ardila, nos explica que, na indústria automobilística, “está sobrando capacidade [de produção] e é difícil imaginar uma rápida recuperação”. A capacidade instalada na indústria automobilística no mundo pode produzir mais de 66 milhões de veículos. No entanto, em 2009, serão produzidos, segundo as melhores estimativas, 59 milhões. É capital excedente, não será movimentado pelos trabalhadores, mas o capitalista já fez o investimento.

Para terminar, Ardila arremata: “o excesso custa muito dinheiro”. Mas de que excesso estamos falando? Por acaso existe um excesso de material de transporte frente às necessidades da população mundial? Obviamente, não.

As causas da crise
O problema é que houve um grande investimento em máquinas, matérias-primas e insumos para a produção. Isso fez diminuir o tempo de produção do automóvel. A conseqüência imediata foi que o tempo da jornada em que o trabalhador gerou o seu próprio salário diminuiu, e o tempo da jornada em que ele trabalhou de graça para o patrão aumentou.

Para que os investimentos sigam aumentando os lucros, o crescimento da parte da jornada que se converte em lucro deveria seguir crescendo a tal ponto que fosse compensando o aumento das máquinas e insumos. Mas chegamos num ponto em que o tempo da jornada chegou ao seu limite. Quando isso ocorre, o peso dos investimentos que compõem a maior parte do preço do automóvel é tão grande que puxa o lucro para baixo.

Se houvesse apenas um capitalista produzindo carros, ele então poderia aumentar o preço do automóvel de forma que compensasse os investimentos. Mas se uma marca aumenta, a outra vende mais barato e quebra a concorrente. Não existe excesso de mercadorias, porém elas não podem ser vendidas a um preço que permita compensar o investimento realizado.

É por isso que os patrões vão querer diminuir ao máximo os salários e aumentar a jornada, introduzindo o banco de horas. Eles continuam lutando para aumentar a todo custo a parte da jornada que é transformada em lucro.

A parada brusca nos investimentos e a perspectiva de uma diminuição em médio prazo do consumo antecipam as demissões, porque os capitalistas sabem que vão produzir para um mercado menor no futuro. De uma forma ou de outra, temos uma superprodução.

Qual deve ser o horizonte?
O que aparece de forma inquestionável é o fato de que a satisfação das necessidades humanas é incompatível com o lucro e a propriedade privada. Portanto, toda luta contra os efeitos da crise que não incorpore conscientemente a luta contra esta contradição acabará defendendo os interesses dos capitalistas.

Nesse sentido, a ação da direção nacional da CUT, através de seu presidente, no caso das demissões da Embraer, é uma ilustração dos problemas que estamos mostrando. Diante mais de quatro mil demissões, o presidente da CUT se limitou a ser o porta-voz do presidente da República. Mas quando Lula se reuniu com a Embraer e disse que não moveria nenhuma palha para a readmissão dos trabalhadores, a CUT não fez mais nenhuma declaração sobre o tema.

O problema é exatamente esse: quando a CUT transforma a classe operária em consumidores e esconde a exploração, perde o critério de classe. Não se pode lutar sequer contra os efeitos da crise, na medida em que o que ordena o programa da CUT é a defesa do mercado capitalista e, portanto, da exploração que fundamenta esse mercado.

Alguém poderia argumentar que os sindicatos devem ser neutros, que devem lutar somente pelos interesses imediatos. Contudo, se os dirigentes do sindicato
se colocam ao lado do capital e do mercado, não poderão sequer lutar pelo mínimo.

Dessa forma, é inevitável que, se o horizonte das centrais sindicais for o capitalismo, elas atuarão como auxiliares do capital.

Mas “os trabalhadores não querem lutar contra a propriedade privada, pois isto não está no seu nível de consciência”, diriam os reformistas. É verdade, mas toda ação humana é o resultado de um pensamento já formulado. O governo Lula e a CUT, neste momento, têm atuado na consciência da classe trabalhadora afirmando que a crise será uma marolinha.

O problema do programa
Esses argumentos populistas desmoralizam os trabalhadores, pois semeiam a idéia de que estamos diante de uma crise passageira e de que é possível convencer os capitalistas de que, se eles fizerem outra coisa, a crise pode ser evitada. O resultado é que os trabalhadores acabam aceitando a redução dos salários.

O que fazer e o que dizer de imediato, aparentemente não tem relação com nossa estratégia, pois, como dizem os reformistas, não está no nível de consciência da classe. Isto, porém, é um erro catastrófico.

São os trabalhadores, de forma democrática em suas assembleias, os que devem decidir qual é a ação possível. Mas o problema central está no que os dirigentes sindicais dizem para os trabalhadores, pois é aí que se disputa a consciência para as ações futuras. E o que se diz depende do programa. Na medida em que a consciência muda, pois existirá uma experiência dos trabalhadores com a crise, o que se disputa é o sentido desta luta que começa a ser gestada.

A dinâmica geral da crise conduzirá ao fato de que todas as ações cotidianas e táticas ganharão uma relação cada vez mais estreita com a estratégia. Isso não significa “revolução jᔠcomo muitos dirão. Significa que o socialismo pode ganhar o imaginário de uma nova vanguarda que começa a lutar contra os efeitos da mais profunda crise do capitalismo desde 1929.

As vitórias parciais somente valerão se o resultado da luta estiver relacionado à compreensão de que necessitamos de outro sistema de produção e de distribuição do que produzimos. Em outras palavras, se estivermos dispostos e acreditarmos que podemos destruir o capitalismo.

Post author
Publication Date