A 40 anos da última onda revolucionária que sacudiu a Europa

Os primeiros atos de grandes dramas históricos parecem, freqüentemente, triviais. Algumas prisões depois de um ato em solidariedade com a resistência no Vietnam formaram o estopim da avalanche do maio de 68 na França.

Na seqüência, pouco mais do que uma centena de estudantes da Universidade de Paris-X, em Nanterre, na periferia de Paris, ocupou a sala do Conselho de Universidade. O movimento estudantil estava engajado em uma campanha contra a reforma do ensino superior. Mas, não eram indiferentes à espetacular repercussão da Ofensiva do Tet que conseguiu hastear a bandeira vietcong no teto da embaixada americana em Saigon.

A ocupação se estendeu para a Sorbonne. O governo De Gaulle lançou a polícia sobre o Quartier Latin (o bairro latino de Paris, no coração da capital). Não conseguiram desalojar a massa de estudantes que se defendia em improvisadas barricadas. O espírito das jornadas revolucionárias de 1848 e de 1871 parecia ter ressuscitado. Poucos dias depois, um milhão de pessoas desfilaram pelas ruas de Paris em solidariedade com os estudantes e contra o governo. Foi um terremoto político.

A CGT, principal Central sindical sob a influência do PCF, decidiu chamar um dia de greve geral. Na fábrica da Sud Aviation, do estratégico setor aero-espacial e militar, um militante trotskista defendeu a continuação por tempo indeterminado. Na seqüência, em um processo “selvagem” incontrolável que foi muito além das intenções das direções sindicais, o país inteiro entrou em greve geral – mais de dez milhões de trabalhadores cruzaram os braços. Greve geral política, portanto, que colocava em cheque, objetivamente, a legitimidade da permanência do governo De Gaulle. A mobilização, no entanto, não tinha uma proposta de saída política revolucionária para a crise.

O mundo burguês se apavorou, assustado, diante de um fenômeno novo na Europa do pós-guerra. A Europa que vinha de mais de vinte anos de crescimento econômico descobria a força política-social de uma nova geração de trabalhadores e jovens. Uma greve geral política capaz de parar a França, apesar das direções dos sindicatos e contra as direções do PS e do PCF, ou seja, um processo, essencialmente, espontâneo, de rebelião operária-popular.

Foi argumentado nos últimos quarenta anos que as massas não queriam fazer na Paris de 1968, uma Petrogrado de 1917. No maio francês, como de resto em todos os processos revolucionários da história, as massas não se lançaram à luta com um plano pré-concebido de como gostariam que a sociedade deveria ser. Os estudantes e operários franceses sabiam, porém, como em todas as revoluções da história, contra quem lutavam. Queriam derrubar De Gaulle. Derrubar o governo é o ato central de toda revolução moderna. Quando descobriram a sua força social e política, no calor dos dias da greve geral, as massas populares francesas se moveram com instinto de poder. Seus dirigentes reconhecidos – porque a ação das massas em processos revolucionários está, geralmente, à frente ou à esquerda da sua consciência – ao contrário, esquivaram-se de responder à questão do poder.

O desbordamento na ação dos aparelhos sindicais e políticos foi, é certo, transitório. A crise política, que caminhava para se radicalizar em crise revolucionária, foi superada pela traição do stalinismo. De Gaulle não caiu, imediatamente, mas, o regime tremeu. O mal estar foi desviado para os processos eleitorais que culminaram, mais de uma década depois, com a eleição de Mitterand.

Uma vaga revolucionária mundial
O maio Francês esteve inserido na quarta onda da revolução mundial do século XX: foi a mais internacional de todas, até hoje. O internacionalismo renasceu das cinzas com a solidariedade internacional ao Vietnam – uma campanha muito mais ampla que o apoio ao FLN (Frente de Libertação Nacional) na Argélia – e o repúdio mundial ao golpe de Pinochet.

A quarta onda da revolução mundial começou na Europa, como as anteriores – maio 68 francês, primavera de Praga e Outono quente italiano, e viveu os combates decisivos nas ruas de Lisboa durante os meses explosivos do segundo semestre de 1975 -, mas, esteve articulada com a situação na Ásia (ofensiva no Vietnam e internacionalização no Camboja) passou pela África – início da derrota militar portuguesa nas colônias africanas, em especial na Guiné – e chegou a ter uma refração na América Latina, onde o movimento estudantil se levantou pelas liberdades democráticas (México e Brasil em 1968), e o movimento operário se lançou a ações de massas radicalizadas (Cordobazo argentino em 1969, revolução chilena 1970/73). Em todos estes processos, o papel dos partidos comunistas disciplinados por Moscou foi, dramaticamente, em maior ou menor medida, contra-revolucionário. Depois da invasão de Praga, sua influência começou a declinar, abrindo o caminho para a reorganização de uma nova esquerda.

A crise econômica mundial aberta em 2007 e 2008 já mudou a situação mundial. Muitos milhões de trabalhadores perderão seus empregos nos próximos meses. Estará colocada a necessidade e, porque não, a possibilidade de vermos a nova geração do proletariado europeu se levantar, novamente, à altura dos combates da geração de seus pais. Paris, a capital da revolução européia do século XIX, e onde se fundou a Quarta Internacional em 1938, a cidade que colocou a bandeira vermelha nas portas da Sorbonne em 68, a Paris que viu Sartre à frente de milhares de estudantes marchar para se unir aos operários da Renault, parou para ver a greve geral do passado dia 29 de janeiro. Ce n´est q´un début, continouns le combat (não foi senão o início, a luta continua) diziam os trabalhadores e estudantes em 68 e nos anos setenta. Seu grito de guerra e sua esperança tomaram as ruas de Paris neste janeiro.

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