‘Saneamento básico, o filme´ homenageia o cinema

Cartaz de divulgação do filme
Reprodução

No filme e na sociedade, cinema se mostra tão importante quanto saúde públicaSaneamento Básico, o filme, novo longa dirigido e escrito por Jorge Furtado (O Homem que copiava e Meu tio matou um cara), parte de uma questão de saúde pública de um vilarejo para discutir o que é cinema, qual sua importância e como fazê-lo. E o faz através de uma narrativa cômica, centrada em vários personagens fortes.

A narrativa se passa em Linha Cristal, um vilarejo do Rio Grande do Sul povoado por algumas famílias descendentes de italianos. O grande problema que mobiliza a cidade é a falta de uma fossa para o tratamento do esgoto. A subprefeitura afirma que não há verbas para obras de saneamento naquele ano. No entanto, há verbas federais paradas que deveriam ser destinadas à produção de um vídeo para um concurso. Se o dinheiro não for gasto com este propósito, terá que ser devolvido. Os moradores, liderados por Marina (Fernanda Torres) decidem fazer um vídeo para o concurso e usar o restante da verba para as obras da fossa.

Tal decisão é o início da aventura da descoberta do cinema. É preciso fazer um filme de ficção, apresentar um roteiro e um projeto. É preciso descobrir o que é ficção, o que é roteiro, montagem, o que é cinema. Como filmar o que o personagem pensou? Como apresentar o personagem? Como incluir um merchandising com o nome do patrocinador?

Repleto de momentos metalingüísticos, em que o cinema fala sobre o próprio cinema, Saneamento Básico transforma tudo isso em descoberta e em comédia. Os conceitos de linguagem cinematográfica surgem como sugestões de cada um, como quando Marina propõe uma cena em que “a câmera é o monstro olhando a Silene, como se a gente fosse o monstro”, explicando com gestos e palavras a câmera subjetiva.

Mas a metalinguagem está presente não só quando o filme fala sobre o cinema ou quando aparece a produção de um filme dentro de outro filme. Também há uma homenagem simbólica: os dicionários, instrumentos máximos da metalinguagem, aparecem durante toda a trama, guiando os personagens em suas descobertas. É a partir deles que se descobre que ficção é ‘filme de monstro´ ou que quimera é um monstro mitológico (além de também significar utopia!).

Ao desvendar o universo do cinema, os personagens se encantam e o vídeo de dez minutos que serviria apenas para justificar a verba para construir a fossa acaba ganhando importância na vida dos personagens. Agora, os esforços, a busca por mais recursos quando surge a necessidade, tudo se volta para o filme. Assim, Jorge Furtado parece afirmar que saúde pública e saneamento são muito importantes, mas também o é a arte.

Dentro do filme
Ao contrário do que fez em seus filmes anteriores, Jorge Furtado não concentra a história num protagonista, nem o coloca como narrador. Desta vez, há um grupo de personagens de grande importância, com características marcantes e participação equilibrada na trama, ainda que Marina esteja à frente deste grupo. Não é à toa, tendo em vista a característica coletiva do fazer cinematográfico.

Os personagens e suas características assumidamente se baseiam na Comédia dell´arte, teatro cômico que surgiu na Itália no século XVI, feito por atores profissionais, com um grupo definido de 8 a 12 personagens com máscaras e características marcantes, com os quais seria possível construir inúmeras histórias diferentes. A característica principal era o improviso.

Em Saneamento Básico, muitas das características dos personagens parecem com as de personagens da Comédia dell´arte. O exemplo mais claro é o da dupla de velhos italianos Otaviano (Paulo José) e Antônio (Tonico Pereira), que fazem grandes cenas brigando e se reconciliando. Eles são a imagem perfeita dos tradicionais personagens Pantaleone e Dottore. Em ambas as duplas de senhores, um é veneziano e o outro bolonhês, um é nobre em decadência e o outro é burguês em ascensão. Também nos dois casos, há uma relação de amizade e rivalidade desde a infância.

Além da categoria dos velhos, os personagens da Comédia dell´arte podiam ser ainda do grupo dos enamorados e do grupo dos criados (zanni). Os zanni eram os personagens mais espertos e que moviam a trama. Aí parecem se enquadrar vários personagens de Saneamento Básico, como Zico (Lázaro Ramos), Joaquim (Wagner Moura) e Marina, que é a voz realizadora e sensata da Colombina. O grupo da Linha Cristal se completa com o casal Silene (Camila Pitanga) e Fabrício (Bruno Garcia), os enamorados.

Dentro al cinema
A partir daí se compreende melhor a presença da trilha sonora quase toda em italiano, com canções como “Io che amo solo te” e “O sole mio” passeando com os personagens pelas belas montanhas da serra gaúcha. O que se diferencia é a música escolhida pelo grupo para finalizar O monstro do fosso: “It had to be you”, na voz de Billie Holiday. Neste momento, o grupo decide pagar os direitos para usar a música, pois “sem a música não tem cena!”, fato que mostra a importância da trilha sonora num filme.

Já a sugestiva música final, “Dentro al cinema” possui como ‘eu lírico´ um personagem falando de dentro da tela de um cinema, vendo o público que o assiste e afirmando: não somos nós que fazemos o cinema. Assim, Furtado olha de dentro pra fora do cinema e, além de homenagear esta arte, homenageia também o público, que faz do cinema algo vivo e necessário.

FICHA TÉCNICA:
Título Original: Saneamento Básico
Gênero: Comédia
Tempo de Duração: 112 minutos
Ano de Lançamento: 2007 (Brasil)
Direção: Jorge Furtado
Roteiro: Jorge Furtado
Montagem: Giba Assis Brasil
Produção: Nora Goulart e Luciana Tomasi
Música: Leo Henkin
Fotografia: Jacob Solitrenick
Direção de Arte: Fiapo Barth
Elenco: Fernanda Torres (Marina), Wagner Moura (Joaquim), Camila Pitanga (Silene), Bruno Garcia (Fabrício), Lázaro Ramos (Zico), Janaína Kremer (Marcela), Tonico Pereira (Antônio), Paulo José (Otaviano)

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