A agonia do feiticeiro

Há 160 anos, Karl Marx e Friedrich Engels lançaram o Manifesto Comunista,
onde procuravam mostrar aos trabalhadores as contradições do capitalismo. Os autores afirmavam que o capitalismo podia ser comparado a um feiticeiro que não consegue controlar o seu feitiço. No plano econômico, isso significava dizer que as crises não deveriam ser vistas como uma exceção ou provocadas por erros na condução da economia. Ao contrário, as crises expressam o funcionamento “normal” do capital.

No artigo anterior, analisamos o fundamento da produção capitalista: a mais-valia. Vimos que a diferença entre o salário do trabalhador e o quanto que ele efetivamente produz é a mais-valia apropriada pelo capitalista. Por fim, também vimos que existem diversas maneiras de aumentar a mais-valia, seja por meio do aumento da jornada de trabalho (mais-valia absoluta), seja através do aumento da produtividade do trabalho (mais-valia relativa).

O objetivo deste artigo é analisar uma contradição insuperável da produção capitalista: quanto mais o capitalista investe em máquinas e equipamentos para aumentar seus lucros, mais a taxa média de lucro tende a cair. Para compensar esta queda, a principal saída do capitalista é investir ainda mais em máquinas e equipamentos, ou seja, é estimular justamente o que causa a queda da taxa média de lucro.

Investimento em novas tecnologias
Em função da concorrência, podemos imaginar que o capitalista é um maníaco que procura constantemente aumentar a produtividade do trabalho. Para conseguir isso, ele busca todas as alternativas possíveis. A principal é um investimento constante em novas tecnologias, comprando máquinas e equipamentos que possam substituir o trabalhador.

Quando a empresa faz isso, ela está substituindo capital variável por capital constante. O capital variável é quanto o empresário gasta em salários e capital constante é quanto ele gasta em máquinas, equipamentos e matérias-primas.
A tendência da produção capitalista é que o investimento em capital constante seja cada vez maior e que o número de trabalhadores empregados, ou seja, o capital variável, seja cada vez menor.

Vejamos o caso da Volkswagem. Nos anos 80, ela tinha cerca de 40 mil trabalhadores. Atualmente, restam apenas 10 mil. Isto se deve a dois motivos principais: de um lado, as terceirizações, que representam somente a transferência de empregos para as contratadas em condições mais precárias. De outro, o fim de alguns postos de trabalho, decorrente da automação de parte da linha de montagem.

A tendência de queda da taxa de lucro
O lucro do capitalista é proporcional à quantidade de mais-valia produzida. Mas apenas os trabalhadores é que produzem mais-valia. As máquinas não criam mais-valia alguma, apenas tornam o trabalho humano mais rápido.

Por isso podemos afirmar que as empresas dão um “tiro no pé” de sua classe quando substituem trabalhadores por máquinas, porque estão diminuindo justamente a fonte de seus lucros.

A taxa de lucro é calculada a partir de quanta mais-valia pode ser extraída de todo o investimento que é feito pela empresa, ou seja, do capital total. Vale lembrar que o capital total se divide em dois tipos: o capital constante (gasto em máquinas, equipamentos e matérias-primas) e o capital variável (gasto em salários).
A cada novo investimento, as empresas tendem a investir cada vez mais em capital constante. Quando fazem isso, num primeiro momento elas conseguem aumentar seus lucros, devido ao grande aumento da produtividade do trabalho. Em função da concorrência, elas são obrigadas a continuar fazendo isso a cada nova oportunidade, sempre diminuindo em termos relativos o capital variável.

Em um determinado momento, mesmo aumentando a produtividade do trabalho, a quantidade de capital variável que produz mais-valia é tão pequena frente ao conjunto do capital investido que começa a cair a taxa de lucro.

Essa redução da taxa de lucro só ocorre porque o lucro do capitalista só pode ser calculado considerando o capital total investido, mas é apenas o capital variável que produz mais-valia e é justamente este que tende a diminuir.

Podemos perceber melhor isso tanto por meio da fórmula da taxa de lucro:
Isto é uma contradição do capital, porque ele é obrigado a substituir trabalhador por máquinas para aumentar a produtividade do trabalho. Contraditoriamente, quanto mais se desenvolve a acumulação de capital, quanto mais cresce a mais-valia relativa, quanto mais aumenta a produtividade do trabalho, maior é a tendência de queda da taxa de lucro.

A concorrência entre os capitalistas
Frente a isto, poderíamos nos perguntar por que os capitalistas fazem isso se lhes prejudica como classe? A resposta é simples: neste momento, eles não pensam nem agem enquanto classe. A luta de classes não existe apenas entre a burguesia e a classe trabalhadora, mas também entre os próprios capitalistas, na forma da concorrência.

Aumentar a produtividade do trabalho por meio da automação, mecanização, informatização é a única alternativa que o capitalista tem para aumentar a taxa de lucro de sua empresa, porque assim ele se apropria de uma parte da mais-valia produzida pelas empresas tecnologicamente atrasadas. Ao fazer isso, ele resolve seu problema imediato, mas pressiona para baixo a taxa de lucro média. E como todos pensam e agem da mesma maneira…

Contra-tendências
O próprio Marx destacou que junto com a tendência à queda da taxa de lucro, também existem contra-tendências, que buscam aumentar esta taxa. Podemos citar algumas, como o barateamento de matérias-primas e máquinas (capital constante), privatizações, desemprego, internacionalização da economia, monopolização, bolhas financeiras, baixos salários, formação de cartéis, uso de dinheiro público, pagamentos das dívidas externa e interna, etc. Entre tantas contra-tendências, ao menos uma merece um pouco mais da nossa atenção.

A mais importante delas, sem dúvida, consiste no aumento da exploração do trabalhador por meio da implementação do banco de horas, o aumento da intensidade e precarização do trabalho, a retirada de direitos com as contra-reformas, o uso do trabalho infantil, a desvalorização do trabalho feminino etc. Isto é algo que tem ocorrido no Brasil, China e Venezuela, mas também na Europa e nos EUA.

Por fim, a queda da taxa de lucro não é resultado de uma desaceleração da economia, da falta de investimentos ou da diminuição no consumo. Tampouco a queda da taxa de lucro se dá pelo fato do trabalho se tornar menos produtivo. Ao contrário, ocorre justamente pelo fato de aumentar a produtividade do trabalho. Contraditoriamente, a taxa de lucro cai porque o capitalismo “deu certo” e é isto que deixa o feiticeiro em agonia.

*Colaborou Raíza Rocha, de Salvador (BA)

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