A campanha para retirar nossos direitos e salários

Patrões pressionam por acordos, que não garantem empregosHá alguns domingos, o Fantástico exibiu reportagem sobre uma empresa onde, surpreendentemente, os trabalhadores defendiam reduzir os salários e a jornada. Sob uma grande árvore, o jornalista da Rede Globo e um pequeno grupo debatiam a crise e a necessidade de evitar demissões. Os metalúrgicos queriam menos 20% na jornada e nos salários. Como prova incontestável, o repórter exibia as folhas com o abaixo-assinado pelo acordo.

Pula para São José dos Campos (SP). A mesma empresa, a mesma árvore, os mesmos funcionários. A realidade que o sindicato encontra na Schrader é outra. Trabalhadores coagidos, pressão e ameaças. “Os trabalhadores disseram que não querem redução de salários”, conta o diretor do sindicato, José Mendonça. “Os próprios funcionários confirmaram para o sindicato que quem não assinasse o abaixo-assinado feito pela empresa seria demitido”, afirma. A verdade vem à tona. Fantástico.

Pressão
Há uma grande campanha para jogar a crise nas costas dos trabalhadores. E é nas empresas onde ela aparece com mais força, na forma de coação, chantagem e todo tipo de ameaça, incluindo a pior, contra o emprego. Essa campanha começou com empresários como Roger Agnelli, da Vale, e Paulo Skaf, da Fiesp. Espalhou-se como praga, das multinacionais até as pequenas empresas.

O discurso é igual. Falam em “dividir responsabilidades” e “somar esforços” contra a crise. Na verdade, não querem dividir nada, querem é que nós trabalhadores paguemos pela crise que não criamos. Falam em “atravessar” a crise. Como se esta fosse algo passageiro, e não houvesse nada de mais em aceitar um “sacrifício temporário”.

Contam ainda com a ajuda inestimável do presidente Lula que, com prestígio e popularidade, abusa de um discurso gasto, vendendo segurança e prometendo dias melhores.

Cofre cheio
A dobradinha com o governo tem servido para proteger os lucros das empresas. Por anos, bancos e empresas bateram recordes de faturamento. O Brasil de Lula tornou-se um paraíso para empresários, montadoras e barões da construção civil.

De repente, as altas taxas de lucro viram-se ameaçadas. Projeções fabulosas despencaram. A meta de três milhões de veículos não foi atingida. A exportação de minério caiu. Diante do protesto de acionistas, a solução foi conseguir o lucro de outro modo: retirando direitos e salários.

As empresas acumularam o suficiente nos últimos anos para não ter de recorrer a demissões ou ataques aos direitos. A Vale talvez seja o maior exemplo. A maior empresa do Brasil tem US$ 15 bilhões em caixa. No mesmo dia em que propôs licença com redução de 50% no salário, a empresa elevou o valor a ser repassado a seus acionistas para US$ 2,5 bilhões. Calcula-se que tenha dinheiro em caixa para pagar os salários de seus funcionários por dez anos.

Acordo não garante emprego
Para os patrões, reduzir um pouco os lucros em nada afeta o luxo de suas vidas. Para nós, trabalhadores, qualquer redução salarial é uma calamidade. A perda de um emprego é uma tragédia. Que, infelizmente, já é realidade em 31% das famílias de São Paulo, segundo pesquisa do jornal Folha de S. Paulo.

Dizem que se aceitarmos esses acordos não haverá demissões. Mentira! Querem que os trabalhadores não resistam. Já está havendo muita demissão, mesmo com os acordos.
No Sul Fluminense, o sindicato dos metalúrgicos, ligado à CTB, assinou um acordo com a Peugeot em novembro de 2008, reduzindo em 25% o salário dos temporários. O sindicato aceitou o acordo sem luta. Há algumas semanas, a montadora demitiu 250 metalúrgicos de uma só vez. Sequer comunicou o sindicato, que foi se queixar de traição.

De braços dados com o inimigo
As demissões acontecem antes e depois dos acordos. Muitas vezes, servem para intimidar os trabalhadores e fazê-los aceitar a proposta.

Em outros casos, os patrões dispensam esse recurso, pois contam com aliados nos sindicatos para essa política. Em Taubaté (SP), o sindicato da CUT aprovou um acordo, reativando o banco de horas e a “semana de quatro dias”. O próprio gerente da Volks avisou que o acordo “não evitará demissões”. Mas a CUT ignorou.

No dia seguinte, 21 de janeiro, 150 pessoas foram demitidas. Um metalúrgico escreveu ao Portal do PSTU, pedindo ajuda após a demissão. “Estou escrevendo para fazer uma denúncia. Sobre o acordo da CUT fazendo com que a gente aprovasse sobre banco de horas e flexibilidade nos induzindo a votar dizendo que nosso emprego iria depender deste acordo”. Não poupou críticas ao sindicato: “Me sinto usado e enganado pela empresa e pelo sindicato. Ontem não tinha uma pessoa sequer da CUT na fábrica”.

A Força Sindical vem aplicando os acordos com uma rapidez assustadora. Em São Paulo, promoveu acordos de redução de salários e jornada em dezenas de fábricas, como Valeo e MWM (nesta página).

Flexibilização eterna
Nas empresas em que se aceitam esses acordos, outros serão impostos depois, ainda piores. Como a crise vai piorar, e não melhorar, eles vão vir com a história de “como a situação piorou, é preciso cortar salários ainda mais”. Ou cortarão os direitos que sobrarem. E no final vão demitir da mesma forma.

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