Aos 77 anos de seu assassinato, continuar a batalha de Trotsky e reconstruir a IV Internacional

No dia 20 de agosto de 1940, em Coyoacán, México, onde estava exilado, foi assassinado o revolucionário russo Leon Trotsky, com um golpe pelas costas de um agente da GPU (policia política russa), a mando de Stalin, seu antigo camarada de Partido. Trotsky morreu no dia seguinte, em consequência do golpe. Ao seu funeral no México, compareceram 30 mil pessoas.

Muitos quiseram fazer passar esta morte como um episódio de luta pessoal entre dois dirigentes russos pelo poder. Pelo contrário, como referia o próprio Trotsky, a história do seu destino esteve sempre ligado à história da luta de classes.

Falar dos 77 anos do seu assassinato é falar, portanto, de uma das batalhas políticas mais importantes do século XX. Sem ela dificilmente poderíamos encarar os desafios dos nossos dias.

Um dos principias dirigentes bolcheviques
Trotsky foi Presidente do Soviete de Petrogrado, a organização operária e de massas, embrião do futuro estado operário, na Revolução russa de 1905 e de novo em 1917.

Encabeçou o Comitê Militar Revolucionário, conduzindo o assalto ao Palácio de Inverno, que culminou a tomada do poder pelos trabalhadores em 1917. No novo estado operário, entre outras tarefas vitais, Trotsky organizou e dirigiu o Exército Vermelho que levou à vitória dos bolcheviques na guerra civil (1918-1921) contra 14 exércitos das principais potencias imperialistas. Junto a Lênin, foi ainda um dos fundadores e destacadas figuras da III Internacional, a Internacional Comunista. Segundo Lênin escreve no seu testamento (Dezembro 1922), Trotsky era “o homem mais capaz do CC do Partido Bolchevique”.

A batalha contra a burocratização
A construção do novo estado operário russo deu-se, todavia, em condições mais adversas do que os seus dirigentes haviam imaginado. As outras revoluções que assolaram a Europa no fim da I Guerra Mundial foram derrotadas e o estado operário russo ficou isolado. A primeira revolução socialista da história tinha triunfado num país atrasado, cultural e economicamente, e não num dos principais países imperialistas. Também a guerra civil, apesar de ter sido vitoriosa, cobrou a vida do melhor da vanguarda operária surgida durante a revolução, deixando mais espaço aos elementos mais atrasados e acomodados.

Todos estes elementos levaram a que se fossem afirmando tendências burocráticas no novo estado operário. Nos últimos anos da sua vida, Lênin levou a cabo uma forte luta contra essas tendências no interior do estado soviético, intimamente ligadas com a degeneração burocrática do partido bolchevique. Depois da morte de Lênin, foi Trotsky que continuou esta batalha. Stalin, secretário geral do partido, era pelo contrário o principal instigador das tendências burocráticas.

A perseguição implacável da burocracia
A burocracia stalinista foi o oposto do bolchevismo: na política, teoria, no programa, na moral, na concepção de partido e de estado operário. Para sustentar os seus privilégios, a burocracia precisava, portanto, destruir a herança dos bolcheviques, a sua concepção revolucionária em todos os aspectos.

Para fazer tudo isso em nome do “bolchevismo” era, contudo, necessário destruir não apenas as concepções, mas todos aqueles que eram parte dessa herança bolchevique: desde o próprio partido ao melhor da vanguarda proletária, ambos forjados em grandes acontecimentos da lutas de classes.

Por isso, a burocracia só podia conquistar definitivamente o poder por meio da luta contra a vanguarda proletária, contra a democracia proletária no partido e nos soviets, pelo que vai afastando e posteriormente eliminando política e fisicamente todos aqueles que se opõem ao seu poder.

Os Processos de Moscou são a maior expressão disso, na medida em que levaram em larga escala calunias e falsificações contra os principais dirigentes bolcheviques. São assim a institucionalização máxima de uma moral totalmente oposta à do bolchevismo, onde sempre primara a polêmica política, mas nunca as calúnias e ataques morais. Esses processos resultaram na execução da maioria dos membros do CC do partido da época de Lênin, além de vários proeminentes militantes e dirigentes do Exército Vermelho. Alguns destacados dirigentes bolcheviques fizeram parte da Oposição de Esquerda e levaram uma luta conseqüente contra a burocracia; muitos morreram na Sibéria, ainda antes dos processos de Moscou. Pelo contrário, outros dirigentes bolcheviques, sob tortura, coerção e chantagem, fizeram “confissões” corroborando as falsificações de Stalin e revisaram as suas concepções e idéias que até aí haviam defendido.

A batalha contra Trotsky não foi a única, mas foi a mais importante. Por um lado, porque era o mais prestigiado dirigente do partido depois de Lênin, pelo que era o oponente mais perigoso. Por outro lado, Trotsky era também um dos opositores mais conseqüentes, que sempre se manteve firme na defesa da URSS contra os ataques do imperialismo, mas também da necessidade de uma revolução política das massas que derrotasse a burocracia e restituísse a democracia operária. Ele nunca sucumbiu às chantagens da burocracia (apesar da maioria da sua família ter sido morta por Stalin) e, baseado num sólido marxismo, nunca se iludiu com as bruscas viragens à esquerda ou à direita da direção de Stalin.

Por isso, Trotsky era a principal ameaça a Stalin, pois poderia conduzir com êxito a batalha dos trabalhadores para derrotar a burocracia e restituir a democracia socialista, poderia encabeçar uma futura onda de lutas revolucionárias na URSS ou na Europa, poderia organizar uma nova direção internacional que conduzisse ao triunfo uma nova revolução. Qualquer uma destas hipóteses era uma ameaça à existência da burocracia como casta privilegiada.

Porque Stalin mandou assassiná-lo?
Trotsky foi primeiro enviado para o exílio dentro da URSS, depois expulso do partido e do país, tendo-lhe sido retirada a nacionalidade russa. Contra ele foram ainda feitas diversas acusações e uma forte campanha internacional que pretendia desprestigiá-lo como dirigente, colocando-o alternadamente como agente do fascismo, do imperialismo e inimigo jurado da revolução russa e do estado soviético. Por isso as suas fotos ao lado de Lênin foram apagadas e o seu passado de dirigente revolucionário escondido e deturpado.

A perseguição a Trotsky culminou no mandato de Stalin para o seu assassinato. Este acreditava que matando a figura mais importante do movimento “trotskista”, que ligava a velha geração de revolucionários russos às novas gerações, acabaria com este movimento. Tendo a primeira tentativa falhado, a 24 de Maio de 1940, em Agosto do mesmo ano, a nova tentativa alcançou os objetivos.

A III Internacional foi destruída pelo stalinismo
A morte de Trotsky foi um golpe muito importante para aqueles que defendiam a continuidade do bolchevismo, na época da degeneração burocrática do partido bolchevique, e que ficaram conhecidos como “trotskistas”.

A burocracia stalinista não tomou conta apenas do estado operário e do partido bolchevique, degenerando-os. Assaltou também a III Internacional que tinha sido construída como Partido Mundial da Revolução Socialista, depois da II Internacional durante a I Guerra ter traído os trabalhadores e apoiado os seus próprios governos burgueses. De instrumento revolucionário dos trabalhadores na luta pelo poder no mundo inteiro, a III às mãos de Stalin passou a estar ao serviço dos interesses da burocracia soviética no mundo.

Por isso, frente aos grandes acontecimentos da luta de classes entre as duas grandes guerras (como a revolução chinesa de 1923-1925, a guerra civil espanhola ou o governo de frente popular na França) a III foi um obstáculo central às novas vitórias revolucionárias. Finalmente, o grande fato que leva Trotsky a romper com a III e considerá-la perdida para a revolução é a política desastrosa do PC Alemão que permitiu a ascensão ao poder do nazismo neste país.

Ao contrário do que desejava Stalin o assassinato de Trotsky não acabou com a herança da III Internacional, que era o grande legado dos bolcheviques à revolução mundial. Se isso aconteceu podemos devê-lo essencialmente, aquela que Trotsky considerou “a tarefa mais importante da sua vida”: a construção da IV Internacional (1938).

A IV continua a batalha dos bolcheviques leninistas
A IV Internacional foi o elo –ainda que frágil– entre toda uma geração de revolucionários que conduziram a 1ª revolução socialista vitoriosa, dirigiram o 1º estado operário e construíram a III Internacional –a Comunista– e nova geração de revolucionários que surgiu entre a I e a II Guerra mundial que procurava uma alternativa revolucionária à Social-democracia e ao stalinismo.

Por um lado, ela é a continuidade política, teórica, ideológica e programática da III Internacional fundada pelos bolcheviques, pelo que a corrente organizada por Trotsky (a Oposição de Esquerda Internacional1 primeiro e a IV Internacional depois) sempre se auto-intitulou bolchevismo-leninismo. Quando a direção stalinista levava a cabo a revisão das principais elaborações históricas dos bolcheviques e da III Internacional, a corrente liderada por Trotsky atualizou o acumulo marxista frente aos novos acontecimentos da luta de classes, como a degeneração do estado operário na Rússia e o surgimento do fascismo. Toda essa elaboração concretizou-se no Programa de Transição, documento fundador da IV Internacional, escrito por Trotsky.

Por outro lado, a IV foi a resposta organizativa à crise de direção revolucionária, surgida a partir da degeneração da III Internacional. Por isso surgia como uma direção revolucionária ainda minoritária, mas alternativa à social-democracia e ao stalinismo, que pudesse, num novo momento da luta de classes, dirigir os novos ascensos revolucionários seja contra a burguesia imperialista seja contra a burocracia.

A IV Internacional foi, assim, o coroar político e organizativo da batalha dirigida por Trotsky contra a degeneração do Estado operário, do Partido Bolchevique e da própria Internacional Comunista.

Sem Trotsky
A recém fundada IV Internacional teve que encarar com uma direção extremamente frágil, jovem e inexperiente, grandes fatos da luta de classes como a II Guerra Mundial, a derrota do fascismo e o grande ascenso revolucionário que lhe seguiu. A direção stalinista da URSS capitalizou a derrota do fascismo e surfou o ascenso revolucionário depois da II Guerra. Os partidos comunistas, dirigidos pelo stalinismo, saíram fortalecidos da II Guerra Mundial, deixando pouco espaço para aqueles que como os trotskistas se lhes opunham.

Ao mesmo tempo, a nova direção da IV Internacional cometeu diversos erros, capitulando seja ao stalinismo, seja às novas direções pequeno-burguesas. Esses erros impediram que a IV Internacional se tornasse uma forte organização de vanguarda a nível internacional e tiveram como conseqüência a divisão e destruição da IV Internacional como organização centralizada.

Apesar disso, os trotskistas não desapareceram. Muitas correntes se reivindicam trotskistas, muitas vezes revisando o pensamento de Trotsky e tendo pouco a ver com os seus ensinamentos. Outras correntes, como a LIT-QI, sempre batalharam pela reconstrução da IV Internacional sobre bases principistas como resposta à crise de direção revolucionária que vivemos até hoje.

O veredito da história
Apesar dos erros dos “trotskistas”, o veredicto da história deu razão a Trotsky sobre Stalin. Os stalinistas durante décadas caluniaram Trotsky como um “contra-revolucionário” que queria destruir a União Soviética. No entanto, foi essa mesma burocracia estalinista que acusava Trotsky a que restaurou o capitalismo na URSS, acabando com o primeiro estado operário da história.

O veredito da história comprovou também a caracterização de Trotsky de que sem uma revolução política que derrubasse a burocracia na URSS, seria a própria burocracia a restabelecer o capitalismo no país. A restauração do capitalismo demonstrou ainda na prática que era impossível – ao contrário do que propagavam os Stalinistas – construir o socialismo num só país e que a única saída é a revolução socialista mundial.

A agonia mortal do capitalismo e a atualidade do trotskismo
No entanto, não foi apenas frente ao stalinismo que a história deu razão a Trotsky. Com a queda dos regimes stalinistas no Leste Europeu, a burguesia mundial preconizou o fim do socialismo e a superioridade do capitalismo.

A atual crise econômica mundial e a miséria crescente que vem trazendo para muitos milhões de trabalhadores em todo o mundo são apenas a expressão mais recente e visível da agonia mortal do capitalismo2 que só pode trazer miséria e destruição à classe trabalhadora e a população pobre de todo o mundo.

Frente à barbárie capitalista que vai tomando proporções diariamente mais assustadoras, a necessidade da tomada do poder pela classe operária através da revolução socialista mundial é hoje mais premente que nunca. A crise da humanidade é, como dizia Trotsky, a crise da sua direção revolucionária, pelo que a atualidade do trotskismo prende-se também com a atualidade de reconstruir a IV Internacional, que mais não é do que o partido mundial da revolução socialista.

Acreditando na força revolucionária da classe operária
O assassinato de Trotsky não foi, portanto, uma vingança pessoal de Stalin. Pelo contrário, foi o culminar de uma longa luta entre dois projetos opostos para a revolução mundial e para o estado operário russo. O trotskismo nasceu num período de refluxo profundo das grandes lutas revolucionária que tinham assolado o mundo no fim da I Guerra Mundial, frente a grandes derrotas da classe operária mundial como o fascismo e a degeneração da URSS. Apesar dos tempos adversos e das traições e calúnias de que foi alvo, Trotsky manteve sempre a sua moral revolucionária e acima de tudo acreditou nas forças da classe para superar os obstáculos. Tal como escrevia numa carta a Angélica Balabanoff, intitulada “Contra o Pessimismo” (1937): “Há que encarar a História tal como se apresenta, e quando esta permite ultrajes tão escandalosos e sujos, devemos combatê-la com os punhos”.

Trotsky soube sempre que a batalha que era perpetrada contra sua pessoa era uma batalha política, produto de forças profundas na situação internacional. Por isso, para lá do seu destino pessoal, manteve até ao final a sua crença profunda na força revolucionária da classe trabalhadora para batalhar contra o imperialismo e a burocracia. O grande ensinamento de Trotsky foi ter-se mantido marxista, revolucionário, internacionalista, conseqüente até ao ultimo dia da sua vida, mesmo quando nadava contra a corrente.

Continuar a batalha de Trotsky
A LIT fundou-se e coloca até hoje as suas forças ao serviço de reconstruir a IV. Podemos existir e dar essa batalha hoje, porque tomamos o Programa de Transição e os seus ensinamentos, procurando atualizá-los para os nossos dias.

Sabemos que somos ainda uma corrente modesta. No entanto, muitos ativistas e revolucionários têm na LIT-QI uma referência, pela sua política conseqüente de batalha contra a burguesia e o capitalismo, bem como contra os seus agentes no movimento operário.

A nossa força provém de continuarmos a batalha de Lênin e Trotsky pela superação da crise de direção revolucionária, para a tomada do poder pela classe operária e construção do socialismo a nível internacional.

Num momento, em que se sobrepõe a crise profunda do stalinismo com a agonia do capitalismo, pensamos que a melhor homenagem que podemos prestar a Trotsky, quando se assinalam os 70 anos do seu assassinato, é retomar os seus ensinamentos para reconstruir a IV Internacional.

1 Tendência num primeiro momento e fração num segundo momento dirigida por Trotsky dentro dos partidos comunistas.

2 Referência ao programa de transição que se intitula “A agonia mortal do capitalismo e as tarefas da IV Internacional”.

 

Liga Internacional dos Trabalhadores (LIT-QI)