DA REDAÇÃO

Nascido em Salvador, em 28 de junho de 1945, Raul Seixas cresceu cercado de livros e, ainda adolescente, foi embalado, simultaneamente, pelos xotes e baiões, particularmente de Luiz Gonzaga, e pelo rock de Elvis Presley, Little Richard e Chuck Berry.

O esquisitão que nunca fez muito esforço para se enquadrar nos padrões sociais, Raul se transformou num ícone nacional, uma verdadeira lenda, que 30 anos depois de sua morte continua vendendo 300 mil discos por ano e empolgando uma multidão de seguidores.

Suas músicas e letras estão cheias de referências autobiográficas, marcadas por uma espécie de esoterismo anárquico, e ao mesmo tempo recheadas de críticas à sociedade. Isso fez dele o amalucado porta-voz de um setor da sociedade que buscava alternativas diante da repressão da ditadura militar, do consumismo capitalista e da mediocrização do ser humano.

Desobediência e criatividade
Radical no melhor sentido da palavra, Raul Seixas era uma espécie de trovador fora do tempo e do espaço. Comportando-se como uma daquelas figuras da Idade Média que recolhiam histórias das margens da história oficial e as transformavam em poesias cheias de ironia, sensualidade e visão crítica, o cantor repetia que tudo o que criava era resultado de sua convicta postura de desobediência diante da lógica do mundo.

O primeiro sucesso veio em 1972, quando a música “Let me sing, let me sing”, uma mistura de rock com baião que Raulzito interpretou travestido de Elvis Presley – ficou entre as classificadas no 7º Festival Internacional da Canção. No ano seguinte, Raul emplacou um de seus maiores e mais fantásticos sucessos, “Ouro de tolo”, com uma letra em que aspectos autobiográficos se misturam com a mais debochada crítica à ditadura, ao “milagre econômico” e à censura.

Viva a sociedade alternativa!
Essa busca ganhou verdadeiros hinos em 1974, com o lançamento do disco Gita. Além da música-título e de outras belíssimas, como “Medo da Chuva” e “Trem das Sete”, o disco trazia a anárquica “Sociedade Alternativa”, que se transformou em sucesso imediato entre a juventude. “Faze o que tu queres, há de ser tudo da lei”, foi uma ousadia que não passou despercebida pela repressão: Raul foi preso e acabou exilando-se nos Estados Unidos.

A volta ao Brasil foi marcada por uma sequência de discos bem-sucedidos, lançados entre 1975 e 1977, como “Novo Aeon”, “Há 10 Mil Anos Atrás” e “O Dia Em Que a Terra Parou”, música que celebra uma espécie de greve geral, além da música que se tornou o verdadeiro sinônimo do artista: “Maluco Beleza”.

“Alugar o Brasil”
Cada vez mais celebrado por jovens que se rebelavam contra a ditadura das formas mais distintas, seja pela ruptura com os padrões de comportamento, seja pelo engajamento na luta política, Raul respondia à altura, compondo músicas que se transformaram em manifestos de uma época, como “Aluga-se”. Lançada no disco Abra-te Sésamo (1980), era uma mordaz ironia à dívida externa do país que engordava o bolso dos estrangeiros. O refrão, “nós não vamos pagar nada”, tornou-se um hino contra a dívida na época.

A letra da canção nunca foi tão atual quanto nestes tempos em que Bolsonaro e Paulo Guedes afirmam aos quatro ventos que “a solução é alugar o Brasil” para os gringos.

Últimos sucessos
Em 1984, Raul lançou Metrô Linha 743, cuja música-título, com versos cortantes como “Eu morri e nem sei mesmo qual foi o mês”, mostravam a amargura do cantor.

O último grande sucesso veio com “Cowboy Fora da Lei”, lançada em 1987, num disco que trazia o impagável título de Uah-Bap-Lu-Bap-Lah-Béin-Bum!. Os trabalhos seguintes, como A Pedra do Gênesis (1988) e A Panela do Diabo (lançado em 1989) foram feitos em meio a uma situação de crescente deterioração das condições físicas de Raul, atingido por pancreatite e hepatite crônicas, uma situação que o levou a uma fatal parada cardíaca em 21 de agosto de 1989.

Toca Raul!
Autor de frases como “O homem é o único ser que tem o poder de modificar as coisas” e “A desobediência é uma virtude necessária à criatividade”, Raul Seixas foi uma figura inigualável na história de nossa música e, por isso mesmo, continua sempre atual.

Dotado de uma paixão desenfreada pela vida, de capacidade de se metamorfosear permanentemente e de uma (nem sempre) lúcida maluquez, Raulzito não só marcou uma época, como continua a embalar os corações e mentes de todos aqueles que sonham e lutam por uma sociedade alternativa.

É exatamente por isso que, em pleno século 21, é praticamente impossível que uma noitada num boteco com música ao vivo, uma festa ou um show que reúna gente antenada com o mundo possa acabar sem que alguém encha os pulmões para gritar: “Toca Raul!”.