“Martírio”: documentário escancara o genocídio Guarani-Kaiowá

Cena do documentário "Martírio"

“Martírio” é um documentário imperdível. Imperdível porque é essencial para compreender um dos mais longos e violentos conflitos de terra do Brasil: o genocídio contra os Guarani-Kaiowá e Ñandeva no Mato Grosso do Sul.

Realizado pelo documentarista e antropólogo, Vincent Carelli (que também dirigiu o excelente Corumbiara), o filme exibe cenas de quase 30 anos de experiência do diretor com os povos indígenas do Mato Grosso do Sul.

Classificar a situação dessas populações indígenas como genocídio está longe de ser um exagero. Afinal, como classificar uma situação na qual fazendeiros organizam milícias armadas que invadem aldeias (tanto faz se é de noite ou durante o dia) atirando a esmo contra crianças, idosos e mulheres? Ou ainda as emboscadas de pistoleiros ou atropelamentos propositais contra lideranças indígenas? E ainda os aviões dos fazendeiros que lançam veneno sobre as casas e roçados das aldeias, acampamentos e retomadas; os estupros de mulheres e crianças e uma das maiores taxas de suicídios do mundo. Suicídios que expressam a calamidade vivida por esse povo. Sem sua terra original, sem poder plantar seu roçado e manter seu modo de vida, tirar a própria vida tornou-se uma via de fuga desesperada entre os Kaiowás.

Nos últimos 12 anos foram assassinados mais 400 Kaiowás e Ñandevas no Mato Grosso do Sul, segundo dados do Conselho Missionário Indigenista (CIMI). É mais de 30 assassinatos por ano, uma verdadeira Palestina dentro do Brasil. Mas quem já foi numa aldeia e ouviu os relatos sobre as barbaridades cometidas pelos fazendeiros e pistoleiros sabe que o número é bem maior. Há um número incontável de desaparecidos, atropelados e gente morta por envenenamento que não figuram nas estatísticas.

Quando se está na região meridional do Mato Grosso do Sul, porção do território originário dos Kaiowás, é preciso ter cuidado com o que fala e com quem fala. O racismo é brutal. Simpatizantes da causa indígena não são bem-vindos e podem sofrer retaliações. Também é preciso tomar cuidado quando se percorre as estradas cruzando imensas plantações de soja em direção às aldeias e retomadas. Uma emboscada pode lhe esperar logo ali à frente. Por isso, não é nada estranho saber que o documentário não está em cartaz em nenhuma sala de cinema do Mato Grosso do Sul.

Esse medo e tensão estão presentes em “Martírio” que, em suas três horas de duração, resgata a longa marcha de resistência dos indígenas. Nos séculos XVI e XVII foram vítimas das temíveis bandeiras paulistas. Depois, no final do século XIX, suas terras foram tomadas e arrendadas aos grandes produtores de erva mate. Nessa época, os Kaiowás se tornaram escravos nas grandes plantações, atados pelo sistema de peonagem ou escravidão por dívida em lojas comerciais.

Na década de 1940 foram definitivamente expulsos de suas terras por meio de projetos de colonização. Foram, assim, confinados como bichos em oito pequenas reservas indígenas que juntas não somavam 1% de seu antigo território original. Veio a “revolução verde” e o “moderno” agronegócio nos anos 1970 que varreu quaisquer vestígios das imensas florestas que cobriam a região. Hoje, um mar de soja e cana cobrem aquela terra vermelha.  Enquanto isso, o antigo SPI (e depois Funai), a partir de uma perspectiva eurocêntrica ainda incrustada na sociedade brasileira, tentam aniquilar a população indígena e incorporá-los à suposta “civilização”.

Entretanto, nas décadas de 1970 e 1980 veio a resposta indígena com as retomadas dos seus antigos territórios. Foi nessa época que surge aos olhos do mundo e do país a luta Kaiowá. Marçal de Souza Tupã-Y foi o seu porta-voz. Em 1980 discursou para o papa João Paulo II e três anos depois foi assassinado com tiros na boca. Mas os indígenas não se calaram e as retomadas seguiram. Novas lideranças e mártires surgiram como o cacique Marcos Veron, Genivaldo Vera, Rolindo Vera, Nísio Gomes, Semião Fernandes Vilhalva e muitos outros que poderiam encher essa página.

O que tá pegando a gente é o capitalismo”, explica em guarani uma jovem liderança indígena em uma das cenas de “Martírio”. A imagem foi captada numa Aty Guasu (assembleia dos caciques Kaiowás e Ñandeva) em 1988 e demonstra a total clareza dos indígenas sobre quem são seus inimigos e contra quem se deve lutar.

O documentário também mostra vários minutos dos discursos de políticos ruralistas no Congresso Nacional. A bancada do agronegócio não se constrange em destilar ódio, racismo e inventar absurdas mentiras sobre as populações indígenas, classificados de vagabundos, inimigos do progresso e privilegiados por viverem de… cestas básicas…

O filme também exibe os famosos leilões de bois realizados por fazendeiros para arrecadar dinheiro e organizar milícias contra os indígenas. É preciso ter estômago para ver essas cenas. Talvez seja por isso que o espectador tenha vontade de pular de alegria quando o documentário exibe a cena em que centenas de indígenas invadem o plenário da Câmara dos Deputados e literalmente botam os parlamentares para correr. A cena é de abril de 2016 quando foi realizada uma marcha nacional indígenas contra a PEC 215 que transfere a demarcação das terras indígenas para o Congresso.

A covardia e a conivência dos governos petistas também são escancaradas. E não é só porque Kátia Abreu (ministra da Agricultura do governo Dilma), ao lado de Ronaldo Caiado, está presente no leilão da morte. Mas porque mostra um governo de joelhos aos latifundiários quando a ex-ministra da Casa Civil de Dilma, a senadora Gleisi Hoffmann (PT) promete, em audiência na Comissão de Agricultura da Câmara, que as demarcações seriam suspensas. Uma cena repulsiva e humilhante.

Em 2007, a Funai se comprometeu a identificar e demarcar 39 territórios indígenas. Mas nessa mesma época o agronegócio dá um salto, financiado, sobretudo, pelo dinheiro público.  A emblemática declaração do então presidente Lula chamando os usineiros de “heróis” foi uma expressão da aliança dos governos do PT com o agronegócio.  O resultado é que nenhum terra Kaiowá foi regularizada em todo o período dos governos do PT. Certa vez, em conversa com uma liderança Kaiowá, descobri que Lula sequer se prontificou em receber as lideranças indígenas. “Lula nos traiu, nos trata como se a gente fosse bicho”, disse a liderança. “Até o Fernando Henrique nos recebia”, confessou sem disfarçar sua revolta.

Escovar a história a contrapelo” é a instrução dada por Walter Benjamin em suas famosas teses sobre História. O documentário de Vincent Carelli consegue fazer isso com competência. Dá a voz àqueles que sempre tentaram calar na bala. Traz à luz o drama dos invisíveis e vulneráveis que continuam a lutar pela sua Tekoha – palavra guarani que significa lugar da vida. Um documento imprescindível para entender o Brasil e para se indignar e lutar. Terra, justiça e demarcação!