Depois do 15M, Greve Geral contra as reformas, uma tarefa inadiável

 

Nos últimos meses, um debate recorrente esteve presente nas reuniões das centrais sindicais que discutiram como enfrentar os ataques do governo Temer aos direitos dos trabalhadores – a correlação de forças no país. Para rejeitar as recorrentes propostas feitas pela CSP-Conlutas de convocação de uma Greve Geral, algumas centrais insistiram na alegação de que a classe trabalhadora está na “defensiva”, devido ao “golpe” e à “onda conservadora” que teria tomado conta do país. Por esta razão, não haveria disposição por parte dos trabalhadores e trabalhadoras para fazer uma Greve Geral que pudesse derrotar o governo.

Este foi o argumento usado pela direção da CUT, por exemplo. Já a cúpula da Força Sindical e de outras centrais, enveredaram pelo caminho da “negociação” das reformas, argumentando não haver força para derrotá-las em seu conjunto. Esta é a razão pela qual o dia 15 não foi convocado como Greve Geral e sim como “dia de paralisações e manifestações”.  Aliás, mesmo alguns setores da esquerda têm utilizado este mesmo tipo de argumento – defensiva da classe, onda conservadora – para concluir que não havia disposição da classe para a Greve Geral, como pudemos ver em debate realizado na Coordenação Nacional da CSP-Conlutas.

A gigantesca mobilização dos trabalhadores e trabalhadoras que sacudiu o país neste 15 de março tratou de resolver esta polêmica da forma mais incontestável. Demonstrou que, na verdade, os que diziam que a classe não tinha disposição de luta estavam apenas expressando sua própria falta de confiança na classe trabalhadora – tão hipnotizados que estavam (ou ainda estão?) pela ideia do tal “golpe” e da “onda conservadora”. O que se viu no país, neste dia 15, foi sim uma onda. Imensa aliás. Mas, conservadora?

Manifestação do 15M em BH

A classe trabalhadora brasileira demonstrou de forma categórica que tem sim disposição de enfrentar as reformas e outros ataques que têm sido feitos contra ela. E que tem forças para derrotar estes ataques e o governo que os está promovendo. Que não só quer, como deu demonstrações lindas de unidade por baixo, na luta. O obstáculo, até agora, tem sido as cúpulas do movimento. É preciso que as lideranças sindicais façam a sua parte. Não é possível mais justificar a ausência da definição de uma data para a realização de uma Greve Geral que pare o país para derrotar as reformas e o governo Temer.

É um verdadeiro crime contra os trabalhadores que dirigentes, busquem “negociar” mudanças pontuais nestas reformas, como está fazendo a cúpula da Força Sindical e de outras centrais. Tanto as propostas de Temer como a emenda do deputado Paulinho configuram um ataque aos nossos direitos. Os dirigentes que estão negociando emendas na reforma (além de Paulinho, aparentemente é o que está fazendo também a cúpula da UGT e da CSB) não falam em nosso nome, não falam em nome dos trabalhadores.

A tarefa é impedir a aprovação destas reformas, e isso sé perfeitamente possível, só não acontecerá se as centrais sindicais não fizerem sua parte. As centrais sindicais não podem continuar fugindo à sua obrigação de definir uma data unitariamente, e convocar a greve Geral contra as reformas da Previdência e trabalhista, e contra todos os ataques que estão em curso contra a classe trabalhadora.

Se não o fizerem, vai caber aos sindicatos na base, e aos comitês de luta contra as reformas, tomar para si esta tarefa.

Foto Mídia Ninja

Fora Temer! Fora Todos Eles!
O presidente Temer, ao mesmo tempo em que ocorriam greves e protestos em todo o país, teve a desfaçatez de afirmar que a população apoia as reformas. Na verdade, isso só demonstra que o governo e o parlamento brasileiro mandaram às favas os interesses dos trabalhadores e trabalhadoras e vão continuar atacando nossos direitos para defender os banqueiros e grandes empresários.

Está completamente correta, então, a percepção que os trabalhadores e trabalhadoras demonstraram neste 15 de março: para pôr fim a todos estes ataques nossa classe precisa mais que derrotar as reformas da Previdência e trabalhista. Precisa derrubar o governo que aí está e este Congresso Nacional corrupto que lhe dá sustentação. Por isso os gritos de “Fora Temer” ecoaram por todos os lados, no Brasil inteiro.

A nossa luta, que tem seu ponto de partida no enfrentamento das reformas e dos ataques aos nossos direitos, precisa prosseguir até colocar para fora o governo Temer e este Congresso cheio de corruptos. Fora Temer! Fora Todos Eles! Convocação imediata de novas eleições gerais, com regras diferentes das atuais!

Uma saída dos trabalhadores e trabalhadoras para a crise – Lula não nos representa!
A unidade na luta para enfrentar os ataques do governo aos nossos direitos é absolutamente necessária, e todos que tem compromisso com os trabalhadores e trabalhadoras devem lutar por ela. No entanto essa unidade não é possível quando se trata de apresentar uma alternativa política para o país e para a classe trabalhadora brasileira.

O PT está apresentando, como saída para o país, a alternativa “Lula 2018”. Tenta legitimá-la com a narrativa de que Temer teria dado um “golpe” para atacar os direitos dos trabalhadores, omitindo que o ajuste fiscal e os ataques contra os trabalhadores já vêm desde o governo anterior, da presidenta Dilma, do PT. Basta ver a proposta de reforma da Previdência apresentada pela presidenta petista em 2015. Por incrível que pareça, de uma forma mais aberta ou mais envergonhada, vários setores da esquerda socialista têm embarcado nessa. Nós não temos nenhum acordo com esta política. Lula não fala em nosso nome.

Aqui há dois problemas. O primeiro é que, ao tomar a organização e condução do ato do dia 15 na Avenida Paulista, que deveria ter sido coordenado pelas centrais sindicais, e colocar Lula para encerrar a manifestação, a CUT e a Frente Povo Sem Medo tentam se apropriar da luta contra as reformas e transformá-la em campanha eleitoral de Lula 2018. Lula, obviamente, poderia ser o representante e o orador do PT no ato. Mas o ato era das centrais, de todos os trabalhadores que estão lutando, e não apenas daqueles que concordam com Lula. Quem deveria ter encerrado o ato eram as centrais sindicais. Não é secundário este problema, pois pode inviabilizar a unidade necessária para a luta contra as reformas e contra Temer. Esta foi a razão apontada por algumas centrais para não estarem no ato da Paulista. Desculpa, ou não, destas centrais, é inaceitável que uma questão como esta atrapalhe a necessária unidade para definir unitariamente uma data e a convocação da Greve Geral.

O segundo problema é que o PT segue defendendo um governo de aliança com o grande empresariado, que governe apoiado neste Congresso Nacional repleto de corruptos e de costas para os trabalhadores e trabalhadoras, como fez nos dois mandatos de Lula e nos de Dilma. Um governo assim seria apenas mais uma continuação do que aí está. Já dizíamos antes que não resolveria os problemas da classe trabalhadora trocar seis por meia dúzia, tirando Dilma com o impeachment e colocando Temer. Que Temer continuaria e aprofundaria os ataques que Dilma já estava fazendo aos nossos direitos.

Um governo Lula não seria diferente do governo Dilma. O próprio Lula disse, ao final do seu segundo mandato, que “os banqueiros e grandes empresários não poderiam reclamar de seu governo, pois nunca antes haviam ganho tanto dinheiro”. E todos sabemos como banqueiro e grande empresário ganha dinheiro no capitalismo: arrancando o couro das costas dos trabalhadores. As diferenças aparentes entre os seus mandatos e o de Dilma se devem ao fato que de a economia crescia quando governou, ao contrário do que se passou com Dilma. Assim, trocar Temer por Lula seria trocar, agora, a meia dúzia pelo seis…

Os trabalhadores não precisam de um governo que se alie aos banqueiros e grandes empresários. Precisam de um governo que estatize os bancos e as grandes empresas e pare a sangria de recursos públicos suspendendo imediatamente o pagamento da dívida externa e interna; que nacionalize a terra para colocar os recursos do país a serviço de atender as necessidades da população; que pare as privatizações e reestatize o que foi privatizado; que exproprie as multinacionais e liberte nosso país do jugo do imperialismo; que coloque na cadeia e confisque os bens de todos os corruptos e corruptores. Que aponte no sentido da construção de uma sociedade socialista.

Só assim haverá emprego e direitos para todos; saúde e educação pública de qualidade; moradia; reforma agrária; acesso à cultura e ao lazer, etc. Só assim poremos ponto final em toda forma de discriminação e opressão que assola a vida das mulheres, dos negros e negras, dos imigrantes, dos povos indígenas e das pessoas LGBTs.

Ou seja, nossa luta deve ser por constituir um Governo Socialista dos Trabalhadores, sem patrões e sem corruptos, que governe através de Conselhos Populares e que, apoiado na luta da nossa classe, mude de verdade o nosso país e assegure vida digna a todos e todas que vivem do seu trabalho. Um governo assim nunca será atingido através deste sistema eleitoral corrompido e completamente controlado pelo poder econômico que temos no país. O Brasil precisa de uma revolução dos “de baixo” para derrubar os “de cima”.